Christine Kandie caminha devagar, no passo que o corpo permite, mas não deixa de ostentar uma indumentária digna de uma líder indígena. Além da combinação de cores, missangas e texturas, a queniana tem sido uma defensora incansável dos direitos das mulheres indígenas, num contexto onde a sua representatividade política é praticamente inexistente. No mundo, a […]
Christine Kandie caminha devagar, no passo que o corpo permite, mas não deixa de ostentar uma indumentária digna de uma líder indígena. Além da combinação de cores, missangas e texturas, a queniana tem sido uma defensora incansável dos direitos das mulheres indígenas, num contexto onde a sua representatividade política é praticamente inexistente.
No mundo, a percentagem global de mulheres em parlamentos era apenas de 26,9% há um ano, segundo dados do Inter-Parliamentary Union. No Quénia são menos e só 23% das mulheres ocupavam cargos políticos em 2024. Já a presença indígena na tomada de decisões políticas continua quase nula e a exclusão dessas comunidades das esferas de poder é permanente.
Quanto ao impacte ambiental, as comunidades indígenas no Quénia são particularmente vulneráveis às mudanças climáticas. Estudos indicam que quase 80% das terras daquele país estão erodidas, empobrecidas em nutrientes ou degradadas de alguma forma. Christine é a principal voz do Endorois Indigenous Women Empowerment Network (EIWEN) e a sua missão tem sido clara: promover o direito à terra, a preservação da cultura e, sobretudo, garantir que as mulheres, incluindo as com deficiência, possam ocupar posições de liderança.
A Líder foi ao evento Raízes do Futuro, organizado pela Azimuth World Foundation, onde a batuta não teve direito a tambores, mas a uma força coletiva que apela à mudança do panorama político e social das comunidades indígenas. A principal voz da comunidade, Christine Kandie, com pulseiras firmes nos braços, mergulha no conhecimento dos ancestrais para resolver as questões do presente. Além disso, com um discurso escorreito e corajoso, prepara ainda as gerações do futuro.
Atualmente lidera o Endorois Indigenous Women Empowerment Network (EIWEN), um projeto que tem feito um trabalho fundamental na defesa dos direitos das mulheres indígenas. Quais são as principais ações deste projeto e qual o impacte na comunidade?
A Endorois Indigenous Women Empowerment Network (EIWEo) é um projeto que visa promover os direitos à terra, preservar a nossa cultura e garantir que as mulheres, jovens e pessoas com deficiência tenham um papel ativo na liderança. Trabalhamos para criar um espaço onde as mulheres possam encontrar apoio e ser treinadas para atuar nas suas comunidades.
Também enfrentamos as questões relacionadas com as mudanças climáticas, já que as nossas terras estão a ser afetadas pela degradação ambiental, que ameaça o modo de vida das comunidades indígenas. O nosso projeto impactou centenas de pessoas, permitindo a colaboração entre diferentes comunidades vizinhas que compartilham desafios semelhantes e aprendem juntas.
É inspirador ver o impacte que o projeto tem tido, mas além dos direitos à terra, quais são os maiores desafios que as mulheres indígenas enfrentam atualmente, e como o seu trabalho ajuda a superar esses obstáculos?
Estamos a lutar contra uma combinação de opressão cultural, discriminação de género, falta de acesso à educação e aos serviços básicos de saúde. Mulheres com deficiência, em particular, são marginalizadas em quase todos os aspectos da vida.
A nossa luta é para garantir que as mulheres tenham acesso a todos os direitos humanos e possam ter uma voz ativa, não apenas na comunidade, mas também nas esferas políticas.
Por exemplo, no Quénia, as pessoas com deficiência representam cerca de cinco milhões de pessoas. Isso é um grande número que precisa de atenção especial. No EIWEN, trabalhamos para garantir que elas não sejam apenas incluídas, mas que também se tornem líderes nas suas próprias comunidades.
Para garantir que essas mulheres sejam verdadeiramente representadas, mencionou a importância de criar plataformas onde as suas vozes possam ser ouvidas. Como pode ser isso feito?
Criar plataformas onde as mulheres possam ser ouvidas é crucial. Precisamos de mudar as estruturas sociais e políticas para que as mulheres indígenas não apenas participem, mas liderem. O sistema precisa de mudar para garantir que não só tenhamos um lugar à mesa, mas que a nossa presença seja significativa.
O projeto trabalha diretamente com a criação desses espaços de liderança, formando novas gerações de mulheres que possam usar as suas experiências para moldar o futuro da nossa comunidade e influenciar políticas públicas que atendam às nossas necessidades reais. As mulheres indígenas desempenham papéis vitais como guardiãs, detentoras de conhecimento e mentoras.
Isso é muito poderoso. Sobre o direito à terra há uma história de luta na sua comunidade.
Sim. A nossa luta pelos direitos à terra começou em 1973, quando o governo do Quénia nos expulsou para criar uma zona de turismo ao redor de nosso território e do lago Bogoria. Perdemos não apenas as nossas terras, mas também a nossa identidade. A nossa cultura, os locais espirituais e os meios de subsistência foram severamente impactados. Mas não desistimos. Lutámos, primeiro pelos tribunais locais, e depois com a Comissão Africana de Direitos Humanos e dos Povos. Muitos anos depois, em 2010, a comissão decidiu a nosso favor, obrigando o governo do Quénia a reconhecer o nosso povo e a fornecer compensações.
Uma lição chave dessa jornada é a persistência. Temos de lutar pelos nossos direitos e pela nossa identidade. Sem isso perdemos tudo. A nossa cultura, a nossa língua, o nosso futuro. Esta luta é ancestral, e não se trata apenas do passado, mas garantir também o futuro das próximas gerações.
Há um conjunto de problemas ambientais. Como está o seu projeto a lidar com isso?
As mudanças climáticas têm um impacte devastador nas comunidades indígenas, especialmente em relação à terra e à agricultura. O nosso modo de vida é intimamente ligado à terra, e a sua degradação tem trazido enormes dificuldades. As secas, a perda de terras e a falta de recursos naturais afetam diretamente a nossa sobrevivência.
No projeto, trabalhamos para sensibilizar a comunidade sobre a importância da preservação ambiental e adaptamos práticas agrícolas sustentáveis. Além disso, procuramos uma rede de mulheres que possam liderar a luta contra as mudanças climáticas e lutar pelo nosso direito à terra.
Agora, indo um pouco à sua história. Quando olhamos para o seu percurso, percebemos que a educação foi um pilar importante. Como conseguiu superar os desafios e obstáculos, especialmente sendo uma mulher com deficiência, numa comunidade que ainda enfrenta muitas desigualdades?
A educação foi, sem dúvida, a chave. A minha história foi muito moldada pelo apoio dos meu pais. Embora eu fosse uma mulher com deficiência, eles acreditavam que a educação seria a minha força para ultrapassar os obstáculos. No entanto, como mulher indígena, ainda havia muitos desafios. A nossa sociedade era (e é) patriarcal, e as mulheres eram preparadas para se casarem e terem filhos, não para serem líderes. Mas o meu pai incentivou-me a estudar e, com o seu apoio, pude ir para a escola e depois para a universidade. Sem a educação, não teria chegado onde estou hoje.
Quais foram as maiores dificuldades que enfrentou para chegar até aqui?
A universidade estava bastante distante, e enfrentei desafios enormes para chegar lá, tanto por ser mulher, quanto por ter uma deficiência física. A minha família não tinha muitos recursos, mas, apesar disso, o meu pai sempre me incentivou a continuar, sabendo que a educação seria a única forma de alcançar os meus sonhos. Foram anos de muita luta, tanto para garantir o acesso à educação, quanto para superar os desafios de mobilidade, já que a minha deficiência dificultava esse aspeto. Mas a convicção foi maior que todos os obstáculos.
Referiu que, quando começou a sua jornada, a comunidade tinha uma visão diferente das mulheres com deficiência. Como foi essa experiência e de que forma o apoio do seu pai foi determinante?
No passado, as mulheres com deficiência eram vistas como um fardo, uma carga para as famílias. Na cultura tradicional, ser uma mulher com deficiência significava que não era apta para se casar ou ter filhos. Mas o meu pai nunca pensou assim. Ele sempre acreditou no meu potencial e apoiou-me em todas as fases.
O meu pai dizia que, mesmo que a comunidade me visse como um fardo, eu deveria encontrar formas de provar o contrário. Esse apoio deu-me coragem para ir à escola e, mais tarde, à universidade, onde me formei. A partir daí, envolvi-me ativamente nas questões políticas e sociais da minha comunidade. Hoje, a minha função é também um tributo aos meus pais, ao passado, e às raízes que a nossa terra preserva, guardando junto a memória e o espírito dos ancestrais.



