Duvido, logo existo – um elogio à dúvida e à inquietação permanente

Se o mundo mudou e se reconhecemos que está em constante mudança porque continuamos a querer voltar ao “normal”? Ou a um “novo normal”? E o que significa “normal”? Imagino que tenham muitas respostas. Eu tenho dúvidas. Constantes. Reconhecermos as nossas dúvidas será um sinal de curiosidade, disponibilidade mental para aprender, desaprender e reaprender ou de pura fraqueza? O que diriam os líderes da nossa praça? Podemos julgar e assumir alguma posição ou podemos perguntar-lhes.

Pensemos sobre como pensamos o trabalho. Fazer o elogio do teletrabalho ou da volta ao escritório, da semana de 4 dias de trabalho, de um modelo híbrido, da inovação ou da tradição, numa perspetiva polarizada, parece ser demasiado linear para um mundo tão complexo e hiperconectado como o atual. O que é certo ou errado? Sem certezas, parece que entre o certo e o errado podem existir nuances, constrangimentos e paradoxos. E muitas possibilidades.

A dúvida não é a ausência de conhecimento, mas antes um estado de inquietação permanente. Exige flexibilidade mental, um pensamento crítico, divergente e fluído. Aceitar que não sabemos tudo, desafiando o efeito Dunning-Kruger (quanto menos uma pessoa sabe, mais ela acha que sabe) e o popular “achismo”. Adam Grant, no seu recente livro Think Again, lança ao leitor o desafio deste questionar as suas próprias opiniões e apresenta um conceito interessante, o de “humildade confiante”. Dos “treinadores de bancada” (com excesso de confiança e baixo domínio de conhecimento / competências sobre um tema) até ao extremo oposto, o do famoso síndroma do impostor (com complexos de inferioridade nos quais as competências existentes não são acompanhadas pela devida confiança do próprio no próprio), como e onde encontrar o espaço no qual nos possamos sentir confortáveis com o que sabemos e com o que não sabemos? Como saber gerir as nossas próprias dúvidas? Será que é possível, sequer? Duvido, logo penso. E aprendo com isso. A dúvida persistente pode ser trabalhada, quando nos tornamos melhores aprendizes e estamos disponíveis para aprender com os outros – melhorando a qualidade das nossas interações. Quando temos uma mente de principiante e estamos mais atentos ao que nos rodeia. Não simplificamos demasiado nem complicamos em excesso, observamos com atenção, questionamos, analisamos, procuramos outras visões. Formulamos a nossa visão, sabendo que talvez a possamos ver ainda com outras lentes.

Viver com a confiança e a certeza de que não sabemos tudo e que podem sempre existir outros ângulos que não estão a ser considerados na nossa análise. Porque pensamos como pensamos? O que nos conduziu a essas conclusões? Promovendo conversas que não sejam “batalhas de palavras”, “guerras de argumentos e contra-argumentos”. Em modo tertúlia, em comunicações construtivas, que nos permitam desfrutar e aprender com os outros, em jeito food for thoughts.

Alguns dos pensamentos clássicos que podemos encontrar são: “isso nunca vai funcionar (aqui)”, “isso não é o que a minha experiência mostra”, “isso é muito complicado, não percamos tempo” e “sempre fizemos assim”. É tempo de nos libertarmos da chamada “maldição do conhecimento”, que aprisiona o nosso pensamento e que torna rígida a nossa mentalidade. É tempo de apreciar a complexidade e ousar pensar e repensar, fazer diferente, “abandonar o normal”, o business as usual – para se obterem resultados mais ajustados ao enquadramento e necessidades atuais. Desenvolvermos a capacidade de pensamento das pessoas – enquanto alunos, trabalhadores e cidadãos – para não estarmos a criar meros recetores de informação mas sim agentes com capacidade de pensar de forma crítica.

Será que conseguiremos pensar como cientistas, nas nossas organizações e na Sociedade, experienciando (testando/validando/refutando) e aprendendo constantemente, vivendo com as nossas descobertas e o (des)conhecimento que vamos adquirindo e questionando? É uma hipótese. Mas tenho dúvidas.


Por Rita Oliveira Pelica, Board member Portugal Agora

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