O burnout continua a alastrar no mercado de trabalho e já afeta a maioria dos profissionais. Segundo o Global Talent Barometer 2026, do ManpowerGroup, 63% dos trabalhadores admitem sofrer ou já ter sofrido de burnout, num contexto marcado pela aceleração tecnológica, pela adoção de inteligência artificial (IA) e pelo aumento da pressão para produzir mais.
Os principais fatores apontados pelos trabalhadores são o stress diário (28%) e as cargas de trabalho excessivas (24%), refletindo um ambiente profissional cada vez mais exigente e marcado pela necessidade constante de adaptação.
«O burnout deixou de ser apenas uma questão de bem-estar. É hoje um risco real para a produtividade, retenção e sustentabilidade das empresas», afirma Rui Teixeira, Country Manager do ManpowerGroup Portugal. Segundo o responsável, muitas organizações estão a acelerar a adoção tecnológica sem investir ao mesmo ritmo na formação e capacitação das equipas.
«A tecnologia e a IA têm potencial para aumentar a produtividade, mas a transformação só funciona quando as pessoas conseguem acompanhar o ritmo da mudança», sublinha.
Inteligência artificial aumenta pressão sobre trabalhadores
Apesar da aposta crescente em ferramentas de IA, os ganhos de eficiência continuam longe de ser consensuais entre os trabalhadores. De acordo com o estudo The Age of Adaptability, também do ManpowerGroup, 47% dos profissionais que já utilizam IA admitem não saber como atingir os níveis de produtividade esperados pelas empresas.
Mais expressivo ainda: 77% afirmam que estas ferramentas acabaram por aumentar a carga de trabalho ou reduzir a produtividade em pelo menos uma dimensão.
Ao mesmo tempo, a confiança dos trabalhadores na sua capacidade para utilizar as tecnologias disponíveis caiu 14 pontos percentuais face a 2025, fixando-se agora nos 64%.
Os dados revelam ainda fragilidades ao nível da qualificação. Mais de metade dos trabalhadores não recebeu formação recente (56%) nem acompanhamento através de mentoria (57%), dificultando a adaptação às novas exigências do mercado.
Neste cenário, o burnout surge cada vez mais associado à pressão permanente para atualizar competências num ambiente de transformação acelerada.
Mulheres da Geração Z lideram níveis de stress
O estudo identifica a Geração Z como a mais vulnerável ao stress diário elevado. Cerca de 56% destes trabalhadores afirmam sentir elevados níveis de pressão no dia-a-dia, sete pontos acima da média global.
Entre este grupo, as mulheres destacam-se como as mais afetadas: 57% dizem viver com níveis elevados de stress diário, praticamente o dobro da taxa registada entre homens da geração Baby Boomer (31%).
Segundo o ManpowerGroup, esta geração entrou no mercado de trabalho durante a pandemia e enfrenta um contexto marcado por sucessivas crises económicas e sociais, o que fragilizou a perceção de segurança profissional e financeira.
A pandemia terá também afetado competências sociais e processos de integração profissional, reduzindo oportunidades de onboarding e orientação no início da carreira.
Energia, tecnologia e finanças entre os setores mais pressionados
Os níveis elevados de stress atravessam praticamente todos os setores, mas tornam-se mais visíveis em áreas sujeitas a forte pressão operacional e transformação acelerada.
O setor de Energia & Utilities surge como o mais pressionado, com 55% dos trabalhadores a reportarem elevados níveis de stress diário. Seguem-se Tecnologias de Informação (53%) e Finanças & Imobiliário (51%), todos acima da média global de 49%.
As funções de liderança sénior aparecem igualmente entre as mais afetadas. Cerca de 59% dos dirigentes reportam níveis moderados ou elevados de stress diário, contrastando com os 46% registados entre trabalhadores sem funções de chefia.
O impacto reflete-se também na satisfação profissional e na perceção de estabilidade laboral. Apenas 41% das lideranças dizem estar satisfeitas com o trabalho atual, contra 61% dos restantes colaboradores. Já ao nível da segurança no emprego, a diferença é igualmente significativa: 47% entre líderes, face a 71% entre trabalhadores individuais.
Para o ManpowerGroup, os dados mostram que o principal desafio das organizações deixou de ser exclusivamente tecnológico. A capacidade para equilibrar transformação digital, desenvolvimento de competências e proteção do bem-estar será decisiva para garantir produtividade e retenção de talento nos próximos anos.
O Global Talent Barometer 2026 analisou 13.918 trabalhadores em 19 países e avaliou indicadores ligados ao bem-estar, satisfação profissional e confiança no contexto laboral.


