Num mundo mais instável, a pergunta regressa: quem está preparado para defender a paz? Durante anos, a guerra pareceu uma memória distante na Europa. Um capítulo pesado dos livros de História ou uma tragédia que acontecia noutras geografias. Hoje, essa perceção está a mudar. O conflito voltou ao continente europeu, as tensões multiplicam-se no Médio Oriente e a própria ideia de segurança tornou-se mais complexa — estende-se ao ciberespaço, à informação e à tecnologia.
Foi nesse contexto que o coronel Carlos Mendes Dias, do Exército, e a comandante Vânia Guerreiro, responsável pelo Corpo de Alunos da Escola Naval, participaram num debate sobre segurança e defesa perante uma plateia de jovens, na Leadership NEXT GEN. Marcelo Teixeira, jornalista da Líder, moderou o debate.
A pergunta que abriu a sessão foi simples, mas reveladora: se Portugal estivesse em guerra amanhã, sentiríamos que isso nos diz diretamente respeito?
A reação da sala, dividida entre aplausos e assobios, mostrou que a resposta está longe de ser consensual.
Veja o momento completo aqui:
Carlos Mendes Dias, Vânia Guerreiro, Marcelo Teixeira – A guerra já não é longe
A guerra nunca desapareceu
Para o coronel Carlos Mendes Dias, a ideia de que o mundo viveu durante décadas num período de paz duradoura resulta, em parte, de um erro de perceção.
Segundo dados recentes que apresentou, entre 2024 e 2026 existiram entre 56 e 61 conflitos armados ativos em cerca de 36 países. A guerra, sublinhou, nunca deixou de existir, apenas parecia distante do olhar europeu.
«A paz dos homens é sempre circunstancial», afirmou.
Para sustentar o argumento, o coronel recorreu várias vezes à etimologia das palavras, uma ferramenta que utilizou para explicar conceitos históricos e políticos. Ao falar de ‘nação’, por exemplo, lembrou a origem latina do termo — natio, ligada à ideia de lugar onde se nasce. Já ‘pátria’, explicou, remete para a terra dos pais, a comunidade de onde herdamos uma identidade.
A distinção, aparentemente académica, serviu para ilustrar um ponto central do seu raciocínio: as sociedades tendem a esquecer as bases culturais e históricas que sustentam a ideia de pertença.

A tecnologia muda as armas, não a guerra
A discussão avançou depois para a guerra tecnológica. Hoje, drones relativamente baratos podem destruir equipamento militar pesado, ataques informáticos conseguem paralisar sistemas críticos e campanhas de desinformação circulam à escala global.
Mas, para Carlos Mendes Dias, a inovação tecnológica sempre acompanhou a guerra.
Durante a Primeira Guerra Mundial, lembrou, surgiram ou foram utilizados de forma massiva aviões de combate, submarinos, carros de combate, metralhadoras automáticas e armas químicas. Na altura, também pareciam revolucionários.
O próprio termo ‘tanque’, recordou, nasceu de uma manobra de dissimulação britânica durante esse conflito: os primeiros carros de combate eram descritos como depósitos de água — tanks — para esconder a sua verdadeira função. A tecnologia muda os instrumentos, argumenta, mas «não altera a natureza essencial da guerra».
Uma nova geração perante velhas perguntas
Para a comandante Vânia Guerreiro, que trabalha diariamente com cadetes entre os 18 e os 24 anos, a forma como os jovens encaram a defesa nacional reflete o tempo em que cresceram.
Durante muitos anos, a guerra parecia distante da realidade europeia. As preocupações dominantes estavam noutros campos — alterações climáticas, desigualdades sociais, direitos humanos.
«Para muitos jovens, a defesa era um tema abstrato», explicou. A proximidade de novos conflitos, no entanto, começou a alterar essa perceção. A guerra voltou aos noticiários e tornou-se parte da conversa pública.
Essa mudança também se reflete na formação militar. Na Escola Naval, explicou a comandante, «os programas estão a ser ajustados para incorporar novas áreas», sobretudo cibersegurança, tecnologias digitais e guerra da informação.
O objetivo é preparar oficiais capazes de atuar num cenário em que os conflitos podem ocorrer simultaneamente em vários domínios: físico, digital e informacional.
O regresso do debate sobre o serviço militar
Outro tema inevitável foi o serviço militar obrigatório, cuja reintrodução voltou a ser discutida em alguns países europeus.
Carlos Mendes Dias defendeu que Portugal deveria, pelo menos, debater seriamente essa possibilidade. Não por nostalgia, sublinhou, mas por necessidade de reflexão sobre o que significa pertencer a uma comunidade política.
Para o coronel, muitos cidadãos reagem hoje a perguntas sobre defesa nacional sem conhecerem plenamente conceitos como nação, pátria ou interesse nacional. Esse desconhecimento, acredita, «enfraquece o debate público».
Defesa como responsabilidade cívica
Vânia Guerreiro prefere colocar o foco noutro ponto: a cultura de responsabilidade. Segundo a comandante, a defesa de um país não depende apenas das Forças Armadas. «Depende também de cidadãos informados e conscientes do papel que podem desempenhar na sociedade».
No caso dos militares, essa escolha implica uma motivação específica.
«Quem escolhe esta carreira tem de sentir que existe uma responsabilidade maior em servir o país», afirmou. Mas a ideia de serviço público, acrescenta, pode manifestar-se de muitas formas.
Construir o futuro
No final do debate, as mensagens dirigidas aos jovens convergiram num ponto essencial. Para Carlos Mendes Dias, o risco das sociedades contemporâneas é limitar-se a gerir problemas herdados. «Durante demasiado tempo deixámos de construir sociedades do futuro e passámos apenas a administrá-las», disse. O desafio, defendeu, é recuperar a ambição de pensar a longo prazo.
Já Vânia Guerreiro optou por uma nota mais pessoal. Ao contrário do discurso frequente de que ‘no passado é que era’, a comandante acredita que cada geração tem as suas próprias competências e formas de olhar para o mundo.
O essencial, disse, é ter «propósito e vontade de bem fazer».
Assim, num mundo que voltou a falar de guerra, talvez seja essa a primeira linha de defesa das sociedades democráticas: cidadãos capazes de compreender o seu tempo e de assumir responsabilidade pelo futuro.



