“Como é que alguém tão idiota pode ser eleito presidente de algum país?”

Peter Singer, filósofo e professor australiano, é conhecido pela sua defesa acérrima dos direitos dos animais e muitas vezes considerado como o filósofo vivo mais influente em todo o mundo. A ética é também uma das suas áreas de excelência. Falou com a Líder, no meio de vários trabalhos que tinha em mãos, e também no meio desta pandemia. Foi muito conciso e cirúrgico nas suas respostas. Deixa no ar as perguntas que devemos fazer e também um aviso à navegação para os nossos líderes. Salienta a forma como países com mulheres na liderança enfrentaram de forma bem-sucedida a situação pandémica e a pergunta quase-filosófica que nos fica no pensamento é a que dá título a esta entrevista.

Quais são as grandes questões filosóficas que podemos levantar nesta altura de pandemia?

Existem muitas questões importantes. Aqui estão três exemplos: como podemos avaliar a relação custo-benefício do confinamento social, comparando com um possível relaxamento e a probabilidade de haver mais doenças e mortes? Se não tivermos camas e ventiladores suficientes nas unidades de internamento, como devem ser distribuídas/os? Será que devemos usar voluntários humanos em “testes de desafios humanos”, com o objetivo de termos uma vacina mais cedo?

O ser humano foi confrontado com a sua própria fraqueza. No final de contas, não dominamos tudo aquilo que pensávamos que dominávamos. Será esta uma lição de humildade?

Acho que já sabíamos disso. Secas, cheias, furacões e incêndios… isto é maior do que nós, é verdade, mas nunca tivemos o pensamento de que temos o completo controlo do planeta.

Viver as mesmas coisas ao mesmo tempo, será isto a verdadeira globalização?

Sim, é outro exemplo poderoso do facto que somos apenas um mundo.

Terá o ser humano alguma responsabilidade nesta situação?

Com certeza, como sempre, temos a responsabilidade de ajudar as pessoas e reduzir o sofrimento.

O mundo voltará a ser como era ou acha que os comportamentos vão mudar e o mundo também?

Algumas coisas devem mudar permanentemente. Provavelmente, iremos realizar mais reuniões internacionais pela Internet, ao invés de presencialmente. Mas se tivermos uma vacina eficaz contra o vírus, julgo que a maior parte das coisas vai voltar ao que era.

A base desta doença é a relação entre o ser humano e animais. Neste caso, se não os tivéssemos comido nada disto teria acontecido. O que tem a dizer sobre isto?

Tem toda a razão. Existiam já duas fortes razões contra comer animais: a primeira é o sofrimento que lhes infligimos, especialmente quando são criados em quintas, mas também todas as formas de produção comercial de animais, como por exemplo a pesca comercial; aA segunda é a contribuição que a carne tem para as alterações climáticas. E agora temos uma terceira: o risco muito grave para a saúde pública e as pandemias.

Depois disto tudo, irá mudar os seus comportamentos? A sua perspetiva em relação ao Homem e ao mundo, irá mudar?

Não, nem por isso. Sempre soubemos que algo assim poderia acontecer – existem muitos livros e artigos alertando-nos há anos.

Quando ouve Trump a falar sobre este assunto, no que pensa?

Penso: “Como é que alguém tão idiota pode ser eleito presidente de algum país, muito menos de um tão rico e tão poderoso?” O que é que isto nos diz da democracia americana?

(…)

Entrevista a Peter Singer, Filósofo e Professor australiano. Para Leitura integral, subscreva aqui.

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