Durante décadas, a fraude científica foi vista como um problema pontual com episódios isolados em que um investigador manipulava dados, copiava resultados ou exagerava conclusões para acelerar a carreira. Casos escandalosos surgiam de tempos a tempos, provocavam indignação momentânea e terminavam com a retratação de um artigo ou a queda de um académico.
Mas uma nova investigação conduzida por cientistas da Northwestern University, nos Estados Unidos, sugere que o problema ganhou uma dimensão muito mais profunda e preocupante. Segundo o estudo, a fraude científica deixou de ser um desvio individual para se transformar numa verdadeira indústria global, alimentada por redes organizadas que produzem, vendem e publicam investigação falsa em larga escala.
O alerta surge num artigo publicado na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences, e os investigadores são claros: a fraude científica está a espalhar-se mais rapidamente do que a própria ciência legítima.
Uma máquina organizada para fabricar ciência
A investigação foi liderada por um português, Luís A. N. Amaral, professor de engenharia e ciências aplicadas na Northwestern University, e especialista em sistemas sociais complexos. Juntamente com a sua equipa, Amaral analisou enormes bases de dados científicas, registos de retratações de artigos, informação editorial e milhares de publicações académicas.
O objetivo era perceber se os casos de fraude eram realmente episódios isolados ou se existia um padrão mais profundo. A resposta foi inquietante. Em vez de investigadores individuais a manipular resultados, os cientistas descobriram redes estruturadas que funcionam quase como organizações criminosas, ligando autores, intermediários e revistas científicas dispostas a publicar trabalhos fraudulentos. Nas suas palavras, «estas redes são essencialmente organizações que falsificam todo o processo científico», explicou Amaral. «Há milhões de dólares envolvidos.»
As ‘fábricas de artigos’
No centro deste sistema estão as chamadas ‘paper mills’ — empresas ou grupos que funcionam como verdadeiras linhas de produção de artigos científicos. O modelo de negócio é simples: produzir rapidamente manuscritos académicos e vendê-los a investigadores que precisam de publicar.
O conteúdo desses artigos pode incluir dados completamente inventados, imagens manipuladas ou roubadas de outros estudos, texto plagiado e resultados cientificamente impossíveis. Apesar disso, os artigos são formatados de forma convincente e preparados para parecer investigação legítima. Depois entram em cena os clientes, investigadores que pagam para aparecer como autores.
«Hoje não se compram apenas artigos», explica Amaral. «Também se compram citações, o que permite construir uma reputação científica artificial.»
Segundo o estudo, estas redes funcionam com uma lógica quase empresarial. Um investigador pode pagar centenas ou milhares de dólares para comprar um lugar como autor num artigo que ainda está em preparação. O preço depende da posição na lista de autores e quanto mais destacado for o lugar, mais caro se torna. Ou seja, o primeiro autor é a posição mais cara, os autores intermédios tem preços mais baixos e a autoria final é frequentemente usada como ‘decoração académica’.
Em alguns casos, os intermediários oferecem também pacotes completos: escrever o artigo, garantir citações e assegurar que o estudo será aceite numa revista científica.
Intermediários e revistas comprometidas
Outro elemento fundamental neste sistema são os ‘brokers’, ou intermediários. Estes agentes fazem a ligação entre os diferentes participantes da fraude: quem escreve os artigos, quem quer comprá-los e quem está disposto a publicá-los. Para que o esquema funcione, é necessário encontrar revistas científicas onde os mecanismos de controlo possam ser contornados.
Em alguns casos, isso acontece através de processos de revisão científica falsos, nos quais os revisores são escolhidos pelos próprios autores ou pertencem à mesma rede fraudulenta. Noutras situações, os grupos recorrem a uma estratégia ainda mais insólita: apoderar-se de revistas abandonadas.
Quando uma publicação científica deixa de funcionar, o domínio da internet pode expirar. Algumas redes compram esses domínios e ressuscitam a revista, transformando-a num veículo para publicar milhares de artigos falsos.
Um exemplo citado no estudo é o da revista HIV Nursing, que originalmente pertencia a uma organização profissional de enfermagem no Reino Unido. Após deixar de publicar, o domínio foi adquirido por um grupo desconhecido, que passou a lançar centenas de artigos sobre temas completamente alheios à enfermagem, todos indexados em bases de dados científicas.
Como os cientistas descobriram as redes
Para identificar estes padrões, os investigadores recorreram a grandes bases de dados científicas, incluindo: Web of Science; Scopus; PubMed/MEDLINE; OpenAlex
Além disso, analisaram bases de dados especializadas em retratações científicas, como o Retraction Watch, bem como discussões críticas publicadas na plataforma PubPeer.
Os investigadores cruzaram também metadados de artigos — datas de submissão e aceitação, nomes de editores, padrões de autoria — procurando sinais de irregularidades.
Noutro projecto paralelo, a equipa criou um sistema automático que detecta inconsistências técnicas em artigos de engenharia e ciência dos materiais, por exemplo autores que descrevem equipamentos experimentais que nem sequer existem.
Um problema que ameaça a confiança na ciência
O crescimento destas redes preocupa seriamente a comunidade científica. Segundo os autores do estudo, se o fenómeno não for travado rapidamente, existe o risco de contaminar a literatura científica com informação falsa, algo que pode ter consequências graves, sobretudo em áreas como medicina, tecnologia ou políticas públicas.
«Se não criarmos consciência sobre este problema, comportamentos cada vez piores vão tornar-se normais», alerta Amaral. «E pode chegar um ponto em que será demasiado tarde.»
O investigador sublinha que denunciar o problema não é atacar a ciência, pelo contrário. «Algumas pessoas receiam que falar disto seja prejudicar a ciência», afirma. «Mas eu acredito que estamos precisamente a defendê-la»
Há ainda um factor adicional que pode agravar a situação: a inteligência artificial. Se bases de dados científicas contaminadas com estudos fraudulentos forem usadas para treinar sistemas de IA, esses sistemas poderão reproduzir e amplificar erros ou resultados falsos, criando um ciclo difícil de interromper.
«Se já não estamos preparados para lidar com a fraude actual, também não estamos preparados para aquilo que a inteligência artificial pode fazer à literatura científica», afirma Reese Richardson, investigador pós-doutorado e primeiro autor do estudo.
Para Amaral, a investigação teve um impacto pessoal inesperado. «Este foi provavelmente o projecto mais deprimente em que trabalhei na minha vida», confessou.
Desde criança, conta, sempre viu a ciência como um instrumento fundamental para compreender o mundo e melhorar a vida das pessoas. Descobrir que esse sistema pode ser manipulado por interesses financeiros foi, nas suas palavras, profundamente perturbador.
Ainda assim, insiste: ignorar o problema seria muito pior. «Se acreditamos que a ciência é importante para a humanidade”, conclui, “então temos de lutar para a proteger»


