Como as crises impulsionam a inovação

A crise pandémica que atravessamos tem gerado atos inspiradores de inovação. Empresas, governos, empresários e cidadãos têm demonstrado o quão capazes são os humanos de inovar durante tempos de crise. Os requerimentos de distanciamento social têm impulsionado a força laboral a adaptar-se a modelos de trabalho remoto, as escolas a transitar para modelos de aprendizagem à distância e o abrandamento do comércio presencial tem estimulado os donos de pequenos negócios a transformar os seus modelos de negócio, numa tentativa de ficarem à superfície no meio de uma crise económica.

Em 2008, ninguém poderia antever como a queda de firmas como a Lehman Brothers despoletaria uma das mais severas crises financeiras que o mundo teria, até então, visto. No entanto, outra consequência que ninguém conseguiria prever, seria a criação de um novo tipo de instituições financeiras – as startups fintech. Como resultado desta crise, muitos indivíduos talentosos com carreira no setor financeiro decidiram divergir da banca tradicional e apostar numa abordagem mais empreendedora, reimaginando e reconstruindo a indústria até então conhecida.

Neste sentido, a necessidade obriga as empresas a inovar. Mas porquê esperar por uma crise para o fazer? Não devemos, pois esta não é uma estratégia de inovação sustentável e ninguém quer que esse seja o caminho para a mudança. Devemos inovar, porque queremos estar à frente da nossa concorrência e queremos oferecer aos nossos clientes as melhores soluções. Desta forma, ao analisar as iniciativas que as empresas têm implementado de modo a dar resposta à pandemia, existem várias lições que podem ser retiradas e que devem ser aplicadas para permanecer inovador – quer seja para enfrentar uma outra crise ou até mesmo para manter uma futura posição reforçada.

Assim, é necessário analisar quais os fatores que mais impulsionam a inovação numa crise, sendo que existem três mudanças chave que ocorrem numa perturbação ao normal decorrer dos negócios e que cultivam as condições ideais para novas abordagens e formas de pensar. Identificá-los e percebê-los poderá ajudar os líderes a aproveitar oportunidades para impulsionar mudanças significativas:

União com um propósito: Um dos desafios principais diários dos líderes é inspirar e gerar energia direcionada para os objetivos da organização. Durante uma crise pode haver um grande pico de energia na força de trabalho. Os líderes que conseguirem focar esta energia para um propósito claro irão tipicamente encontrar mais do que esforços a curto-prazo – experienciando uma abertura para novas ideias, à medida que os indivíduos se sentem incentivados a partilhar insights que normalmente guardariam para si mesmos.

Olhar de maneira diferente: Os líderes incentivam muitas vezes os consultores a ter uma perspetiva nova, encontrando oportunidades de inovação. Uma crise pode ter um efeito muito semelhante pois coloca as vulnerabilidades e problemas em foco, confrontando-nos com a verdade acerca de como os sistemas funcionam (ou não) – algo que expõem muitas oportunidades de inovação.

“Descongelar” a organização e motivar à ação: Ao crescer, as organizações solidificam estruturas para criar previsibilidade, eficiência e estabilidade. Mas as crises modificam e aceleram processos, o que permite que sejam aplicadas novas maneiras de pensar para responder aos desafios. O processo de experimentação torna-se mais eficiente, permitindo que os testes, falhanços e aprendizagens aconteçam a um elevado ritmo, impulsionando a inovação.

Segundo um estudo recente da McKinsey, 90% dos executivos acreditam que a pandemia mudará a forma como farão negócios nos próximos cinco anos. Mas também, mais do que três quartos dos mesmos concorda que as mudanças trazidas serão uma oportunidade para crescimento, com especial incidência nos setores de tecnologia e saúde. A maneira de fazer negócios mudará, bem como as interações com os consumidores e por isso é crucial que aprendamos rapidamente, de modo a podermos adaptar os serviços e produtos, trazendo soluções que no passado poderiam não ter procura expressiva (como a telemedicina ou as demonstrações online).

Deste modo, é importante saber utilizar essas oportunidades para inovar e não cair na tentação de jogar pelo seguro até haver maior claridade acerca do rumo da situação. Não existem por enquanto, certezas de quando a crise pandémica abrandará ou terminará, nem como é que seremos impactados pela mesma.

Mas se utilizarmos as lições aprendidas até agora para inovar, aprender e crescer, saberemos construir uma estratégia de futuro mais sólida, que ajudará a compreender que vantagens a longo prazo podemos ganhar face às mudanças rápidas e inesperadas.


Por Fabio Rodriguez, country manager da OrCam Technologies em Portugal e Espanha

Artigos Relacionados: