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Do Damaiense a Nova Iorque: Tomás Tengarrinha e a evolução do futebol feminino

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8 Abril, 2026 | 10 minutos de leitura

Há quem chegue ao futebol por vocação precoce e quem acabe por regressar a ele como quem volta a casa. Tomás Tengarrinha pertence um pouco às duas categorias. Cresceu rodeado pelo jogo. O pai, antigo jogador que passou por clubes como Benfica, Belenenses, Nacional ou Beira-Mar, manteve uma vida inteira ligada aos relvados. A mãe trabalhou mais de três décadas dentro do universo do futebol. E o primo, Bernardo Tengarrinha, foi capitão do Boavista na primeira liga durante anos, antes de um linfoma lhe roubar a vida. 

O futebol estava ali, sempre por perto, mas o percurso de Tomás não seguiu uma linha previsível. Não foi um prodígio da bola, não fez carreira profissional como jogador e durante anos procurou outros caminhos — trabalhou, foi manequim, experimentou diferentes realidades enquanto atravessava aquela fase de indefinição que muitos jovens conhecem bem.

O regresso ao futebol aconteceu quase por acaso, ou talvez por destino. Uma sugestão simples acabou por empurrá-lo para o curso de treinador. E a partir daí o caminho começou a ganhar forma. Hoje, aos 34 anos e ainda no início da carreira, já passou por balneários exigentes, trabalhou com jovens talentos e encontrou no futebol feminino um espaço onde acredita poder crescer. Foi campeão da segunda liga feminina pelo Damaiense em 2021/22 e há um ano aceitou um desafio nos Estados Unidos, como treinador principal da equipa do Brooklyn FC.

Agora, à Líder,  fala da liderança com uma ideia simples: um treinador não se mede apenas pelas vitórias, mas pela forma como acompanha o grupo nos momentos difíceis. Hoje em dia, diz, «a verdade é a melhor arma que um líder tem.»

O futebol sempre esteve muito presente na tua vida. O que aprendeste em casa sobre o jogo, antes mesmo de pensares em ser treinador?

Cresci sempre com o futebol muito presente. Nunca fui um grande jogador, mas tive a sorte de ter duas referências muito próximas: o meu pai e o meu primo. Vivi muito nesse ambiente, respirava futebol todos os dias. Até a minha mãe esteve mais de 30 anos ligada ao futebol, portanto, era impossível desligar-me do jogo, mesmo que ainda não tivesse definido que caminho seguir.

Mais do que aprender a chutar uma bola ou a fazer um passe perfeito, aprendi a lidar com o futebol. A ouvir histórias, a perceber desafios através dos olhos dos outros, a analisar decisões e resultados sem nunca estar em campo. Cada relato do meu pai ou do meu primo era como uma aula prática, e isso acabou por me dar muitas ferramentas que ainda hoje utilizo no meu trabalho como treinador.

Crescer nesse ambiente cria mais pressão ou mais paixão?

No meu caso criou mais pressão. A paixão vinha naturalmente, porque fazia parte do meu dia-a-dia, mas a pressão surgiu quando pensei em ser jogador. Ter o meu pai e o meu primo como referências tão altas fez-me ver a realidade de forma crua. Mesmo que eu pudesse ter feito carreira em clubes menores, percebi cedo que não tinha maturidade para me entregar a isso. Então desisti rapidamente.

A pressão não desapareceu, mas transformou-se em respeito pelo jogo e em compreensão de que havia outras formas de estar no futebol sem estar em campo. Acredito que essa pressão, bem canalizada, acabou por me preparar para ser treinador e lidar com situações complexas com calma e racionalidade.

O teu pai jogou em vários clubes importantes. Isso marcou-te?

Sim, claro. O meu pai veio de África para jogar no Benfica, depois passou pelo Belenenses, Beira-Mar, Nacional e outros clubes. Crescer com essas histórias, ver o esforço e a dedicação que ele teve, marcou-me profundamente. Não se tratava apenas de resultados ou estatísticas; era o compromisso, a disciplina e a forma como ele encarava vitórias e derrotas que ficaram comigo.

E a história do teu primo, que chegou a capitão do Boavista?

Eu acompanhei muito de perto a carreira dele, especialmente nos tempos em que esteve no Estrela da Amadora, emprestado pelo Porto. Mesmo quando já não estava tão próximo fisicamente, continuava a seguir com orgulho cada passo que dava. Isso ensinou-me que talento sozinho não chega; é preciso trabalho, resiliência e capacidade de enfrentar obstáculos que nem sempre estão sob nosso controlo.

Ver o meu primo tornar-se capitão do Boavista foi um momento de orgulho enorme, não apenas pelo que ele alcançou, mas pelo que significava para ele: o reconhecimento do esforço, da liderança e da dedicação.

Em algum momento pensaste seguir outro caminho fora do futebol?

Sim. Durante muito tempo o futebol não foi a minha profissão. Passei pelo que muitos jovens portugueses passam: aquela indecisão sobre o que fazer da vida. Trabalhei como manequim durante alguns anos e tive outros empregos, mas nada disso me dava estabilidade financeira ou realização pessoal.

Curiosamente, foi uma namorada da altura que me lançou a ideia: «Falaste tanto de futebol, porque não tentas mesmo ser treinador?» Aquilo ficou-me na cabeça, comecei a tirar cursos e licenças, e finalmente senti que estava a seguir um caminho que unia paixão e propósito. E isso aplica-se a homens ou mulheres: se tens conhecimento, integridade e consistência, as pessoas seguem-te naturalmente.

Começaste a liderar equipas muito jovem. Como se ganha autoridade num balneário quando se tem praticamente a idade de alguns jogadores?

Quando comecei a tirar o curso tive a sorte de fazer estágio no Sporting, no futebol masculino. Estive no Sporting B e o meu tutor de estágio era o Jorge Jesus. Foi uma experiência incrível porque eu cheguei lá a achar que sabia algumas coisas e rapidamente percebi que não sabia nada.

Tive contacto com jogadores que depois se tornaram grandes nomes, como o Rafael Leão, e isso deu-me uma bagagem muito grande logo no início. Mais tarde, quando comecei a trabalhar com equipas séniores, tinha 26 ou 27 anos e lidava com jogadores de 30 que já tinham sido profissionais.

A autoridade ganha-se quando eles percebem que sabes do que estás a falar. Se aquilo que dizes faz sentido, se é coerente, eles reconhecem isso.

E no futebol feminino a liderança é diferente?

Sim. No feminino, muitas jogadoras não tiveram a mesma formação estruturada que os homens tiveram durante anos. Por isso, para além de mostrar competência, é preciso sensibilidade emocional, explicar decisões, criar confiança e levar as pessoas contigo. É um trabalho relacional muito mais intenso, onde a empatia e a capacidade de comunicar fazem toda a diferença.

Hoje fala-se muito de liderança no desporto. Um treinador deve ser estratega ou gestor de pessoas?

Depende do contexto. Há cenários de alto rendimento onde o foco é gerir egos e manter o equilíbrio do grupo, porque há muitas variáveis e expectativas elevadas. Noutros, onde há menos recursos, a estratégia e a tática tornam-se fundamentais para criar vantagem competitiva.

Um grande treinador distingue-se pela capacidade de ler o contexto e adaptar-se. Quem usa sempre a mesma receita hoje corre o risco de falhar. A liderança é também flexibilidade, ajuste e sensibilidade às necessidades da equipa.

O futebol feminino tem crescido muito nos últimos anos. O que mais mudou desde que começaste?

Quando comecei já se percebia que estávamos numa curva ascendente. Foi também por isso que quis entrar no futebol feminino.

Houve um investimento muito grande da Federação Portuguesa de Futebol, que deu visibilidade e condições para que as meninas começassem a jogar. Depois vieram mudanças estruturais, como a obrigatoriedade de clubes com equipas masculinas nas competições europeias terem futebol feminino. Isso trouxe mais investimento, melhores salários e mais profissionalismo.

Hoje olhamos para a Liga BPI e vemos clubes como Rio Ave ou Vitória de Guimarães, e até o próprio FC Porto a aproximar-se. Isso mostra bem como a modalidade cresceu. O maior impacto tem sido a profissionalização: jogadoras e treinadores pagos de forma justa, melhores condições, maior valorização do trabalho. Isso não só eleva o nível técnico como atrai novos talentos, tornando a competição mais forte e sustentável.

O que é que o futebol feminino ainda pode ensinar ao masculino?

Eu acho que o futebol feminino precisa muito do masculino, mas também há coisas que o masculino pode retirar do feminino.

Há ainda uma certa ingenuidade positiva no futebol feminino, no sentido de se jogar muito pelo amor ao jogo e pelo desafio desportivo, mais do que pelo dinheiro.

Mas é fundamental respeitar as diferenças. O masculino e o feminino são realidades distintas, com desafios e dinâmicas próprias. Comparações diretas são um erro; cada estilo ou realidade deve ser apreciada pelo que é.

Aceitaste um desafio nos Estados Unidos. O que te atraiu?

Os Estados Unidos são a meca do futebol feminino, um país à frente em desenvolvimento e condições. Estar em Nova Iorque também foi um fator, mas o principal foi a oportunidade de experimentar o futebol num contexto internacional, aprender novas metodologias e crescer profissionalmente. É um desafio que amplia horizontes e ensina a lidar com realidades diferentes.

Quando uma equipa atravessa um momento difícil, o que deve fazer um líder?

Eu acredito que um treinador deve estar sempre próximo de quem lhe pode dar pontos: as jogadoras.

Nunca vou ser o treinador que, para se proteger, se encosta à direção ou a quem manda. Nos momentos difíceis procuro explicar o que correu mal, assumir responsabilidades quando é necessário e falar abertamente.

Hoje em dia a verdade é a melhor arma para lidar com momentos negativos. Um líder reconhece-se muitas vezes quando se fragiliza, não quando tenta mostrar que tem sempre razão.

O futebol consome muito tempo. Como tentas equilibrar isso com a vida pessoal?

É muito difícil. A vida de treinador consome-nos bastante. Não é um trabalho das nove às cinco.

Estamos sempre a pensar no treino seguinte, no jogo, numa conversa que temos de ter com uma jogadora. O futebol acaba muitas vezes por invadir a vida pessoal. Eu ainda não encontrei esse equilíbrio. Sou uma pessoa que trabalha muito e às vezes sinto que preciso mais da vida pessoal para compensar.

No futebol fala-se muito de ganhar ou perder. Para ti, o que é realmente vencer?

Ganhar continua a ser fundamental. No futebol os contratos e o sucesso estão muito ligados às vitórias. Mas o contexto também conta muito. Na realidade onde estou agora há equipas com investimentos muito superiores ao nosso. Há clubes que pagam centenas de milhares de dólares por jogadoras e nós não temos essa realidade.

Por isso, quando jogamos contra uma dessas equipas e perdemos 2-0 mas conseguimos ser competitivos, lutar até ao fim e criar oportunidades, isso para mim também pode ser um sucesso. O sucesso tem sempre de ser analisado dentro da realidade onde estás e com os recursos que tens.

Se daqui a dez anos alguém olhar para o teu percurso, como gostarias que descrevesse o treinador Tomás Tengarrinha?

Naturalmente gostava de ganhar coisas. Já tive a sorte de ser campeão da segunda divisão pelo Damaiense e sei o que é essa sensação.

Mas mais do que os títulos, gostava que o futebol fosse algo que me fez feliz. Que as relações que criei com as jogadoras e as experiências que vivi tenham valido a pena. No fundo, daqui a dez anos gostava de olhar para trás e sentir que este caminho compensou. A vida é curta. Por isso tento viver o futebol o melhor possível enquanto estiver aqui.

Marcelo M. Teixeira,
Jornalista

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