Cuidemos das instituições – para que elas cuidem de nós

As boas lideranças fazem as boas instituições e as boas instituições cuidam da saúde das boas lideranças. As boas instituições impõem pesos e contrapesos. Não colocam todos os ovos no mesmo cesto. Os líderes com mais fino sentido institucional impõem limites ao seu próprio poder: aprenderam, com Ulisses, que importa evitar o canto das sereias do poder. Os líderes personalizados fazem o contrário: concentram poder. Esperam que a sociedade fale pela sua voz: “uno duce una voce”, como se dizia a propósito de Mussolini – sobre quem aliás acaba de sair monumental biografia ficcionada. “M – Mussolini, o filho do século”, de Antonio Scurati (Asa).


Por cá alguns sinais são preocupantes. Nomeações para importantes cargos institucionais parecem ser informadas mais pela confiança política do que pelo desejo de independência; a diretora do SEF manteve preocupante silêncio perante as circunstâncias da morte de Ihor Homenyuk; o chefe da polícia pretende ensinar os cidadãos a comportarem-se, colocando-se no papel de grande educador; os megaprocessos da justiça andam mais devagar que um caracol preguiçoso. Isto produz o caldo em que é fácil dizer que “eles” safam-se sempre.

É neste caldo que florescem os populistas. O seu discurso simplista do tipo “nós contra eles” torna-se apelativo porque é preciso, dizem os seus apoiantes, mudar qualquer coisa. Mas há uma melhor alternativa: proteger as instituições que são o garante de uma sociedade decente. Proteger as instituições é um trabalho duro, invisível e com uma dose de desapego pessoal – já que os líderes que estimulam a independência têm de viver com os pensadores independentes cuja existência estimulam. Mas é isso, precisamente, aquilo que se espera de quem lidera com aquilo a que se chama sentido de Estado.


Por Miguel Pina e Cunha, diretor da revista Líder

 

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