“Conversas com Significado”: Saúde mental no centro do olhar da Liderança

Sob o mote do wellbeing, as “Conversas com Significado” estão de regresso. Agora, em formato digital reuniram Susana Silva, Diretora de RH do El Corte Inglés, e Vitor Papão, Diretor Geral da Gilead, com moderação de Maria Duarte Bello, MDB Coaching e Gestão de Imagem.

Flexibilização e novos espaços físicos de trabalho, equilíbrio entre vida pessoal e profissional, empoderamento dos trabalhadores, confiança e gestão do tempo sem nunca esquecer o contacto físico entre as pessoas, são algumas das prioridades das empresas para que se garanta um bem-estar geral dos seus trabalhadores.

Ultrapassada a preocupação com a proteção da saúde e garantia das condições e manutenção dos postos de trabalho, é chegado o momento de olhar para a saúde mental das pessoas e colocá-la no foco das dinâmicas empresariais para que os laços não se desvaneçam.

Sob o mote do wellbeing, as “Conversas com Significado”, um espaço aberto ao debate de temas de Gestão de Pessoas e Organizações, procurou saber até que ponto o tema da saúde mental e bem-estar está presente nas agendas e centro de liderança das empresas. Temas urgentes como o controlo da ansiedade e stress, gestão da frustração, superação das fragilidades e acautelar o esgotamento físico e mental dos trabalhadores pelo excesso de responsabilidades, representam um desafio à dinâmica global dos Recursos Humanos.

Susana Silva, Diretora de RH do El Corte Inglés, e Vitor Papão, Diretor Geral da Gilead, farmacêutica multinacional, partilharam visões e exemplos práticos das suas organizações dando uma nota de esperança quanto ao futuro – apesar de nada voltar a ser como era antes, as pessoas e o contacto interpessoal estarão sempre no centro do olhar da liderança.

As Lições da Pandemia

Durante a Pandemia, ambos os gestores admitem que houve lições a aprender. O maior ensinamento que apontam foi a capacidade de união entre as equipas e resiliência das pessoas, juntando esforços para um bem comum e fortalecendo a própria cultura da empresa.


No início havia um sentimento generalizado de incerteza e medo de perda do emprego; após um ano de teletrabalho nota-se uma fadiga nas plataformas de videoconferência que pode prejudicar a produtividade. O excesso de horas de trabalho em reuniões pelo zoom e teams foi drasticamente reduzido do primeiro para o segundo confinamento. Hoje, a gestão do tempo deve ser dada ao trabalhador tal como a possibilidade de rejeitar estar em reuniões em prol da sua agenda de trabalho. As lideranças têm de dar confiança às pessoas para que deixe de haver medo em dizer “não” pois isso não significa que estão a dar menos valor ou atenção ao trabalho. Segundo Vítor Papão, esse sentido de empoderamento e tranquilidade é uma responsabilidade das lideranças para que os seus colaboradores se sintam “donos das suas agendas e do seu tempo”.

A questão do aumento da jornada de trabalho é evidente, e sobre isso as empresas devem ainda fazer um esforço para que todos os seus colaboradores sejam mais regrados, quer no agendamento de reuniões ou envio de emails “fora de horas”. As conversas informais, os pequenos “desabafos” entre colegas, é uma parte da conexão entre as pessoas, e o estar em zoom, ou enviar um email, não transparece as emoções de cada um, além de ser uma barreira ao pedido de ajuda caso se esteja numa situação de maior fragilidade.


Perante isso, e ouvindo as necessidades dos seus colaboradores, ainda em regime de teletrabalho, Susana Silva abriu os escritórios do El Corte Inglés permitindo que dentro dos limites máximos as pessoas se deslocassem e estivessem no mesmo espaço físico. Para além disso, houve um investimento em outras áreas, como na educação das pessoas, num programa de reconhecimento de equivalência aos 9º e 12º anos, com 75 pessoas a melhorar as suas qualificações e uma aposta na inclusão, com o aumento do recrutamento de pessoas com défice intelectual, nomeadamente Trissomia 21.

Pessoas e novos modelos de trabalho

Apesar de ser evidente que não se vá regressar aos modelos tradicionais de trabalho, com uma versão híbrida do mesmo, Vítor Papão afirma que o espaço físico de trabalho é necessário pela sua dimensão humana e de manutenção do espirito de equipa. Nada vai voltar a ser igual, mas as pessoas querem estar juntas e a presença física no local de trabalho é fundamental.

Tanto a Gilead como o Corte Inglês, já estão a projetar os novos espaços de trabalho, com a redução das áreas de escritório, menos gabinetes e maiores zonas de open space com free seats, permitindo um tipo de trabalho mais flexível, num espaço organicamente mais ágil. É verdade que esta Pandemia trouxe a noção de que quase 100% do trabalho pode ser feito a partir de casa, mas as pessoas precisam de se ver umas às outras e de estar presentes fisicamente. Nas palavras de Vítor Pação, vai continuar a existir uma “componente importante de presença no local de trabalho, não necessariamente pela necessidade do trabalho em si, mas sim por que o espírito de equipa assim o obriga.”

Para Susana Silva, há que olhar para a diversidade e ser consciente sobre o que cada colaborador quer (modelos híbridos ou voltar ao escritório), admitindo criar “modelos individuais” à medida das suas preferências.

Emoções à flor da pele

Após um ano de pandemia e de um segundo confinamento, há um sentimento generalizado de cansaço que fez aparecer novas formas de pressão sobre os gestores das empresas. Das lideranças exige-se que não se mostre fragilidade ou incerteza, pois como pilares da organização, o seu desânimo afeta o espírito dos restantes elementos. Para ajudar a superar essa pressão, Susana Silva aconselha a manter a calma e o positivismo. Para Vítor Papão, uma boa estratégia é ser claro e honesto em relação à ansiedade que os trabalhadores possam sentir, mostrando transparência nas respostas e poder dizer: “eu ainda não sei”. É crucial ganhar a confiança das equipas mas também saber que não é errado mostrar alguma fragilidade e há espaço para que isso aconteça – não tem de estar sempre tudo bem.

É verdade que as emoções estão mais à flor da pele e há um elevado sentimento de cansaço em relação ao teletrabalho. Para que haja espaço ao equilíbrio entre vida pessoal e profissional, na Gilead a prioridade foi dar conforto às pessoas através de algumas medidas práticas: terminar o dia de trabalho à sexta-feira pelas 15h30 e garantir que o tráfego de e-mails não continue após essa hora, disponibilização de uma verba anual para as pessoas usarem em bem estar (aulas de yoga, coaching, sessões de psicoterapia) a que se juntou durante o período de Pandemia, enquanto as escolas estiveram fechadas, uma verba para babysitting.

No El Corte Inglés, já existe um centro médico disponível ao longo do horário de trabalho, com acompanhamento psicológico e a realização de sessões de motivação. Especificamente sobre a saúde mental dos seus trabalhadores, numa fase pós-pandemia, já estão a ser criados grupos de análise dentro da organização de forma a aferir com detalhe quais as necessidades e o diagnóstico do bem-estar das suas equipas, uma prática comum, que atualmente ganhou um maior destaque.

A questão da saúde mental irá continuar a ser uma prioridade nas agendas das empresas numa fase pós-pandemia e ainda há um caminho a percorrer de identificação e diagnóstico para chegar às melhores soluções e medidas adequadas. As pessoas só darão o seu melhor se estiverem bem e é preciso o empenho dos líderes para se manter o ânimo e força anímica das equipas, assegurando o bem-estar geral das organizações.

A iniciativa “Conversas com Significado” é levada a cabo por profissionais ligados à Gestão de Pessoas/ Gestão e Desenvolvimento de Talento, com o objetivo de ser um agente influenciador do posicionamento estratégico da função de Gestão de Pessoas contribuindo para a sua efetiva integração nas equipas de gestão de topo nas organizações, como verdadeiros parceiros estratégicos e de negócio.

O formato é simples – “Conversas” trimestrais entre três protagonistas – um Diretor de Gestão de Pessoas e um Diretor Geral (ou membro da Gestão de Topo) debatem um tema relevante da Gestão de Pessoas com a facilitação de um Moderador, num ambiente informal, e com a participação das pessoas presentes.

Por Rita Saldanha

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