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Cultura e Lifestyle

Caramulo: uma Vila de futuro. Do sonho pioneiro à visão de Salvador Patrício Gouveia

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25 Agosto, 2026 | 15 minutos de leitura

Há 100 anos a Vila do Caramulo, graças às propriedades terapêuticas do ar puro da Serra, tornou-se o epicentro para o tratamento da Tuberculose. Hoje, é pelo vibrar dos motores e a adrenalina da velocidade que a montanha ganha reconhecimento além fronteiras. Mas no futuro, o Caramulo quer também afirmar-se pela arte, cultura, coleções, tesouros, natureza e arquitetura.

O ponto de partida para esta entrevista está na pole position. No passado dia 18 de julho inaugurou, no Museu do Caramulo, a exposição Fórmula Mágica, a maior mostra de Fórmula 1 alguma vez realizada em Portugal que já recebeu mais de 20 mil visitantes. E porquê no Caramulo? A localidade nasce na década de 20 do século passado, onde a partir da visão e liderança do médico Jerónimo de Lacerda é criada a maior estância sanatorial do País e da Península Ibérica. Pai de Abel e João, dois irmãos cujo empreendedorismo e dedicação motivaram, após o aparecimento da penicilina e a irradicação da tuberculose, à fundação do Museu do Caramulo. A morte precoce de Abel de Lacerda em 1957, leva João de Lacerda a concretizar a visão do irmão e inaugurar em 1959 o edifício principal, desenhado pelo arquiteto Alberto da Cruz, que hoje acolhe a coleção de Arte e onde está patente, até ao dia 18 de outubro, a inédita exposição Fórmula Mágica.

Nesta entrevista, Salvador Patrício Gouveia, Presidente da Fundação Abel e João de Lacerda, Diretor do Museu do Caramulo e neto de João de Lacerda, confessa a «atitude altruísta e dedicada» do seu Avô, médico de formação, no sentido em que a Arte não era o seu «território natural». Investiu «esforço pessoal, de tempo e financeiro» para garantir que, apesar da partida, a obra do seu irmão não morria, e antes se concretizava e existia no futuro. Hoje, o Museu do Caramulo é um sonho que vai para além da história dos dois irmãos. Maior, mais coletivo da Vila do Caramulo que toca a todos os que  trabalham naquela instituição. Para Salvador Patrício Gouveia a responsabilidade de preservar, proteger e conservar esse sonho está mais do que viva. E todos sentem o privilégio de o continuar a desenvolver, expandir e trazer para a modernidade, pelos princípios deixados pelos seus fundadores. Uma fórmula também ‘mágica’ de construir algo para os outros, e não para si próprio, com paixão, trabalho e dedicação.

O título da exposição “Fórmula Mágica” sugere a Fórmula 1 como algo mais do que velocidade ou competição. Onde reside a magia deste desporto?

O nome Fórmula Mágica tem claramente um duplo sentido. Por um lado, obviamente, refere-se à Fórmula 1, mas por outro, também a uma fórmula de criar algo grandioso e apaixonante, e foi isso que quisemos criar com esta exposição. A Fórmula 1 é muito mais do que o automobilismo, tem a componente competitiva, mas também tecnológica, porque é aí que se desenvolve a tecnologia e a inovação que são depois implementadas na indústria automóvel. Mas para mim é ainda  mais do que isso. É uma ode à coragem, à humanidade, à sede de vencer e também ao glamour, que talvez hoje já se tenha perdido um pouco.

Antigamente, as corridas de  Fórmula 1 eram absolutamente espetaculares, tinham um risco enorme associado, os corredores não sabiam se seria a sua última corrida o que fazia com que vivessem a vida de forma mais intensa. Tudo isso criou um passado e um legado na Fórmula 1 absolutamente espetacular que merece ser celebrado.

Como nasceu a ideia para esta exposição e qual foi o maior desafio na sua concretização?

Organizar uma exposição de Fórmula 1 é o sonho de qualquer museu de automóveis, uma vez que é a categoria máxima do desporto automóvel. Era um grande sonho, mas está associado a muitas dificuldades, uma vez que os carros são muito específicos, raros e sensíveis. Conseguir juntar estes carros que normalmente estão em museus, ou em coleções privadas, foi o maior desafio. Os que pertencem aos privados, porque ainda estão em funcionamento, são utilizados pelos próprios para fazer corridas e, portanto, esses proprietários não querem entregar os carros durante tanto tempo. Os que estão nos museus, são carros em exposição, normalmente estrelas das coleções e é sempre difícil conseguir retirá-los desses espaços.  Tivemos primeiro de definir uma lista dos automóveis que queríamos para cumprir com alguns dos critérios, tais como: terem pertencido a pilotos, entre esses pilotos, portugueses ou que falavam português e também ter sido de campeões mundiais.  Além disso, não queríamos ter apenas Fórmula 1, mas Fórmula 2, Fórmula 3, Fórmula V, Fórmula Indy, Fórmula Ford, entre outras. E queríamos cobrir o máximo possível de territórios, pilotos, campeões, marcas de modelos, épocas e nacionalidades. Depois, conseguir que todos esses automóveis fossem disponibilizados na mesma altura e estarem juntos no Caramulo pelo mesmo período, num momento que tinha de coincidir com o Caramulo Motorfestival. Finalmente, tínhamos de ter dois ou três ‘cabeças de cartaz’ e, claro, a nossa maior estrela é o Lotus 97T do Ayrton Senna.

Como se recria a emoção da Fórmula 1 dentro de um museu?

Esse foi um dos grandes objetivos. A Fórmula 1 é um desporto altamente dinâmico que vem do movimento, da velocidade e do som e não queríamos que a Fórmula Mágica fosse uma versão estática e parada desse universo. Mas, sabíamos que estávamos num local em que a exposição é estática e, portanto, tínhamos de contrariar isso. Para tal, investimos em vários vetores, como por exemplo, na criação dos cenários animados, como é o caso das boxes ou da pré-grelha, onde se vê uma simulação da partida, com movimento, vídeo e som. E, numa outra área, que está a fazer muito sucesso, temos os simuladores de última geração, incluindo o “The Senna Experience”, onde dá para reviver o Grande Prémio de 85, em Portugal, onde o Ayrton Senna ganha a sua primeira vitória. É um simulador que permite experimentar todas as sensações de um piloto de Fórmula, desde o movimento, à vibração, até ao vento na cara quando sai das boxes.

A Fórmula 1 atravessa uma fase de popularidade junto de públicos mais jovens. Sentem essa renovação geracional em quem visita a exposição?

Sim, atualmente, a Fórmula 1 atravessa uma fase de rejuvenescimento e de relançamento, em grande parte também devido às séries da Netflix e outras iniciativas congéneres. Quisemos também que a exposição acompanhasse esse movimento e fomos buscar automóveis modernos, como o Red Bull RB14. E é muito engraçado, e tocante, ver muita gente em família visitar a exposição, em que todos gostam da Fórmula 1, de formas diferentes, com os seus heróis e carros diferentes, desde homens a senhoras, até os mais jovens, com 13, 14 e 15 anos, que hoje seguem a modalidade, algo que não aconteceria há vinte ou trinta anos.

O automóvel tem uma forte presença no Museu, mas o espaço conta com coleções de Arte, brinquedos e outros objetos. Como é feito o equilíbrio entre estas diferentes dimensões?

Durante muitos anos a coleção e o tema automóvel prevaleceram, mesmo sobre a coleção de Arte, que foi a que esteve na génese da fundação do Museu do Caramulo. Hoje em dia isso está a mudar com os novos projetos museológicos realizados pela Fundação Abel e João Lacerda. Com o Museu do Brinquedo, o Museu das Marcas, Artes Gráficas e Publicidade, começámos a criar novos polos e áreas, não só para criar mais oferta, mas também reposicionar o Caramulo. É claro que o Caramulo será sempre a Meca dos automóveis, não só pelo museu, mas também pela coleção, pelo próprio João Lacerda, pela rampa do Caramulo, iniciada em 1979, e mais tarde pelo Caramulo Motor Festival, cuja primeira edição foi em 2006. Portanto, esse diria que será sempre o tema principal do Caramulo. Mas queremos ter um portfólio diferente e mais alargado, com outras ofertas e coleções, e até também com a Arquitetura e o próprio Parque Natural. Queremos que esses sejam também vetores da afirmação do Caramulo como destino.

O Museu do Caramulo nasceu da visão de dois irmãos, Abel e João de Lacerda. A identidade do Museu continua a refletir as personalidades e paixões dos seus fundadores?

A personalidade do Abel e João de Lacerda são duas regras, duas leis fundamentais na gestão e administração do Museu. Os princípios básicos que cada um instituiu, o Abel de Lacerda há mais de setenta anos e o João de Lacerda, mais ou menos na mesma altura, quando começou a colecionar automóveis, mantêm-se até hoje e ainda são atuais. No caso do Abel Lacerda, no que diz respeito à coleção de Arte, passa por aceitar peças realmente relevantes e de grande qualidade e a doação das peças. E queremos continuar a ter doadores e assim ligar as pessoas e instituições ao Museu do Caramulo, através das obras de arte.

No caso do João de Lacerda, os dois princípios, passam por também ter automóveis de grande qualidade, bons e raros, e em manter todos os carros a andar. Nas palavras de João de Lacerda, “um automóvel que não anda é um absurdo”. E essa sempre foi uma regra basilar na gestão da coleção automóvel.

Daí termos as oficinas, onde se faz a recuperação, manutenção e conservação, porque todos têm de estar em condições de circulação, e isso é um dos fatores distintivos desta coleção sobre outras coleções no mundo.

Que ensinamento retira da história de Abel e João de Lacerda?

O maior ensinamento que podemos tirar do Abel e João de Lacerda é, em primeiro lugar, fazer as coisas com paixão, em segundo com critério e em terceiro com muito trabalho e dedicação. Mais do que tudo, fazer as coisas para os outros.

O Museu do Caramulo atingiu em 2025 um recorde global de visitantes. Como continuam a crescer e que públicos chegam hoje até ao Museu?

A explicação para estes números e crescimento é trabalho. Temos vindo a trabalhar de forma muito consistente ano após ano, a criar uma programação que seja relevante e atrativa, muito cadente na parte da comunicação e de um calendário muito frequente, com eventos e outros tipos de iniciativas. Isto faz com que o Caramulo vá entrando no top of mind das pessoas, na agenda e na notoriedade espontânea, digamos assim. Como se diz no Brasil: “Ou você faz poeira ou você come poeira”. Nós optámos claramente por fazer poeira, de forma muito regular, para não haver um efeito ‘fogo de artifício’, algo que aparece e depois desaparece. O que se reflete nos resultados, mas para isso são muitos anos seguidos a atravessar essa estratégia. O 2025 foi o melhor ano de sempre, com cerca de 65 mil visitantes, antes disso tinha sido 2024, mas antes disso tinha sido 1994. Ou seja, demorámos 30 anos até conseguir quebrar o recorde do melhor ano. Todos os anos fomos subindo um bocadinho, até que finalmente conseguimos atingir esse patamar que já ultrapassámos, e este ano, em 2026, vamos fazê-lo outra vez, como o melhor ano de sempre, com um número absolutamente recorde.

Depois da Fórmula Mágica qual é o próximo sonho?

O grande sonho para o Museu do Caramulo não é tanto uma exposição, ou um evento, mas é uma estratégia, uma visão de longo prazo, mais alargada, com a criação da Vila dos Museus. Uma Vila onde queremos ter vários equipamentos, abordagens museológicas, centro de interpretação, com museus ou casas museus, seja com coleções de Arte, automóveis, brinquedos ou artes gráficas. É ter uma vila ligada à arte, à cultura, às coleções, aos tesouros, à natureza e à arquitetura.

Um museu fora dos grandes centros urbanos é uma limitação geográfica ou pode tornar-se um ponto forte?

O Museu do Caramulo nasceu no Caramulo, exatamente com o propósito de manter o local no mapa. É preciso lembrar que o Caramulo não está a caminho de nada, portanto é preciso subir a montanha para visitar o Museu e depois voltar para trás. Muitas vezes as pessoas dizem-nos: “Se o vosso Museu fosse em Lisboa, ou no Porto, teria um enorme sucesso.” É verdade, e muito honestamente, no passado, já acreditámos mais nisso. Hoje, além da concorrência ser bastante mais feroz nesses centros urbanos, o facto de estarmos geolocalizados também dá um lado especial ao Museu e à própria visita, pois implica uma preparação. Há uma antecipação, há um caminho até lá, é como uma preparação na subida pelas curvas do Caramulo. Há uma entrega, uma atenção e um foco que não existe se estivéssemos num grande centro urbano.

No início de setembro acontece o Caramulo Motorfestival.  Que momentos vão marcar esta edição?

Sobre o Caramulo Motorfestival, 2026 vai ser claramente a maior edição de sempre. Em número de visitantes, visitas ao museu, pilotos e automóveis participantes e lançamentos de novos automóveis. Vai ser uma grande festa motorizada e vai ter a Fórmula 1 como um dos seus ‘pratos principais’, não só pela exposição Fórmula Mágica que está a decorrer, mas por outros elementos  ligados ao tema, como a presença do Tiago Monteiro ou do Pedro Matos Chaves. Vamos ter uma Pista slot na Motorland a replicar o circuito do Estoril de 1985, com os carros e as decorações. E vamos ter, inclusivamente, um Copersucar, um carro de Fórmula 1 de 1975 a subir a rampa, uma estreia absoluta neste Festival.

Em 2025, o festival ultrapassou os 50 mil visitantes. Como se continua a produzir um evento sem perder a identidade e proximidade com o público?

A identidade do Festival é a proximidade, é o facto de ser visitado em família, de ser gratuito, as pessoas poderem escolher o que querem ver e fazer várias coisas diferentes. Não há duas visitas iguais, não há um itinerário, há um circuito pré-definido. Cada um escolhe e vê o que quer ver em cada momento. Queremos que isso seja mantido e salvaguardado, nas melhores condições, para criar as melhores memórias possíveis. Agora o grande desafio já não é crescer em número de visitantes, até porque já não há muito mais capacidade. O desafio, enquanto organizadores, é tornar o evento mais simpático para quem visita, mais claro em termos de comunicação, mais bem fornecido em termos de serviços, alimentação, estacionamento, transferes, e fazer com que as pessoas tenham a melhor experiência possível.

Qual o impacto económico e turístico do festival no Caramulo e na região?

Além de ser, indiscutivelmente, o maior acontecimento económico no Caramulo e no Concelho, este já é um festival de proporções internacionais, consequência disso é o evento esgotar toda a capacidade hoteleira até Viseu, durante vários dias. Cerca de dois terços dos visitantes são de fora da região e no total, as pessoas que vêm até ao Caramulo, gastam uma média de 200 euros, e isto faz deste acontecimento algo muito esperado e necessário para a Economia local e, até, nacional.

O que distingue um colecionador de alguém que simplesmente junta objetos?

Essa é uma pergunta difícil de responder e a verdade é que há uma linha muito tênue. Eu diria que entre o colecionador e um acumulador, a diferença é haver uma curadoria, um certo critério, seja na qualidade, seja na definição daquilo que coleciona, nos objetos, na época, no tema, no país.  No fundo tem de haver um critério e uma busca e exigência na qualidade das peças; sejam caricas ou Picassos.

Tem de haver sempre um certo critério para ter aquilo que é o melhor e o que faz sentido enquanto coleção. Não é só juntar peças aleatoriamente que depois podem nem ter uma correlação entre si, mas juntar um conjunto de peças que criam uma identidade própria, com qualidade e que possa ser partilhada ou mostrada numa exposição ou catálogo.

Se pudesse trazer para o Caramulo qualquer automóvel, obra ou objeto, qual seria?

Dada a minha paixão pela Arqueologia e as civilizações antigas, escolheria a máscara de Tutankhamon. Não só pela história que conta de uma das maiores civilizações de sempre, como é a do Antigo Egito, mas também pela própria descoberta, no século 20. É uma peça absolutamente extraordinária, que prova ainda haver muitos tesouros para serem descobertos, mesmo nos nossos dias.

O que gostaria que permanecesse da sua liderança no futuro do Museu do Caramulo?

Gostava que no futuro se pudesse manter a consistência do que tem sido a atividade do Museu. A consistência da qualidade, a regularidade das atividades e  das programações. Mais difícil do que fazer muito bem é fazer muito bem de forma regular e não andar em picos. E hoje conseguimos atingir isso, o que é essencial para uma estratégia de afirmação de um território, espaço ou instituição. E é isso que eu gostava que no futuro pudesse perdurar.

Rita Rugeroni Saldanha,
Diretora de Conteúdos

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