Crónica de uma desertificação anunciada

Uma das edições de final de agosto do Financial Times considerava o problema da agricultura intensiva em Espanha. O jornal explicava que o sobrecultivo e a excessiva irrigação estão a tornar os solos inférteis. O resultado destas práticas é a desertificação, um processo com consequências irreversíveis. Acrescentava o jornalista que se o deserto evoca por vezes imagens românticas, como dunas douradas, o processo é mais banal: refere-se à degradação de solos, que torna as terras inférteis.

O exposto sugere a necessidade de tratar ambiente e agricultura como duas faces da mesma moeda e geri-las de forma integrada. Revela também a necessidade de, em nome do futuro, interromper hoje mesmo práticas que trazem consequências irreversíveis. Não se trata de ter campos ao abandono nem de ser contra a exploração empresarial dos terrenos, mas sim de desenvolver práticas agrícolas amigas do ambiente. A criação de valor partilhado exige que as organizações operem no âmbito de limites ambientais invioláveis – a mensagem de Rebecca Henderson, de Harvard, no livro Reimagining Capitalism.

O caso para a responsabilidade social e ambiental tem sido defendido numa lógica win-win em que a dimensão ambiental é acompanhada de um business case. Esta solução é insuficiente: a proteção do ambiente natural de danos irreversíveis deve vir antes do business case. Esta lógica obriga depois a pensar outras formas de relação entre os humanos e o ambiente, não necessariamente desenhadas a partir de preocupações dos urbanitas, como está a acontecer com as touradas e a tentativa de proibição das mesmas. O ambiente é demasiado importante para ser tratado com a retórica política de quem nem sequer o conhece.


Por Miguel Pina e Cunha, diretor da revista Líder

 

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