César Santos, CEO da Talenter: “A preparar o grupo para um novo contexto de mercado”

As previsões de quebra do volume de negócios da Talenter parecem ser incontornáveis e podem levar meses ou anos a recuperar. Por isso, estão a ser arquitetadas grandes mudanças na empresa de Gestão de Recursos Humanos.


“Estimamos uma perda no volume de negócios que poderá ser superior a 40%”, explica-nos César Santos o embate da evolução da COVID-19.

O administrador e CEO do Grupo pôs em marcha um plano para fazer frente ao novo contexto de mercado. A Talenter está a repensar as áreas de Recrutamento & Seleção e Formação Profissional, a desenvolver novos serviços, a apostar em setores mais dinâmicos e em soluções digitais. E, mais ainda, a reestruturar algumas áreas da empresa e a implementar cortes e reduções de custos.

“Nada voltará a ser como antes”, vaticina. Por isso, está a redirecionar o foco para os setores que se mantêm ativos e que têm sido dinamizados com o novo Coronavírus, como é o caso concreto da Agricultura, Distribuição, Logística e alguma Indústria. E tem vindo a desenvolver alguns serviços específicos e de relevo neste contexto nas áreas da Saúde, TI e Limpezas.

Em entrevista, via remota, César Santos explica-nos a gestão do dia-a-dia de uma equipa jovem e dinâmica, com 220 colaboradores, e os ajustes nos múltiplos serviços de Recrutamento & Seleção, Formação Profissional, Trabalho Temporário, Outsourcing e Consultoria de Gestão de Talentos onde estavam envolvidas mais de 7500 pessoas.

O que é mais assustador nesta crise de saúde pública mundial?
Penso que no imediato o mais assustador seja o caráter de novelty e a capacidade de rápida propagação deste vírus. No curto prazo, a incapacidade das várias nações afetadas pela pandemia conseguirem encontrar soluções consertadas e sólidas para fazerem face à COVID-19, suas eventuais variantes e até outros vírus com os quais a humanidade terá de se defrontar no futuro. No médio prazo, o impacto que toda esta situação terá na economia e na vida das empresas e das pessoas.

Quais as medidas implementadas para assegurar a saúde dos vossos colaboradores?
A Talenter tem estado a acompanhar de forma próxima a evolução da COVID-19, em especial desde que surgiu na Europa.
Concebemos, desde logo, o Plano de Contenção da Talenter que entre outros aspetos definiu um grupo de acompanhamento à evolução do surto; medidas de prevenção à transmissão; ações de formação, informação e sensibilização (colaboradores, candidatos, clientes e parceiros); a implementação de medidas adequadas de acordo com a fase do surto (fase de prevenção, prevenção ativa e contenção); e procedimentos concretos em caso suspeito e vigilância de contactos próximos.
Mais recentemente, com a ameaça de estado de emergência, reduzimos os horários de atendimento das Talenter Stores e condicionámos o acesso às lojas de acordo com as regras de concentração de pessoas em espaços fechados; concentramos a publicação de ofertas e candidaturas nos meios digitais como o site e a app Talenter; estamos a privilegiar a realização de entrevistas por telefone ou videochamada e reforçámos a linha de atendimento Talenter Now para reduzir o número de deslocações às nossas delegações.

Que impacto no negócio?
Nesta altura, já todos percebemos que isto vai ter grandes impactos, mas ainda não conseguimos vislumbrar o real alcance e dimensão dos mesmos.
No caso da Talenter estimamos uma perda no volume de negócios que poderá ser superior a 40% e uma quebra desta natureza pode levar meses ou anos a recuperar. Depois existem alguns setores em que a retoma demorará seguramente mais tempo, como o caso da Aviação, Hotelaria ou Turismo, áreas muito significativas para a economia nacional.

Como tencionam contornar esse impacto?
No imediato estamos focados em trabalhar setores que se mantém ativos e que até têm sido dinamizados com a pandemia do novo Coronavírus, como é o caso concreto da Agricultura, Distribuição, Logística e alguma Indústria. Temos vindo a desenvolver alguns serviços específicos e grande relevo neste contexto como é o caso das Limpezas, Saúde ou IT. Por outro lado, a repensar a forma como prestamos alguns serviços, nomeadamente o Recrutamento & Seleção ou mesmo a Formação Profissional, onde a semana passada reforçámos a nossa oferta formativa em regime de e-learning e live training. E porque nada voltará a ser como antes, estamos a reestruturar algumas áreas da empresa e a implementar alguns cortes e reduções de custos, até porque as medidas que estão a ser apresentadas pelo Governo são ineficientes, pois estão assentes no financiamento e adiamento das prestações bancárias. Em suma, as empresas têm de se endividar para pagar salários.

Situação complexas em concreto que enfrentam e como pensam atuar?
As situações mais complexas estão relacionadas com a contração do mercado e a consequente perda de clientes, quebra do volume de faturação, insolvências e dificuldades de liquidez e tesouraria.
Conforme mencionei, as medidas passam por apostar em setores mais dinâmicos, desenvolver novos serviços, apostar em soluções digitais e preparar o grupo para um novo contexto de mercado.

Já tinham vivido um desafio destes?
Em 2012, vivemos uma situação parecida de quebra de volume de negócios e insolvências, mas havia alguns setores da economia que se mantinham ativos ou que cresciam. A COVID-19 veio impor uma paralisação da economia à escala global, sem um horizonte temporal de retoma concreto. Pior, é algo que se pode repetir no inverno e em anos subsequentes.

Qual o papel que o Estado deve assumir perante as empresas?
O Estado deve ser um agente ativo na definição de um conjunto de medidas extraordinárias que visem apoiar as empresas (não apenas e somente com financiamento), a economia e as pessoas.
O maior impacto ainda está para vir, pelo que é primordial que o Estado Português assegure um conjunto de medidas com vista a combater a COVID-19 e a condição do estado de emergência que nos encontramos, como também os efeitos colaterais de toda esta situação irá acarretar a breve trecho.
No lado das empresas é essencial existirem medidas claras e efetivas ao nível de financiamento, medidas fiscais, algumas já em curso como as linhas de crédito ou o adiamento das obrigações fiscais e medidas de apoio à atividade económica e à proteção do emprego e neste caso é importante clarificar ou mesmo alargar a possibilidade do lay off ou dos subsídios de apoio à família, pois será difícil estar a tomar conta de crianças com menos de 12 anos e estar simultaneamente em teletrabalho!

Conselhos que deixa aos portugueses que lideram outras empresas ou organizações?
Numa situação particular como esta que vivemos é crucial sabermos combater a desinformação e o medo generalizado que se tem vindo a instalar. E neste contexto o papel dos líderes deve ser claro: manter a calma, focar nas pessoas e no lado positivo. Afinal, são momentos como estes que testam as forças e as fraquezas das lideranças. Por outro lado, deixo como conselho desenvolverem a capacidade de se adaptarem e lerem as circunstâncias com rapidez, pois vivemos hoje num mundo que é complexo e volátil, que exige dos líderes e das empresas uma capacidade de gestão da mudança “na hora”.

E aos portugueses em geral?
Que não cedam ao vírus do medo e se foquem no futuro, pois melhores dias virão! Respeitem todas as indicações dadas pelas autoridades e que mostrem o melhor do povo português: pessoas de uma coragem, resiliência e solidariedade incomuns.

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