Destinos literários para visitar no “virar de página” da Pandemia

A ideia de que os livros dão-nos mundo nunca fez tanto sentido quando há mais de um ano é praticamente impossível a hipótese de viajar e conhecer novos lugares. Viajar através dos livros é uma excelente opção, melhor ainda se através disso se for criando um mapa de próximos destinos com base na literatura.

A leitura é uma ato criativo, e ter a possibilidade de estar no local que serviu de inspiração ao autor realça ainda mais o lugar e a história. É como se a ficção se tornasse real eternizando a história na nossa memória.

O gosto por visitar lugares literários, levou o editor da Penguin, Henry Eliot, a criar um itinerário diferente, partilhado no jornal The Guardian. Aproveite para se inspirar e boa viagem!

Lyme Regis

A cidade costeira a oeste de Dorset, é famosa pelo seu antigo paredão do porto – o Cobb. Um conjunto de degraus no Cobb relembram o momento dramático de Persuasão, de Jane Austen, quando Louisa Musgrove corre na direção dos degraus e é empurrada pelo capitão Wentworth.

Londres

A cidade onde Henry Eliot mora é especialmente rica em locais que serviram de inspiração à ficção: a encosta de Primrose Hill foi o lugar de onde os cães uivaram a pedir ajudar (o twilight bark) no livro de Dodie Smith 101 Dálmatas e onde os marcianos lutaram com cães em A Guerra dos Mundos de HG Wells; no Napoleão de Notting Hill de GK Chesterton, o assassinato dá-se ao lado do café de Bridget Jones a personagem do diário, escrito por Helen Fielding; no Agente Secreto de Joseph Conrad, a bomba explode no Parque de Greenwich e o lugar preferido do editor é a Casa do Senado em Bloomsbury, que serviu de Ministério da Informação em 1984 de George Orwell e de fortaleza contra plantas carnívoras no romance de ficção científica de John Wyndham, O dia das trífides.

Paris, Veneza e São Petersburgo

A visão do editor sobre estas três cidades foi profundamente alterada depois de ler Em Busca do Tempo Perdido, de Proust, As Cidades Invisíveis de Italo Calvino, e Crime e Castigo, de Dostoiévski – o mundo dos livros tornou-se mais vívido do que a sua memória. Na sua mente, as ruas de Paris agora fervilham de carruagens e salões cintilantes; Veneza é um pergaminho de mapas e fábulas; e São Petersburgo transpira de uma autorrecriminação claustrofóbica.

Praga e Califórnia

A leitura de “O Castelo” de Kafka e A Leste do Paraíso de Steinbeck antes de visitar Praga e o Vale Salinas, na Califórnia, vieram colorir o seu imaginário. Praga era misteriosa e impenetrável, com ruas e cemitérios amontoados ao redor do castelo na colina, enquanto o Vale Salinas era épico e aberto, uma grande tela na qual se desenrolavam narrativas arquetípicas.

Grécia

Durante uma semana de férias a velejar pela Grécia, o editor leu o As Argonáuticas, um poema épico em grego antigo de Apolónio de Rodes criado no século III a.C.. Estava previsto ser uma viagem pelos Dardanelos, ao longo da costa do Mar Negro, mas em vez disso foi uma semana a saltar de ilha em ilha, enquanto lia sobre os heróis gregos, harpias, monstros e exércitos saltando de dentes de dragão, exatamente como Apolónio teria imaginado.

Escócia – Ilha de Jura

Após a viagem à Grécia, Henry Eliot visitou a Ilha de Jura, um lugar mágico, repleto de lendas e mitos, três vezes maior do que Manhattan, mas com apenas 200 habitantes. Numa caminhada pela Ilha, visitou Barnhill, a casa remota no norte da ilha, onde George Orwell morou entre 1946 e 1949. A casa está praticamente inalterada e ainda há uma máquina de escrever no quarto onde Orwell tossia na cama, morrendo de tuberculose enquanto completava o texto datilografado 1984 (publicado em junho de 1949). Nessa visita, o editor releu a obra-prima distópica – o romance passa-se numa versão urbana e suja de Londres, um mundo longe da grandeza natural do largo arquipélago das Hébridas, composto pelas rochas mais antigas das Ilhas Britânicas.


Buenos Aires

No início de 2018, Henry Eliot viveu a experiência mais memorável de conhecer um local literário, quando visitou Buenos Aires pelo olhar de Jorge Luís Borges, o poeta cego e bibliotecário. Viu o bloco de apartamentos na Avenida Maipú onde o autor morava com sua mãe idosa; tomou café no Café La Biela onde se encontrava com o amigo Adolfo Bioy Casares (há estátuas de Borges e Bioy sentadas numa mesa em La Biel). Visitou a antiga Biblioteca Nacional, onde Borges trabalhava e onde as salas octogonais parecem ter inspirado o conto A Biblioteca de Babel, em Ficções. Segundo o editor, a maior emoção foi estar na Avenida Juan de Garay, no bairro de Constitucíon, que serviu de inspiração no livro de contos “O Aleph”. No exato local onde Borges havia imaginado toda a trama, Henry Eliot leu algumas das suas passagens mais estranhas, brilhantes e caleidoscópicas, o que teve sobre si um efeito vertiginoso e fascinante.

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