Como o World Economic Forum ajuda na resposta global à crise COVID-19

O Fórum Económico Mundial está preocupado com os impactos desta crise que não tem precedentes. Criou uma Plataforma de Ação COVID-19, para reunir toda a informação relevante para a comunidade empresarial global, proteger os meios de subsistência das pessoas e facilitar a continuação dos negócios. Kelly Ommundsen, Chief of Staff e Chairman Office do Fórum Económico Mundial, em entrevista exclusiva à Líder, acredita que esta crise nos está a ensinar muito e deixa o desafio aos jovens empreendedores para terem um papel ativo no relançamento da economia.


A Plataforma de Ação COVID tem como objetivo dar incentivo ao suporte do setor privado à saúde pública global na resposta à COVID-19, e fazê-lo na escala e velocidade necessárias para proteger vidas e meios de subsistência, com o objetivo de encontrar formas de ajudar a acabar com a emergência global o mais rapidamente possível. A Plataforma irá focar-se em três prioridades: galvanizar a comunidade empresarial global para ações coletivas; proteger os meios de subsistência das pessoas e facilitar a continuidade dos negócios; e mobilizar cooperação e apoio empresarial para a resposta à COVID-19.

Como pode a comunidade empresarial global ser galvanizada para uma atuação coletiva?
A soma de muitas ações individuais por partes interessadas em todo o mundo não será suficiente para dar uma resposta. Somente ações coordenadas por cada setor empresarial, combinadas com a cooperação global e multissetorial, podem mitigar o risco e o impacto desta emergência global de saúde sem precedentes. O Fórum Económico Mundial está a usar o seu poder de coordenação para ajudar a agregar e acelerar os esforços das organizações para fornecer as últimas informações e orientações para os negócios, compartilhar as melhores práticas, mobilizar recursos onde são mais necessários, colaborar em iniciativas com o setor público e a sociedade, no sentido de ajudar a minimizar o efeito sobre a saúde pública, e limitar as interrupções às economias e cadeias de fornecimento. Como organização, o Fórum Económico Mundial tem um histórico de esforços de apoio para conter epidemias. Em 2017, no nosso encontro anual, foi dado início à Coalition for Epidemic Preparedness Innovations (CEPI) – reunindo especialistas do governo, negócios, saúde, academia e sociedade civil para acelerar o desenvolvimento de vacinas. A CEPI está neste momento a dar suporte à corrida para desenvolver uma vacina contra esta estirpe do Coronavírus.

O Professor Klaus Schwab, Fundador e Presidente Executivo do Fórum Económico Mundial afirmou recentemente: “a nossa melhor e única resposta a isto (pandemia COVID-19) devia ser em ação concertada”. Qual é a sua opinião à resposta da União Europeia até agora?
Temos assistido a um conjunto de respostas diferentes através de toda a UE em relação à escolha de políticas para resposta a esta crise. Embora existam vários fatores que levam cada país a agir da forma e no tempo que lhes parece mais conveniente, a resposta tem sido em grande parte individual e descoordenada, o que tem resultado, em última instância, em centenas de milhares de mortos por todo o continente. Olhando para o futuro, o importante é como irá a UE comportar-se no atenuamento das atuais restrições sociais. Será essencial que estas medidas sejam coordenadas entre países para garantir que não assistimos a uma explosão de novos casos e a um risco de uma segunda onda de infeções. Isto não significa que uma medida se encaixe em todas as políticas para todos os países. Significa apenas que deve haver um acordo sobre os princípios gerais para aliviar estas restrições e um quadro em vigor que ajude os países a avaliar qual será a escolha mais eficaz para a sua situação.

Serão as vidas das pessoas e continuidade dos negócios incompatíveis?
Existe um equilíbrio sensível que precisa de ser atingido, entre proteger a saúde, a segurança dos indivíduos, e garantir que as economias não entrem em colapso. A saúde pública deve sempre vir em primeiro lugar como prioridade máxima, bem como garantir serviços essenciais, como alimentos, equipamento médico, equipamento pessoal de proteção, e que utensílios de higiene estão disponíveis, cuja distribuição seja apoiada por por cadeias de fornecimento relevantes. Para manter as pessoas saudáveis é importante, a curto prazo, que os negócios não essenciais fechem com o objetivo de achatar a curva de infeção, o que irá permitir que estes negócios voltem a abrir a médio prazo, o que levará a manter manter a economia saudável a longo prazo.

Quais serão as grandes consequências para os negócios, sabendo que não existe um fim à vista para esta pandemia, pelo menos antes de uma vacina estar disponível?
A incerteza nunca foi boa para os negócios e já vimos o impacto devastador desta crise em algumas economias espalhadas pelo mundo. Dez milhões de trabalhadores foram colocados em lay-off. É expectável que o crescimento global tenha um decréscimo de 3% e que os efeitos desta crise serão capazes de causar a pior recessão global desde a Grande Depressão. O desenvolvimento de uma vacina ou terapêutica que seja efetivamente capaz de tratar a COVID-19 é um fator crítico para ajudar a trazer segurança e alguma estabilidade aos indivíduos, negócios e à economia como um todo. Investigadores dizem que poderá demorar entre 12 a 18 meses a desenvolver uma vacina, testar e distribuí-la a uma escala global, isto significa que estaremos a passar uma fase difícil a nível económico até lá.

Pensa que podemos retirar algumas conclusões positivas desta crise?
Esta crise tem providenciado uma grande oportunidade para reflexão em relação a tudo nas nossas vidas que tomamos como garantido. As liberdades que temos, a habilidade de nos movermos, comer, beber, viajar e de interagir com quem quisermos, o acesso a necessidades e luxos, e ver que todas essas liberdades nos foram retiradas, força-nos todos a reduzir o ritmo e a avaliar o que realmente importa. Existem algumas pequenas ideias que podemos retirar desta crise, incluindo a cooperação sem precedentes entre companhias e geografias que se juntaram para desenvolver uma vacina. Este interregno nas viagens e na produção teve como consequência uma redução da poluição e emissão de gases carbónicos, dando à mãe natureza uma oportunidade para respirar. Verificamos também todos os pequenos gestos de ajuda entre as pessoas ou o dedicar mais tempo para homenagear os profissionais de saúde, funcionários de supermercados, trabalhadores de saneamento urbano, e todos os serviços que nos ajudam a fazer com que as nossas vidas em sociedade funcionem. Espero também que possamos usar este momento como um ponto de inflexão e visualizarmos aquilo que queremos mudar para que, quando este Estado de Emergência de saúde pública terminar, não voltemos ao status quo, mas sim a criar um mundo melhor, mais justo, mais coeso e mais sustentável.

Qual seria o seu conselho para um empresário ou empreendedor neste momento?
Os negócios têm um papel fulcral nesta crise. Por exemplo, a LVMH reestruturou algumas linhas de produção de perfumes e cosméticos para fabricar gel desinfetante que depois é entregue a profissionais de saúde. A Coca-Cola está a usar a sua logística e a sua network de cadeia de fornecimento para ajudar na distribuição de máscaras faciais. O grupo Tata está a providenciar software e serviços educacionais para colmatar a lacuna de aprendizagem que existe nas escolas que foram fechadas, e existem muitos mais exemplos que poderia nomear. Contudo, não são só as grandes empresas que podem fazer a diferença, empreendedores e pequenos negócios podem ter um grande impacto nas suas comunidades. Os Globlal Shapers, uma network de milhares de jovens empreendedores espalhados pelo mundo juntaram- -se e criaram 56 projetos nas suas comunidades locais para ajudar na luta contra a COVID-19, desde disseminar informação credível até à distribuição de pontos de lavagem de mãos, passando por maratonas de programação virtuais. O mundo precisa de ideias inovadoras que nos ajudem não só a sair desta crise, mas que nos ajudem a construir um melhor e mais seguro regresso após a pandemia. Ideias inovadoras de jovens líderes, líderes de negócios e de todos os interessados serão a chave para desbloquear este novo futuro.

Entrevista Catarina G. Barosa, publicada na edição de Abril da Líder

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