Cuidado com alguns amanhãs que cantam

A adivinhação é, hoje, uma das atividades mentais mais comuns exercidas na arena mediática. Os académicos são convidados a esclarecer os contornos do mundo pós-crise, como se fossem os portadores do oráculo. Muitos gestores e fazedores de opinião são bastante enfáticos sobre o que nos espera – e as certezas são muitas. Já nos esquecemos de que, no início de 2020, quase todas as previsões foram destruídas pela realidade. Agora, não parece haver dúvidas de que um novo normal em breve imperará. É mais um reflexo de que precisamos que nos reduzam a incerteza para nos sentirmos mais seguros.

Embora quase todos queiramos saber o que será o novo normal, não é possível desenhá-lo com precisão. Pode mesmo acontecer que esse novo normal passe rapidamente a velho quando nova anormalidade criar disrupção que nos destruirá, mais uma vez, as certezas. Podemos pensar o futuro – mas convém que estejamos cientes de que o pensamento convicto de hoje não é a realidade de amanhã.  Devemos, pois, ser cautos perante promessas de amanhãs certos e amigáveis. Por exemplo, parece não haver dúvidas sobre os encantos da transformação digital.  John Thornhill escreveu no Financial Times que o sufixo tech (e.g., fintech, marketech, biotech) vai desaparecer do vocabulário: todas as empresas serão tech! Serão mesmo? O que ocorrerá se as plataformas digitais forem corroídas por algo completamente inesperado e impensado? E se o espaço sideral for contaminado por algo que perturba as conexões sem fios? Quem nos garante que a transformação digital não tem potencial pandémico? Não devemos temer a infopandemia?

Mesmo que tal cataclismo não se concretize, devemos ter fé desconfiada e vigilante no novo Deus digital. Há riscos sérios de que essa entidade a que são atribuídas qualidades quase divinas facilite o controlo panótico, gere maior desigualdade, aprofunde a economia de biscates, e origine um mundo em que somos constantemente vigiados e condicionados. Se dúvidas há, leia-se The Age of Surveillance Capitalism, da autoria de Shoshana Zuboff, professora da Harvard Business School. A autora apresenta sobeja evidência de que este capitalismo de vigilância representa “um assalto à autonomia humana” – expressão que usou em entrevista ao jornal The Guardian.

Alega Zuboff que o Big Other (um paralelismo com Big Brother) é uma ameaça à nossa liberdade e à democracia. Persuadidos pela conveniência prometida pelos gigantes tecnológicos, prescindimos de uma parte significativa da nossa privacidade. Os dados sobre os nossos movimentos, decisões, relações e mesmo emoções são hoje um manancial com enorme potencial lucrativo. Quase todos os gadgets “inteligentes” (até mesmo aspiradores domésticos!) são usados para “sacar” dados depois usados com fins comerciais e políticos, influenciando-nos e modificando o nosso comportamento. Somos alvos de experiências cujos resultados são depois utilizados para influenciar as nossas emoções e os nossos comportamentos, sem disso termos consciência.

Nada disto faz sentido? Será esta uma visão apocalítica sem aderência à realidade? Talvez seja. Mas todos sabemos como resultaram as promessas, há anos feitas, de um mundo mais livre, uma democracia mais forte, e um espaço mediático mais equilibrado e menos condicionado pelos poderes vigentes. Hoje, o mundo digital é frequentemente conspurcado pela falsidade das notícias, capturado por poderes perversos e pouco democráticos, e repleto de incivilidades. A vigilância exercida sobre os cidadãos e os trabalhadores é um sucedâneo perverso da captura das potencialidades digitais. Naturalmente, as vantagens potenciais das novas tecnologias são inúmeras – e poucos gostariam de regressar à pré-história digital. Mas o que se requer é que atuemos como cidadãos críticos. E que haja regulação – um desafio de monta perante o poderio lobista dos gigantes tecnológicos.


Por Arménio Rego, LEAD.Lab, Católica Porto Business School

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