E agora, em que líderes podemos confiar?

“Levo o meu trabalho muito a sério. Não arranjo desculpas. Se falho, falho. Se algo corre mal e não funciona, é por minha causa. Vejo o número de mortes todos os dias e considero-o uma questão pessoal.” Andrew Cuomo, governador de Nova Iorque

Nesta época de media sociais e de fake news, eis a questão: em que líderes podemos confiar se é que ainda podemos confiar em alguns? Na verdade, a relação entre os líderes e a verdade sempre foi complexa[1]. Os líderes que mais suscitam a nossa admiração são por vezes aqueles que menos se preocupam com a verdade, não necessariamente porque são mentirosos, mas porque querem construir a sua verdade. O famoso campo de distorção da realidade de Steve Jobs constitui um bom exemplo daquilo de que falamos. O tão admirado Elon Musk não se detém perante os factos que se atravessam na sua visão. E assim sucessivamente…

Em que líderes poderemos então confiar? Basicamente naqueles que se ao longo do tempo se revelaram confiáveis e que não passam a vida a provar a sua infalibilidade. Jacinda Ardern, da Nova Zelândia, tem parecido confiável. Angela Merkel pediu aos alemães para acreditarem na informação que o Governo lhes dá e não naquilo que encontram nas redes sociais. O seu pedido é credível? Claro que sim. E se Trump pedisse o mesmo?


Em quem podemos então confiar? Nos líderes que não passam a vida a provar as maravilhas da sua atuação e do sistema em que lideram. Ler Meia Noite em Chernobyl, de Adam Higginbotham (Desassossego), é muito ilustrativo: pode-se enganar muita gente durante muito tempo, mas não toda a gente todo o tempo. A história de Chernobyl é a história de um Governo que torce os factos para os ajustar a uma narrativa ideológica pré-existente. Mais cedo ou mais tarde os factos falarão a verdade. E recorde-se que ao tempo ainda não havia social media.

Em que líderes poderemos então confiar? Naqueles que continuam a valorizar a verdade mais que o resultado a curto prazo. Naqueles que não trocaram a lógica da verdade pela da treta, o famoso bullshit de Harry Frankfurt. Sempre houve charlatães, megalómanos, vendedores da banha da cobra, mitómanos, Don Juans e outros que tais. Procuremos conhecê-los e evitá-los. Um ponto de partida: quanto mais prometerem, mais é de desconfiar. Se sugerirem a sua condição messiânica, aí é mesmo de fugir.

[1] Vide Spoelstra, S. (2020). The truths and falsehoods of post-truth leaders. Leadership, 1742715020937886.


Por Miguel Pina e Cunha, diretor da revista Líder

[artigo publicado na edição de Outubro na revista Líder]

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