Deixem o Tintim em paz

A censura é uma prática inaceitável – seja ela praticada por quem for. Esta parecia uma conquista da democracia mas o poder tem razões que a razão desconhece e as brigadas de melhoramento do mundo andam empoderadas e apostadas em proibir e queimar. Uma das suas últimas ideias consistiu em atirar o Tintim para o Index. Constitui uma curiosa ironia essa de os que mais criticam as inquisições do passado se prestarem ao papel de inquisidores no presente.

Porquê o Tintim? Porque está cheio de ideias erradas e desalinhadas do zeitgeist, porque projeta uma mentalidade colonialista, não é suficientemente ecológico e talvez promova o tabagismo e o excessivo consumo de álcool por via do Capitão Haddock. Vamos com calma… Li o Tintim na infância e não é preciso ser um adulto politizado para perceber que há coisas erradas e antiquadas na obra. Recordo-me de ter achado uma cena de Tintim no Congo de particular mau gosto: um emboscado Tintim dispara sobre uma gazela, antílope ou outro animal de caça grossa de que já não me recordo, sem nunca acertar no animal. O tiro repete-se várias vezes até o nosso personagem perceber que tinha abatido vários animais. Qualquer criança como aquela que eu era percebe o que há de errado numa cena destas. E há mais, naturalmente.

Mas os livros de Hergé ajudaram-me a viajar até ao Peru, à China, à América Latina; a apreciar o valor da amizade; o respeito pela excentricidade; a importância de procurar a verdade. E a desconfiar de coronéis de pacotilha e de vendedores de banha da cobra. Não tratemos a crianças como idiotas nem sejamos nós próprios os censores que criticam a censura pela manhã e vão buscar o lápis azul pelo início da tarde. Tudo isto em nome do Bem, sempre em nome do Bem.

P.S. Lê-se e não se acredita que no Canadá foram queimados cerca de 5 mil livros por causa dos seus conteúdos. No Canadá! Ao que chegámos…

 


Por Miguel Pina e Cunha, diretor da revista Líder

 

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