Cândido e Pangloss

No genial opúsculo de Voltaire, Cândido, um homem a quem acontece tudo e mais alguma coisa – de pestes a desastres naturais (que passam pelo terrível terremoto de Lisboa em 1755) –, faz-se acompanhar de um filósofo otimista, da linha de Leibniz (objeto da sátira que é todo o livrinho). Este, de nome Pangloss, acha que vivemos no melhor dos mundos possível, e que mesmo os males que ocorrem acabam por provocar bons desígnios.

Já saber distinguir o que são bons e maus desígnios é o cabo dos trabalhos. Por exemplo, depois de 1816 quando milhares de norte-americanos e emigrantes europeus que viviam na costa Atlântica começam a rumar a Oeste, tal deveu-se a uma catástrofe: o chamado “Ano sem Verão”, provocado por um conjunto de fenómenos solares conjugados com a maior erupção vulcânica dos últimos 1800 anos. A falta de Verão matou milhões na China, centenas de milhares na Europa e tirou inúmeras terras às tribos índias que viviam para lá dos Apalaches.

Não se pode dizer que o mundo não tenha mudado bastante… Até porque um ano antes, em 1815, Napoleão tinha sido definitivamente derrotado em Waterloo, e durante os anos subsequentes houve repressão e tumultos nas principais cidades europeias. Portugal não escapa – os mártires da Pátria que os topónimos de Lisboa e Porto celebrizam foram executados em 1817. Só na Irlanda se estima que 100 mil pessoas tenham morrido de fome, mesmo assim menos mau, como poderia dizer o otimista Pangloss, do que o milhão que morreu, somado a outro milhão obrigado a emigrar, nos anos da grande fome de 1845-49.

Tudo pode ser pior e este até pode ser o melhor dos mundos, mas estou farto dos discursos hiper-otimistas do “vai ficar tudo bem”. Claro que vai ficar tudo bem, para aqueles que escaparem ao ficar tudo mal – com a vida de pernas para o ar e a saúde do avesso.

Não vale a pena iludirmo-nos com qualquer natural bondade inata ao homem. Em tempos de risco e ameaça, pode parecer que os seres humanos se unem, e que têm ideias conducentes a um mundo mais fraterno e solidário. Sim, temos de ser uns para os outros (ou no caso da COVID, não ser assim tanto) sob pena de morrermos ou adoecermos. A calma nas filas, as pessoas mais tolerantes, a paciência que todos mostram, é igual aos mesmos atributos que, no geral, se mostram nas capelas mortuárias. Com a pandemia, como perante a morte, conhecemos o destino e a sua inevitabilidade – não há propriamente culpados e, mais cedo ou mais tarde, pode chegar a nossa hora. A mesma solidariedade é vista nos camaradas de armas que vivem sob fogo e ameaça.

Mas deixem passar os maus tempos – onde já há gente a perder milhões e outros a ganhar quantias notáveis, porque o sistema de trocas não terminou – e veremos de que modo a natureza humana se comporta. Digo deixem passar os maus tempos, porque se eles não passarem rápido, o pior de cada um saltará animalesca, selvática e imediatamente, num salve-se quem puder que já teve o expoente da sua caricatura no açambarcamento de papel higiénico.

Isto não quer dizer que algumas práticas não mudarão. É natural que o teletrabalho aumente; é necessário que a tecnologia se adapte à distância entre nós; é possível que sejamos mais vigiados; é admissível que a necessidade de energia limpa se torne mais evidente. Mas nada disso altera o essencial do ser humano: em competição constante, agora pela destruição do vírus, depois pela monetização do mundo que nos for permitido (seja através de açambarcamentos ou, esperemos que seja o caso, de inovação tecnológica). Não vamos conhecer o paraíso.

Progressivamente, talvez, um corpo de ideias diferente comece a surgir. O terremoto de Lisboa, em 1755, ficou ligado à separação entre mal moral e natural. Progressivamente, deixa-se de acreditar que um tremor de terra é um castigo de Deus, ao contrário do que clamava o padre Malagrida, e que este não tem de ser o melhor dos mundos possível como resultado da existência, bondade e omnipotência de Deus, como Pangloss tentava convencer Cândido.

Pode ser que também esta pandemia nos ensine que o homem não é o centro da Universo, nem da terra, nem de nada. É apenas um dos integrantes de uma realidade maior a que o gregos chamaram Gaia, mãe dos deuses do Olimpo. Uma insignificância num planeta com 4,5 mil milhões de anos que nos suporta (desde a versão primitiva dos hominídeos há menos de cinco milhões – 900 vezes menos tempo – e na versão sapiens há cerca de 200 mil – 22 500 vezes menos tempo; uma espécie que apenas tem escrita e História há escassos 10 mil anos – 450 mil vezes menos do que todo o tempo decorrido).

Que esta vaga antropocêntrica que varreu a humanidade desde a perda da importância de Deus no campo científico, seja também progressivamente varrida. Com esta característica: lentamente, com uma contagem que se faz em décadas e séculos. Nada que em 2021 ou 2022, ou mesmo em 2030 possamos sentir como diferenças substanciais. Até lá, teremos bastante que penar.


Por Henrique Monteiro, jornalista e antigo diretor do Expresso

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