E Agora…?

Governos são alegadamente eleitos manipulando informação nas redes sociais. Personas são criadas para representar o “eu” no mundo digital. Sistemas conhecem a nossa localização, os nossos hábitos e preferências. Numa altura em que o digital é central nos negócios e na sociedade, levanta-se a questão da confiança.

A tecnologia ajuda a criar confiança? A pandemia que vivemos tem sido muito comparada à gripe espanhola. Isso faz-nos viajar no tempo e imaginar um cenário de pandemia e confinamento sem tecnologia. Hoje acompanhamos os indicadores de evolução da pandemia, conhecemos em tempo real o seu desenvolvimento no mundo, tivemos os nossos filhos a assistirem às aulas a partir de casa, foi possível mantermo-nos em contacto com pessoas de risco.

Hoje foi possível, em muitas situações, manter os negócios em funcionamento. A tecnologia permitiu criar contextos de trabalho remoto e manter equipas conectadas. Através de comunicação regular, foi transmitida confiança a quem estava a trabalhar em casa, distante. Preocupações naturais como “vou manter o meu posto de trabalho?”, “a empresa está a superar a crise?”, “que medidas de segurança vão ser adotadas pela empresa?”. Nem sempre as notícias são as que queremos ouvir, mas saber que estamos a ter acesso permanente à verdade transmite a confiança necessária para ultrapassar os obstáculos.

Por outro lado, neste contexto, também surgem naturalmente questões à liderança, igualmente pertinentes, como por exemplo: “as pessoas estão a realizar trabalho em casa?”. A tecnologia pode contribuir com mecanismos de “controlo”, para saber quem está conectado, quanto tempo, a que horas. Pergunto-me, no entanto, se quando uma pessoa está sentada no local de trabalho a olhar para o ecrã, temos a confiança de que está a “trabalhar”. A confiança cria-se com consistência de entrega de resultados, com diálogos transparentes e verdadeiros, com alinhamento de objetivos e visões. Não será mais produtivo utilizar a tecnologia para ligar lideranças e equipas? A tecnologia oferece-nos potencialidades enormes nos negócios, na saúde, na educação e no nosso bem-estar em geral. Mas os valores têm de existir na génese. Têm de ser demonstrados com ações, cultivados, incentivados. E esta é uma corrida de fundo, nada imediata.

A verdade cria confiança, a confiança cria compromisso e reputação. Pessoas motivadas e comprometidas são altamente produtivas e sãs, para os negócios e para a sociedade. A tecnologia dá escala e velocidade, o que se torna realmente empolgante quando as sementes são boas mas muito perigoso quando a base é danosa. Nunca os valores foram tão importantes para as pessoas, para as marcas ou para a sociedade. A consciência social e a ética das lideranças serão determinantes no propósito que o digital vai servir.


Por Carmo Palma, Managing Director na Axians Portugal

 

 

 

[Este artigo foi publicado na íntegra na revista Líder, na edição de Outubro, atualmente nas bancas]

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