Caminho da Liderança: do medo à confiança

Estava a Peste a caminho de Bagdá quando encontrou Nasrudin.
Este perguntou-lhe:
– Onde vais?

A Peste respondeu-lhe:
– A Bagdá, matar dez mil pessoas.

Depois de um tempo, a Peste voltou a encontrar-se com Nasrudin. Muito zangado, o mullah disse-lhe:
Mentiste-me. Disseste que matarias dez mil pessoas e mataste cem mil.

E a Peste respondeu-lhe:
Eu não menti, matei dez mil.
O resto morreu de medo.

A “definição” de Liderança que mais me inspira é a de um dos mais inspiradores líderes do século XX: Nelson Mandela, quando pergunta ao capitão da selecção nacional de Rugby: “qual a tua filosofia sobre Liderança? Como conseguir que os outros sejam melhores do que aquilo que acreditam ser?” Um dos primeiros líderes com quem (para quem, na realidade) trabalhei evidenciava uma força de personalidade extrema. Frequentemente os homens (a sua abordagem com as senhoras era muito mais suave) que a ele reportavam saiam das reuniões de trabalho com ele desfeitos em lágrimas. O êxito do seu estilo de Liderança era inquestionável: crescimento de volume de negócios sólido e situação financeira da empresa muito saudável. Algumas perdas pelo caminho? Com certeza, eram “ossos do ofício”, colaboradores que “não tinham as capacidades necessárias” para sobreviver naquele contexto feroz. A lei de Darwin de auto-selecção do mais forte (aquele que suportava críticas violentas e nelas encontrava motivação para ser melhor do que aquilo que acreditava ser) vinculava inquestionável.

Recentemente os estudos de Darwin sobre a evolução foram alvo de um novo olhar. Talvez Darwin na realidade quisesse que a partilha da sua investigação fosse mais contextualizada. E se em vez de a evolução “pura” para o mais forte (natura non facit saltus) a ciência provar agora através das novas tecnologias de sequência de genomas que há “saltos” (transferências de genes “laterais”) de tal modo que caraterísticas totalmente novas surgem em versões mais “evoluídas” da espécie? E se o contexto VUCAH (Volátil, Incerto, Complexo, Ambíguo e Hiperconectado) acelerado dos nossos tempos, com crises recorrentes, tiver conduzido a um destes “saltos” de evolução na espécie de líderes de êxito que encontramos?

A nossa definição de “êxito” de um líder de negócios deve agora ser introduzida. Tradicionalmente, a mesma está singularmente associada a indicadores de performance financeira e operacional (que habitualmente se agregam em alguma medida de retorno para o accionista). Veja-se o estudo da CEO Genome Project (2017) onde os autores notam que as caraterísticas mais explicativas do êxito de líderes são: a capacidade de decisão (mais do que a ausência de decisões erradas), a capacidade de envolver as partes interessadas, a adaptabilidade e a confiabilidade na entrega daquilo que foi prometido. A ausência de caraterísticas como: os valores, o propósito e a empatia poderá ser explicada pela definição estreita de “êxito” do estudo (focada em indicadores de rentabilidade e de percepção do accionista). A minha hipótese é que se essa definição fosse alargada para incorporar as perspetivas das “partes interessadas silenciosas” (como o ambiente, a comunidade social, os colaboradores) surgiriam como caraterísticas determinantes aquilo a que gosto de chamar “capacidades profundas” (“deep skills”) como sentido de propósito, empatia e capacidade de comunicação com o “outro”.

O contexto VUCAH propícia o galopar do medo nos colaboradores e partes interessadas. A recente pandemia e o teletrabalho repentino têm mostrado efeitos crescentes do medo nas organizações. O medo desencadeia a parte mais primitiva (reptiliana) do nosso cérebro (a amígdala) resultando na libertação de cortisol e adrenalina (preparando-nos para a resposta de luta ou fuga). Tudo isto seria útil se estivéssemos a fugir de um leão. Contudo, nas organizações os leões são, se algo, metafóricos. A acumulação de cortisol não liberto leva à exaustão e eventual “burnout”. Como se isto não bastasse, a ativação do “réptil” em nós desliga o cérebro pensante. Literalmente, não podemos pensar na resolução de problemas sob os efeitos do medo, com a anulação de criatividade que daí resulta.

Se os líderes querem evitar o efeito do medo do conto de Nasrudin, terão de evidenciar cada vez mais as caraterísticas que permitem a si próprios (auto Liderança) e aos outros (Liderança) fazer o caminho do medo para a confiança, momento a momento. É frequente atualmente vermos recomendações neste sentido, passando para uma definição de êxito de Liderança mais ampla e inclusiva. Ilustrativamente, a firma de Consultoria Mckinsey & Company, recomenda aos líderes o foco no cultivo de auto-consciência, vulnerabilidade, empatia e compaixão (através de práticas meditativas e de gratidão), passando depois para o conforto de todas as partes interessadas (D’Auria, Chen e Nielsen, 2020). O Instituto CFA (Chartered Financial Analyst) introduziu a teoria e a prática de Mindfulness na sua conferência anual, partilhando os benefícios da meditação respiratória e do registo escrito de gratidão com os seus membros (Donald Altman, 2020). No mesmo sentido, vemos os autores do conceito de Capitalismo Consciente ganharem tracção, questionando o axioma de Milton Friedman de que “ a responsabilide social de um negócio é aumentar os seus lucros”  e recordando que “os seres humanos estão neste planeta para cuidarem uns dos outros, e o negócio é uma maneira de o fazer em grande escala” (Polman, Sisodia, Tindell, HBR 2020).

No programa de liderança do MBA que coordeno temos esta filosofia. As nossas sessões de Friday Fórum desafiam e apoiam os estudantes a trabalharem a sua própria Auto-Liderança (através de práticas de tomada de consciência, feedback e mindfulness) e a avançarem generosamente para a Líderança De Outros (através da prática de comunicação consciente, empatia e criatividade).

Encontro grande conforto neste potencial “salto” de evolução de espécie de líderes com êxito. Encontro propósito no entusiasmo que é servir esta evolução, particularmente colaborando na criação de programas de desenvolvimento de competências que apoiam os líderes que querem fazer este caminho, do medo para confiança.


Por Constança Casquinho, coordenadora do Programa de Desenvolvimento de Liderança do The Lisbon MBA Católica|Nova

 

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