Como o Acordo Verde Europeu sobreviveu ao coronavírus

Um artigo da revista Politico defende que, na verdade, a ameaça da pandemia ajudou a fazer passar o Pacto Ecológico Europeu (European Green Deal), um plano estratégico lançado a meio de dezembro de 2019 para fazer da União Europeia o primeiro continente neutro em carbono até 2050.

O documento “A Green Industrial Policy for Europe”, assinado por Simone Tagliapietra e Reinhilde Veugelers, lança 50 medidas para colocar a União Europeia na liderança da criação de energias limpas a preços acessíveis – da renovação no sector da construção à estratégia industrial com vista a uma economia limpa e circular, passando pela mobilidade inteligente e sustentável e “Política Agrícola mais Verde”.


No seu primeiro discurso sobre o Estado da União, em setembro de 2020, a presidente da Comissão Europeia, Ursula Von der Leyen, disse que, mesmo durante a quarentena, o Planeta continuou a aquecer e que era vital uma ação rápida e decisiva.

Nessa altura anunciou uma nova meta de redução das emissões em 55% até 2030 para atingir a neutralidade climática duas décadas depois. “A meta de 2030 é ambiciosa, mas alcançável e benéfica para a Europa. Não existe ação mais urgente para a aceleração do que aquela que diz respeito ao nosso frágil Planeta. O Pacto Verde Europeu é o modelo para fazer essa transformação”, disse naquela ocasião.

Agenda do clima ajudada pela crise pandémica

Ao mesmo tempo que o ambicioso acordo ambiental era aprovado no final de 2019, uma misteriosa doença que afetava os pulmões dava os primeiros passos em Wuhan, na China. Em março de 2020, a onda de mortes por COVID-19 chegava à Europa e parecia ameaçar as boas intenções ambientalistas da UE.

As primeiras semanas da pandemia foram de pânico, com a classe política preocupada apenas com uma coisa: “Como manter as pessoas vivas e como manter a economia viva.” E assim, o Acordo Verde parecia ter saído da agenda.

Mas, no final de um dos anos mais negros da Europa, em dezembro de 2020, com mais de 300 mil mortos e uma economia em espiral, “os líderes da UE conseguiram um acordo para acelerar a redução das emissões nesta década a um ritmo considerado impensável mesmo há um ano.”

As crises económicas têm sido mortíferas de um trabalho sério de redução das emissões. Depois do colapso do banco de investimento Lehman Brothers, que, em 2008, desencadeou uma crise financeira global, o mundo “não teve tempo para hobbies verdes”, de acordo com um alto funcionário da Comissão Europeia envolvido no Green Deal e citado pela Politico na sua versão online.

Então, “como é que, no ano da peste, a Europa manteve os seus compromissos para com o clima”, perguntam os autores do artigo, Kalina Oroschakoff e Karl Mathiesen. “Aquelas semanas de março e abril foram cruciais, de acordo com entrevistas com mais de uma dúzia de funcionários, legisladores, diplomatas e ativistas realizadas ao longo do ano.”


A chefe da Comissão, uma conservadora alemã, tinha feito do clima um pilar central da sua presidência e encarregando o Vice-Presidente da Comissão Europeia Frans Timmermans da sua missão.

No início de março, apenas duas semanas antes do Governo Belga ter encerrado o país, o executivo da UE divulgou o que viria a ser a Lei do Clima, para tornar juridicamente vinculativo o objetivo da neutralidade climática até 2050.

 

Esquecer o verde e focar no vírus

Mas como nem tudo são rosas, e as histórias têm sempre desafios, à medida que os custos económicos da pandemia iam aumentando, o frágil consenso sobre o clima rapidamente se desgastava.

Combater o vírus e as alterações climáticas seria “um desafio para as economias enfraquecidas”, disse o Ministro polaco do Clima, Michał Kurtyka. A 16 de março, o Primeiro Ministro checo, Andrej Babiš, declarou que a UE deveria “esquecer” o Acordo Verde e concentrar-se no vírus.

Ambientalistas, políticos com espírito verde, académicos, empresas e investidores de tecnologia limpa, bem como países-membros mais conscientes do clima liderados pela Dinamarca, reconheceram a importância do momento e tiveram de fazer uma escolha: desistir da agenda verde ou reforçá-la?

Em abril, von der Leyen, junto com o Presidente do Conselho Europeu Charles Michel e legisladores seniores, lançava uma campanha para reforçar o pacto ambiental. A mensagem era esta: sair da pandemia “significa duplicar a nossa estratégia de crescimento, investindo no Acordo Verde Europeu.”

E assim, em finais de março, os líderes da EU, reunidos na sua primeira cimeira virtual, apoiaram um “investimento sem precedentes”, ao mesmo tempo que se mantiveram fiéis aos objetivos climáticos da UE.

Mas os governos pediam uma coisa acima de tudo: ideias que salvassem empregos. Diederik Samsom, o ambientalista e antigo político holandês que dirige o gabinete de Timmermans, terá dito aos colegas: “O que precisamos de concretizar agora são coisas reais. Precisamos de recuperar o verde. Mas o que é que vamos fazer realmente”?

Merkel e os fabricantes de automóveis

Os funcionários da Comissão, que estavam a tentar lidar com crianças sem escola e fechadas em casa, e com os idosos, olhou para o enorme conjunto de medidas do Green Deal, que não tinham sido sequer lançadas, e escolheu algumas. Como resultado, é lançado um plano que previa verbas para pontos de carregamento elétrico e projetos ferroviários verdes.

“Mas nas capitais e centros industriais da Europa a dor económica e o medo espalhavam-se quase tão rapidamente como o vírus, e grupos políticos de direita mexiam-se para adiar o Green Deal”, escreve a revista que se dirige a decisores políticos.

Na Alemanha, Angela Merkel estava sob pressão para acabar com a agonia dos fabricantes de automóveis – alguns dos seus aliados políticos mais antigos e a indústria mais próxima do coração alemão.

Mas quando a Chanceler lançou o seu pacote de recuperação de 130 mil milhões de euros recusou-se a subsidiar a compra de automóveis a diesel e a gasolina e duplicou o apoio à venda de veículos elétricos. A mensagem para os fabricantes de automóveis era clara: modernizar-se ou morrer.

Numa cimeira esgotante de cinco dias sobre o pacote orçamental e de recuperação, os objetivos climáticos continuaram a ser centrais nas conversações. E a 21 de julho os 27 líderes, não só concordaram com um pacote de apoio único no valor de 750 mil milhões de euros em dívida mútua, como também destinaram 30% do dinheiro para o esforço climático do bloco – mais do que a UE alguma vez tinha canalizado para os seus objetivos verdes.

Em setembro, von der Leyen recomendou que o objetivo de redução das emissões em 2030 subisse de 40% para um corte de 55%. A enorme injeção de capital do pacote de recuperação veio dar um importante sinal. Também nas conversações orçamentais foi criado um novo fundo de 17,5 mil milhões de euros para atenuar o impacto do corte nos combustíveis fósseis, uma medida que veio beneficiar a Polónia e outras regiões produtoras de carvão.

Numa cimeira realizada no final de 2020, todos os 27 líderes da UE assinaram o objetivo líquido dos 55%. Mas a Polónia, dependente do carvão, resistiu até ao fim, ganhando mais concessões em termos de apoio financeiro e opções de utilização de gás natural. Apesar de tudo, os ministros do ambiente acabaram por assinar o pacote da Lei do Clima.

Hoje, os especialistas são unânimes ao dizerem que tornarmo-nos verdes compensa. Os custos da tecnologia de energia limpa baixaram, tornando a energia solar e eólica mais competitiva em comparação com os combustíveis fósseis.

“Anos de protestos climáticos liderados pelos jovens catapultaram o clima para o topo da agenda pública. E com as alterações climáticas a invadir mesmo as nações mais ricas, secando culturas, inundando cidades e fazendo subir as temperaturas, nenhum político pode dar-se ao luxo de ignorar o tema.”

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