Um novo estudo mostra que 63% dos gestores portugueses já veem a geopolítica como um risco muito ou extremamente importante, enquanto 67% atribuem o mesmo peso inteligência artificial.
A inteligência artificial e a geopolítica estão a ganhar peso na agenda de risco dos gestores em Portugal. Segundo o mais recente estudo sobre seguros de responsabilidade civil decorrente de atos de gestão, os chamados D&O – Directors & Officers Liability, da Willis, uma empresa da WTW, realizado em colaboração com a sociedade internacional de advogados Reed Smith LLP, estes dois temas estão a tornar-se centrais para as empresas, num contexto marcado por maior exposição tecnológica, instabilidade internacional e pressão sobre os órgãos de gestão.
Em Portugal, 67% dos participantes identificam a inteligência artificial como um risco muito ou extremamente importante para os gestores. A percentagem fica acima da média global, onde 56% dos inquiridos atribuem esse nível de relevância à IA, mais cinco pontos percentuais do que no ano anterior.
A geopolítica surge igualmente em destaque. De acordo com o estudo, 63% dos gestores portugueses consideram este risco muito importante ou extremamente importante, acima dos 59% registados a nível global. O dado confirma que as empresas estão cada vez mais expostas a fatores externos, desde tensões internacionais a constrangimentos nas cadeias de abastecimento e riscos operacionais provocados por terceiros.
Erros, desinformação e falta de controlo na IA
Entre as principais preocupações relacionadas com a IA, os decisores portugueses destacam os erros e a desinformação gerados por inteligência artificial (63%), a má governação e o uso não controlado das ferramentas de IA (43%) e a não conformidade com aspetos regulatórios e éticos (37%).
A nível global, apenas 55% dos inquiridos consideram que os membros dos seus conselhos de administração têm as competências e conhecimentos necessários para supervisionar eficazmente a implementação desta tecnologia. O dado reforça a pressão sobre os órgãos de gestão para acompanharem a adoção da IA com conhecimento, governação e capacidade de supervisão.
Ciberataques continuam a liderar a lista nacional
Apesar da subida da inteligência artificial e da geopolítica na agenda de risco, os riscos tecnológicos continuam a dominar as preocupações dos gestores portugueses. Os ciberataques são o risco mais referido em Portugal, com 90%, seguidos da perda de dados (83%) e da insolvência ou dificuldades financeiras das organizações (77%).
Entre as principais preocupações dos participantes portugueses surgem ainda os riscos relacionados com concorrência e práticas anticoncorrenciais, litígios com terceiros, processos criminais e fraude por engenharia social, todos referidos por 73% dos inquiridos.
André Paraíso Vicente, Head of FINEX Portugal da Willis, comenta:
Os resultados do estudo mostram que os gestores portugueses estão particularmente atentos aos riscos tecnológicos, com os ciberataques e a perda de dados a liderarem destacadamente as suas preocupações. Este cenário reflete não só a crescente digitalização das organizações, mas também uma maior consciência do impacto financeiro, operacional e reputacional associado a incidentes cibernéticos.
Seguros D&O: confiança existe, mas não é total
A nível mundial, as organizações consideram, de forma geral, que a cobertura dos seus seguros D&O é adequada. Ainda assim, a confiança é maior quanto ao âmbito da cobertura (77%) do que relativamente aos limites financeiros (73%).
Apenas 30% dos participantes afirmam estar totalmente confiantes de que a cobertura D&O da sua organização responde às suas necessidades. Em Portugal, apesar da amostra menor, o estudo assinala níveis de confiança substancialmente mais baixos, num mercado ainda com menor penetração e experiência de litigância inferior à de vários pares europeus.
Entre outras conclusões globais, 62% das organizações indemnizam os seus gestores até ao limite máximo permitido por lei, uma ligeira descida face aos 64% registados no ano anterior.
Resiliência operacional ainda não domina a agenda
Apesar da crescente exposição a riscos operacionais, apenas 34% dos inquiridos consideram a resiliência operacional uma das cinco áreas que exigem maior atenção por parte dos órgãos de gestão.
O aumento da exposição ao risco causado por terceiros ou por constrangimentos nas cadeias de abastecimento é identificado como o principal desafio à resiliência operacional por 39% dos participantes. Estes problemas estão entre as sete principais preocupações das organizações dos setores da saúde, indústria, energia e utilities, transportes e retalho.
O estudo mostra ainda que os riscos de saúde e segurança continuam entre os principais temas para setores como indústria, transportes e energia, com percentagens entre 82% e 89%. Já as alterações climáticas deixaram de integrar o grupo dos sete principais riscos na maioria das regiões.
Também a diversidade, equidade e inclusão perdeu relevância na agenda global de riscos, sendo considerada muito importante ou extremamente importante por 52% dos participantes, face a 59% em 2025.



