Cuidar de quem cuida!

Cuidar significa (na definição da Infopedia): (i) tratar de alguém, garantindo o seu bem-estar, segurança; (ii) garantir a preservação de algo, (iii) ocupar-se de; responsabilizar-se por; (iv) dedicar esforço e tempo (a algo) com determinado objetivo; (v) apressar-se a cumprir determinada tarefa; fazer (algo) com diligência; (vi) prestar atenção a; reparar; (vii) pensar; ponderar; (viii) ter certa opinião; achar; julgar; supor; (xix) ter interesse por.

Não tendo sido eleita a palavra do ano, cuidar é hoje a palavra de ordem, na medida em que temos de tratar dos nossos doentes e dos nossos confinados, garantindo o seu bem-estar e segurança, temos de garantir a preservação das nossas empresas e dedicar esforço e tempo na recuperação da nossa economia, tentando evitar a subida exponencial do desemprego. Temos de cuidar!

E se o sector da Saúde assume particular importância no momento presente, as empresas e os empresários, que têm resistido à crise instalada, assumirão especial importância no futuro próximo.

Com efeito, terminada que está a discussão pública do Plano de Resolução e Resiliência (PRR), teremos de cumprir com diligência a sua implementação, com especial enfoque nos três grandes pilares do plano, Resiliência, Transição Digital e Transição Climática. Temos de cuidar!

Não vou aqui, nesta sede, debruçar-me sobre a distribuição dos valores integrantes do PRR, mas sim sobre os mecanismos previstos para a sua implementação, nomeadamente no que às empresas diz respeito.

Quando penso nas empresas e no PRR, vem-me à memória as imagens televisivas da abertura dos saldos, onde milhares de pessoas aguardam, algumas horas ou mesmo dias antes da abertura das lojas, apinhadas umas às outras, para serem as primeiras a conseguir o último modelo de telemóvel ou outro gadget qualquer.

E quando a loja abre, vemos imagens assustadoras de pessoas a correr desenfreadas em absoluto desrespeito pelo próximo, pouco se importando se está alguém caído ou em dificuldades.

Em Portugal temos as empresas ansiosas, a aguardar as verbas do PRR “a loja” que muito empresário vê como a tábua de salvação para o difícil momento que atravessam.

É, pois, fundamental, para evitar os normais empurrões e atropelamentos, que os critérios de atribuição dos fundos sejam claros e objetivos de modo a evitar situações menos claras, carregadas de subjetividade, que depois podem dar azo a más interpretações!

É, pois, fundamental, que haja organismo intermédio, conhecedor da realidade das empresas, que consiga de forma célere, eliminando os habituais custos de contexto, decidir rapidamente quais os projetos a financiar!

É, pois, fundamental, que haja um organismo intermédio, com capacidade de levantar do chão quem caiu, seja cuidando das feridas para que recupere, seja ajudando a sair do movimento empresarial com dignidade.

É que, tão ou mais importante do que distribuir as verbas do PRR é assegurar a sua correta alocação.

Até à data não são conhecidos, com profundidade, os critérios que determinam quais os investimentos a ser financiados por recurso ao PRR e quais os que virão a ser financiados por recurso a outros instrumentos. O pouco que é conhecido não esclarece esta questão, nem permite vislumbrar qual a prioridade que neles será concedida.

Até à data são conhecidos, com pormenor, os organismos intermédios que avaliarão as candidaturas das empresas.

Se não criarmos estes mecanismos, não conseguiremos cumprir, de forma pensada e ponderada, o nosso dever de cuidar das empresas e passaremos os próximos anos a lamentar a oportunidade perdida, com terrível sacrifício para as gerações vindouras, que pagarão a nossa incapacidade.

Por isso vi com alguma perplexidade o diminuto papel reservado às Associações Empresariais no PRR, que serão, por natureza, as melhores instituições para gerir as necessidades e as capacidades das empresas.

É importante ouvir as Associações Empresarias, de outra forma que não com o recebimento de uma síntese atualizada de um documento essencial para o futuro do País, com 170 páginas, sem calendário e sem detalhe, para pronúncia num prazo 15 dias! Se tal não acontecer, não estaremos a cuidar!


Por Rui Jorge Rego, Presidente da Comissão Executiva da AERLIS – Associação Empresarial da Região de Lisboa

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