Bullshit, mentira e sinceridade – escolha a sua opção

Sinceridade, mentira e conversa da treta são conceitos que parecem tão vulgares que não os debatemos suficientemente. Aliás, muitos de nós julgamos até saber o que são, quando, na verdade, os três nos remetem para a ideia de verdade, tão líquida, quanto escorregadia. Recordo-me de, na disciplina de lógica, concluirmos que a validade das nossas afirmações não nos permitia aferir a verdade das mesmas. A verdade é feita de um material que não adere à realidade de forma permanente e inequívoca. Há na verdade um campo enorme de especulação filosófica no bom sentido do termo, ou seja, na permanente interrogação a que somos acometidos quando pretendemos afirmar uma verdade. Bem vistas as coisas, em vez de afirmarmos uma verdade, devemos questionar uma verdade. Isso sim é pensar criticamente.

O pensamento crítico é o ingrediente mais precioso da liberdade, uma vez que através dele não corremos o risco de ficarmos reféns de supostas verdades, conversas da treta ou mentiras.

Sempre se falou sobre verdade, talvez hoje em dia, tão apetrechados que estamos de informação sem fontes válidas, o desafio para o pensamento crítico seja maior, e a verdade se já era questionada, hoje deve ser escrutinada lógica e filosoficamente até à exaustão.

Recentemente, li um livro de Harry Gordon Frankfurt, filósofo norte-americano, especializado nas áreas da filosofia moral, da mente e da ação, que procurava separar os conceitos de mentira e de bullshit, o mesmo será dizer, entre mentira e conversa da treta. Dizia-nos Frankfurt, no livro On Bullshit – Sobre a Conversa, o Embuste e a Mentira, que a linha que nos permite separar a mentira da conversa da treta está assente na intenção danosa e fraudulenta de quem fala. Ou seja, se na nossa conversa falamos de factos sem termos certeza de os mesmos serem verdadeiros ou falsos, mas com isso não estamos a querer enganar alguém (no sentido de lhe querer deliberadamente criar um problema), isso não é mentira, é bullshit. Imaginem aqueles “fala barato”, ou seja, aqueles para quem as palavras não têm valor, que falam por falar, para encher os dias, e nada mais, podem, sem sequer se aperceberem, estar a enganar alguém, contudo, não tendo intenção de enganar, porque nem sequer pararam para pensar criticamente no que disseram, não podemos chamar-lhes mentirosos, apenas “fala barato”.

A mentira tem subjacente a intenção danosa, essa intenção não existe na situação anterior.

Como podemos ver, a definição de mentira remete-nos para uma realidade de ordem estritamente subjetiva, ou seja, a intenção do sujeito mentiroso. Nada mais escorregadio. Teve ou não teve intenção? Nem sempre isso é claro.

Para agravar esta situação, Frankfurt acrescenta a ideia de sinceridade, ou seja, aquele sujeito que acredita ser verdade o que diz (porque não é negligente na aferição dos factos) e o manifesta. Até esse pode estar errado, porque não podemos olhar para o homem desintegrado da sua circunstância, como disse Ortega e Gasset, o Homem é ele e a sua circunstância, e nessa medida, sendo as circunstâncias voláteis e em constante mutação, ser sincero hoje pode não ser verdade amanhã, ou ser sincero aqui, pode não ser verdade noutro local.

Para não ficarmos baralhados, e seguindo apenas o pensamento de Frankfurt, temos (i) homens sinceros que aferem da validade do que afirmam, mas, ainda assim, podem não estar a dizer a verdade atendendo à volatilidade dos contextos, (ii) temos os homens que negligenciam a validade do que afirmam e sem se darem conta, fazem bluff, e, por fim, (iii) temos os mentirosos que têm intenção de enganar os outros com as afirmações falsas que produzem, contudo, estas intenções podem não ser verdadeiramente provadas ou demonstradas, e, nessa medida, os verdadeiros mentirosos remete-nos outra vez para a dificuldade de demonstrar a verdade.

Podemos falar de mentirosos, mentirosos, já de verdadeiros mentirosos, só a filosofia pode ajudar a definir.

Por: Catarina G. Barosa, diretora editorial da revista Líder

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