Como voltar a acreditar no Líder Político?

É com gosto que vejo normal esta edição da revista «Líder» dedicada à política. São, de facto, dois conceitos quase siameses: a política e a liderança. É quase impossível não associar imediatamente uma qualquer figura política quando procuramos exemplos de liderança, tal como quando analisamos um (bom) político não lhe destacar as suas características de líder.

Obama, Churchill ou, mais distantes, Napoleão e Júlio César serão sempre modelos de liderança que recordaremos mais depressa do que Steve Jobs, Mark Zuckerberg ou Elon Musk.

Esta simbiose tem para mim duas razões simples. A primeira, a dimensão do universo de liderados. Se pensarmos num governo, além de toda a máquina estatal (com ministérios e serviços compostos por milhares de trabalhadores), todo o conjunto de cidadãos que representa como que uma massa de “acionistas”, composta, no caso português, por cerca de 10 milhões de cidadãos, que se reúnem em “assembleia geral” a cada quatro anos. Segundo, o objeto da ação de um político obriga a uma forte marca de liderança. Um político será sempre um criador de futuro, o que muitas vezes leva a que se tenha de abdicar hoje para receber frutos amanhã. Este trapézio entre liderança e liderados, futuro e presente cria equações difíceis de resolver. Se, para ter um melhor futuro, o político tiver de abdicar no presente e isso não for compreendido ou aceite, provavelmente quem não terá futuro será o próprio líder. É este o dilema em que a política se deixou enredar. Líderes que vivem para o presente, agradando às suas “assembleias gerais” com distribuições de “dividendos” insustentáveis e que abdicam do seu papel de geradores de futuro.

Este pragmatismo eleitoral, será provavelmente uma das maiores causas do declínio das democracias: deixamos de acreditar na política. E, sem tapar o sol com a peneira, a culpa é dos políticos. O que consequentemente me obriga a assumir a minha quota-parte de responsabilidade.

Não devemos ignorar os riscos provenientes da onda de populistas, de esquerda e de direita, que singram nas democracias. Fenómenos como Donald Trump, Bolsonaro e Marine le Pen, mas também Pablo Iglesias, Lula da Silva ou Aléxis Tsipras, devem fazer-nos refletir. E perguntar: o que têm os partidos defensores da democracia liberal para oferecer?

A resposta a esta pergunta é fácil, o que sempre ofereceram quando foram responsáveis e corajosos, o melhor modelo de desenvolvimento social e económico até hoje inventado.

Gestão de crise

A pandemia do populismo só será vencida quando os governos e as instituições, como a União Europeia, voltarem a fazer com que os seus cidadãos voltem a acreditar na política. Quando lhes oferecerem soluções para os seus problemas e lhes mostrarem um futuro real, exequível, melhor.

Se é fácil, no entanto, dar a solução geral para este problema, a sua aplicabilidade é bem mais complexa. O marasmo em que a política se encontra dura há já muito tempo e a inércia que lhe subjaz é enorme. Se olharmos para a Europa, vemos uma estrutura lenta, burocrática e mais preocupada com os procedimentos do que propriamente com as soluções. Assistimos à passividade e à lentidão na resolução da crise financeira de 2008, à falta de ação na crise dos migrantes de 2015 e, agora, em 2021, à desorientação e ao cada um por si no combate à pandemia da COVID-19 e às suas consequências económicas.

Todas estas crises deviam ter-nos ensinado alguma coisa, deviam ter alterado paradigmas e reforçado a união e a confiança nas instituições. Nada disto aconteceu e até os menos céticos tendem a apostar que no pós-COVID tudo se manterá igual. A consequência será óbvia: o agravar dos problemas e a continuação do crescimento dos movimentos populistas que tantos dizem temer. Sejamos claros, se as pessoas não virem uma saída para os seus problemas, uma solução em que acreditem, deixarão cair-se no desespero, no egoísmo e nas mãos dos falsos profetas que oferecem as ilusões mais cor-de-rosa para a situação individual de cada um.

Nelson Mandela dizia que devemos “inspirar esperança onde há desespero”. Será sempre este o papel de um líder político e sempre esta a melhor forma de combater o populismo. O populismo só existe na ausência de lideranças credíveis.

(…)


Por Miguel Pinto Luz, Vice-Presidente da Câmara Municipal de Cascais e Político

Pode ler o artigo na íntegra na edição nr15 da revista Líder, já nas bancas.

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