Dois políticos que merecem elogios

Uma das características comuns a alguns políticos e treinadores de futebol é uma propensão para verem coisas que o resto das pessoas não descortina. Como adepto lembro-me de o treinador do meu clube justificar uma derrota com o vento que teria vitimado a equipa. Já eu lembro-me de ter visto um jogo miserável dessa mesma equipa. Com os políticos parece passar-se a mesma coisa: veem realidades alternativas que escapam aos outros. No processo procedem àquilo que Clara Ferreira Alves caracterizava como a estupidificação das audiências. Por remarem contra esta corrente merecem elogio dois políticos que esta última semana viram aquilo que o comum mortal vê.

Por cá o Secretário de Estado do Desenvolvimento Regional, Carlos Miguel, vê na teia burocrática do Estado uma forma de emperrar, travar e chatear. Não me parece que esta visão seja discutível ou sequer fresca, mas o facto de um governante dizer a verdade de uma forma tão frontal é certamente merecedor de elogios. Um grande bem-haja, senhor Secretário de Estado e muita força para mudar este estado de coisas.

Outro grande exemplo vem da Suécia e da sua ministra das Finanças. A governante afirmou achar fascinante que os portugueses aceitem tão pacificamente pagar impostos mais elevados que os pensionistas suecos que cá declarem ser residentes não habituais, usufruindo dos serviços pagos pelos indígenas. Trata-se de mais uma das inconsistências europeias: os mesmos responsáveis que se queixam do aproveitamento fiscal dos holandeses promovem o mesmo tipo de políticas face aos suecos. Este tipo de inconsistências é problemático e é por isso que importa lutar por uma Europa mais justa e não por uma Europa dos oportunismos. Podendo ser causa própria, a causa de Magdalena Andersson é também uma causa justa. Obrigado.


Por Miguel Pina e Cunha, diretor da revista Líder

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