Devem os líderes ser francos?

A franqueza é uma demonstração de transparência nas relações. Um líder franco, expressando abertamente o que pensa e o que lhe vai na alma, cria confiança na relação com os liderados. O seu exemplo encoraja os liderados a serem francos com ele. Certo? Não necessariamente. Carlos Ghosn, ex-líder da Nissan, entretanto caído em desgraça, era reconhecido pelas demonstrações de “transparência”  e “franqueza”. Mas foi também descrito como alguém cujas opiniões ninguém se atrevia a confrontar. Alguns executivos e empregados foram avisados de que seriam removidos se lhe expressassem opiniões contrárias. Ghosn era de tal modo franco com os outros que minava a franqueza dos outros para com ele.

O caso ilustra bem como é necessário ser cauto quando se apregoa a virtude da franqueza dos líderes. E chama a atenção para dois pontos essenciais. Primeiro: a liderança é um processo relacional, construído por líderes e liderados. Segundo: esse processo é afetado pelos desníveis de poder e recursos. Expressar franqueza na relação com o chefe não equivale a expressá-la na relação com subordinados, pares ou amigos. Quando um líder expressa franqueza, não pode simplesmente esperar que os liderados, naturalmente, sejam francos com ele.

Alguns líderes têm partilhado comigo a frustração e a irritação: “Olhe, é assim que trabalho: digo sempre o que penso. Não compreendo porque a minha equipa não atua do mesmo modo para comigo. Falta-lhes coragem”. Não costumo descartar a possibilidade de o problema radicar na escassa coragem. Mas observo, muito frequentemente, que a raiz do mal é outra. Alguns destes líderes são francamente rudes, descuram o impacto das suas ações e palavras sobre os outros, reagem com franca irritação e transparentes (mas desrespeitadores) comentários quando as pessoas expressam opiniões contrárias às suas.  Esses líderes pretendem encorajar a franqueza dos outros – mas matam-na com a sua própria franqueza. Esquecem-se de que as suas francas irritações manifestadas em reuniões anteriores com a equipa deixam marcas para a reunião seguinte – mesmo que, nesta, sejam genuinamente calmos e respeitadores. Com o seu comportamento anteriormente expresso, estes líderes criam um buraco negro que absorve as suas mais genuínas demonstrações de respeito nos encontros relacionais posteriores.

Um executivo, participante num evento de formação, exemplificou o fenómeno extremo: “O meu chefe está sempre a encorajar-nos para que lhe digamos francamente o que pensamos – mas é bem claro que isso só é válido quando pensamos como ele ou estamos de acordo com as suas opiniões”.  A maior parte dos casos problemáticos não é tão extrema. Muitos líderes desejam genuinamente estimular a franqueza dos liderados. E expressam esse desejo com palavras. Mas não se dão conta de que as suas ações e reações comunicam outra mensagem. Ignoram que o que comunicam não é o que dizem – é, antes, o que os liderados interpretam.

A franqueza de um líder, quando acompanhada de expressões de humildade e respeito, estimula a franqueza dos liderados. Todavia, quando é fruto do narcisismo do líder e do seu desejo de impor ideias e valores, a sua franqueza destrói a dos liderados. Num estudo que recentemente levámos a cabo, envolvendo 114 líderes (descritos por 516 liderados), foi isso mesmo que constatámos. Quando o líder é franco, mas também humilde e respeitador, os liderados expressam franqueza ao líder. Todavia, o líder franco e transparente, se for desprovido de humildade e prudência, veicula desrespeito pelos liderados – e estes “não abrem o bico”.

A franqueza pode ser uma grande qualidade. Mas deve ser acompanhada de prudência, sensatez, humildade e respeito. A postura “sou assim mesmo, é assim que eu trabalho, e eles têm que me aceitar como sou” não é a melhor forma de  criar o espaço relacional que permite a franqueza mútua. Eis a lição: seja autêntico, mas não ao ponto de matar a autenticidade dos outros para consigo. Caso contrário, será autêntico consigo próprio – mas os liderados não serão autênticos para consigo. Portanto, caro líder, parafraseando António Variações: “Mude de vida, se não vive satisfeito. Mude de vida, está sempre a tempo de mudar!”.


Por Arménio Rego, LEAD.Lab, Católica Porto Business School

 

 

Artigos Relacionados:

Centro de preferências de privacidade

Cookies necessários

Publicamos cookies neste site para analisar o tráfego, memorizar as suas preferências, otimizar a sua experiência e apresentar anúncios.

PHPSESSID, __gads, _ga, _gid, gdpr[allowed_cookies], gdpr[consent_types], wordpress_test_cookie, woocommerce_cart_hash, woocommerce_items_in_cart, _gat_gtag_UA_114875312_1
IDE
__cfduid