Como os cenários de ficção ajudam a imaginar o futuro

Na era da big data, da inteligência artificial e das previsões continuadas do futuro, a ficção pode ajudar-nos a navegar na incerteza, abrindo-nos os olhos para uma variedade de cenários.

Há um ditado que diz “é perigoso fazer previsões, especialmente sobre o futuro.” Basta olhar para as previsões dos especialistas para ver como são imprecisas, diz Vikram Mansharamani, professor da Universidade de Harvard e autor de um artigo da Strategy+Business sobre o poder da ficção na previsão do futuro.

Um exemplo é a obra A Grande Depressão de 1990, do economista Ravi Batra, da Universidade Metodista do Sul (que ficou na lista dos mais vendidos durante 10 meses em capa dura e mais de 19 meses em brochura). Esta não considerou os desenvolvimentos tecnológicos que fizeram da década de 90 uma das décadas mais produtivas de todos os tempos.

O vencedor do Prémio Nobel, Ken Arrow, relembrou o trabalho que fez para a Força Aérea dos EUA. Ao concluir que as previsões em relação ao tempo nas quais os superiores se baseavam eram totalmente inúteis (ou seja, estatisticamente aleatórias, nada melhor do que um palpite), viu as suas ideias rejeitadas ao ser informado que “o general comandante está ciente de que as previsões não são boas; no entanto, ele precisa delas para fins de planeamento.”

A precisão não deve ser o critério sobre o qual avaliamos o que o futuro nos reserva. A utilidade, propõe Vikram Mansharamani, é um padrão muito melhor. Assim como é impossível avaliar a qualidade de um processo de decisão pelo seu resultado, também é improdutivo avaliar a qualidade de uma previsão pela sua precisão.

À medida que enfrentamos níveis sem precedentes de incerteza nas nossas vidas pessoais e profissionais, precisamos de aprender mais sobre a incerteza. Numa época em que terceirizamos grande parte de nosso pensamento para algoritmos, big data e especialistas, é vital recuperarmos a capacidade de pensar por nós mesmos. E a esse respeito, vale a pena olhar para o trabalho de pessoas que imaginam o futuro.

Ficcionar uma ampla gama de resultados pode ajudar-nos a ampliar a nossa visão das possibilidades futuras. De fato, pensar em vários cenários, histórias de futuros possíveis, pode ser a maneira mais útil de apoiar a tomada de decisão diante de uma incerteza radical.

Planeamento de cenários

Há uma longa história por trás do uso de cenários como um meio de explorar a incerteza. A prática realmente começou com Herman Kahn, que agarrou no planeamento de cenários militares da Força Aérea dos EUA e tentou adaptá-lo ao contexto comercial.

Pensador de sistemas, Kahn foi co-fundador do Hudson Institute e ganhou destaque como estratega de guerra nuclear na Rand Corporation. Em 1967, ele e o seu colega Anthony Wiener escreveram O ano 2000. Em 1976, junto com alguns colegas escreveu um livro intitulado Os próximos 200 anos: um cenário para a América e o mundo.

Uma das histórias que Kahn desenvolveu, e que na época poderia parecer um tanto absurda, foi a de que a Coreia do Sul – um dos países mais pobres do mundo na década de 1970 – emergiria como uma potência económica na viragem do século.

O uso de cenários na Shell

Se Kahn é o pai do planeamento de cenários modernos, Pierre Wack é o filho que levou a metodologia à comunidade empresarial. Wack e os seus colegas do departamento de planeamento de grupo da Royal Dutch/Shell entendiam que o preço do petróleo era crítico para os negócios, mas como o preço tinha estado relativamente estável por longos períodos de tempo, poucos se preocupavam com isso.

Os estrategas pensaram que essa era uma má forma de pensar sobre o futuro e, no início dos anos 70, começaram a desenvolver histórias de possíveis cenários que poderiam afetar o preço do petróleo. Um cenário envolveu a criação da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP). Quando a Guerra do Yom Kippur de 1973 levou a um choque no preço do petróleo, a Shell estava mais preparada do que a maioria porque os seus gerentes já tinham começado a pensar em estratégias para esse cenário que se tornou realidade.

 

Peter Schwartz, que também integrou o departamento de planeamento da Shell, resumiu o valor dos cenários usados ​​pela Shell na obra The Art of the Long View: “O resultado final… [não] era uma imagem precisa do amanhã, mas melhores decisões sobre o futuro.”

A experiência da Shell mostra que não precisamos de nos surpreender com desenvolvimentos futuros. De fato, ao ignorar a incerteza em vez de abraçá-la, podemos perder riscos óbvios e abrir mão de enormes oportunidades.

Afinal, todos são capazes de imaginar cenários que podem ou não ocorrer. Certamente, a imaginação pode produzir alguns pensamentos sem sentido. Mas, entre eles, podem estar alguns revolucionários.

“Por esse motivo, na última década, comecei a ler regularmente ficção e a ver filmes para me ajudar a imaginar mundos diferentes, cenários possíveis e futuros alternativos”, reconhece o professor de Harvard Mansharamani, exemplificando as suas ideias com outro cenário: a possibilidade da Califórnia se separar dos EUA, algo que se pode depreender do filme San Andreas, de 2015.

A revista Economist, no dia 1 de agosto de 2015, na sua edição anual sobre cenários de futuro chamada The World If, propôs um cenário intitulado “E se um asteróide se dirigir à Terra?”. Os cenários do ano seguinte, publicados em julho de 2016, levaram a uma história que muitos consideraram altamente improvável: “E se Donald Trump fosse presidente?”

 A ficção que passa a ser realidade

Os filmes de ficção, ao nos forçarem a pensar em cenários radicais, têm a função de expandir a nossa imaginação sobre como pode ser o futuro. E como os bons filmes têm de ser realistas o suficiente para que possamos acreditar neles, há detalhes aparentemente irrelevantes que devem ser cuidadosamente considerados nos filmes.

“Um filme que eu acho particularmente bom em desenhar um cenário com detalhes realistas é Contagion, o filme de 2011 sobre uma pandemia que cria medo e caos em grande parte da América.” O filme começa quando uma mulher que volta para casa de uma viagem a Hong Kong desenvolve sintomas inexplicáveis ​​e morre. Logo, outras pessoas com quem ela interagiu fisicamente ficam doentes com sintomas semelhantes. À medida que a epidemia se desenrola, observamos as perturbações no comportamento político, social, económico e moral.

Que tal desenvolver planos de coordenação contingente com organizações multinacionais como a Organização Mundial da Saúde? Os sistemas são fortes o suficiente para enfrentar uma pandemia que desliga grandes seções da economia e ameaça a saúde pública? Se tivéssemos tentado responder a algumas destas perguntas aparentemente fantasiosas com antecedência poderíamos hoje, perante a pandemia do coronavírus, estar em melhor posição para enfrentar os desafios que temos pela frente.

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