E de repente deixamos de precisar das pessoas?

Em 2010 estimou-se que a quantidade de informação gerada duplicou anualmente, existem mais idosos no mundo que no século anterior, mais millennials entraram pelas portas das empresas como nunca (apesar deste ainda ser o tempo da geração X e Y) e que a tecnologia invadiu a nossa vida!

Cada vez mais, as organizações são organizações que aprendem (Peter Senge). São verdadeiras comunidades do conhecimento que utilizam a tecnologia como plataforma e meio, não como fim.

A Pandemia do COVID gerou e dinamizou estas redes de conhecimento social, incrementou a utilização do WhatsApp e da tecnologia digital, das plataformas online que reúnem pessoas em torno de um interesse comum, por norma social e de troca de conhecimentos e experiências sociais. Diferenciou-as claramente das redes sociais corporativas que reúnem os profissionais de uma organização numa plataforma restrita.

Em alguns casos as empresas reúnem na mesma plataforma clientes internos, externos, fornecedores e parceiros criando uma rede colaborativa abrangente, que trabalha em conjunto as soluções da operação e processos de inovação. Soluções de crowdsourcing que têm inúmeras vantagens pois estas plataformas de conhecimento integradoras de personalidades permitem:

– Em primeiro lugar, Inovação: Integrar colaboradores, fornecedores e clientes num mesmo ambiente e buscar feedback, envolver o cliente nas decisões e, principalmente, incentivar a inovação em todas as esferas.

– Em segundo lugar, permitem Colaboração: Diversas empresas já estão a procurar alternativas ao e-mail. Disponibilizar o conhecimento crítico de sua empresa numa rede social corporativa é a melhor forma de incentivar a colaboração entre os seus funcionários.

– Em terceiro lugar, a Disponibilidade:  Permite que as informações estejam disponíveis em tempo real a todos os envolvidos, sem a dependência dos e-mails.

– Em quarto, CRM 4.0: Trazer o cliente, seja ele interno ou externo, para a sua rede social corporativa é torná-lo mais fiel ao seu propósito e produtos, além de possibilitar a interação com ele, ouvir a sua opinião, e criar novos produtos que atendam às suas reais necessidades.

– Por último, trabalhar de forma remota num momento de Pandemia: Eliminar os “ângulos mortos” profissionais e permitir que continuemos a trabalhar de forma humana com um toque digital.

No entanto, mesmo no século XXI, existem muitos problemas e percalços que podem tornar mais lento este processo integrador, e a maior parte deles são culturais e alguns mesmo, geracionais, tais como:

– Perda de Cultura de empresa e desvalorização da humanidade na gestão;

– Diminuição de Elos de confiança;

– Risco de não existir quem decida (accountability dispersa) e procrastinar a decisão;

– Tecnologia como limitador de eficiência (curva de aprendizagem necessária);

– Autonomia e individualismo aumentado pela falta de cultura social;

– Excesso de dados (e não de informação);

– Má definição das questões e dificuldade de comunicação que não é cara à cara e permite clarificar de imediato;

A falta de sensibilidade para poder trabalhar e ultrapassar estes problemas pode limitar o desenvolvimento das comunidades de conhecimento, e aqui a liderança da organização é fundamental para aculturar a mesma no sentido de criar os mecanismos que permitam ultrapassar as barreiras que limitam esta evolução natural. Para isso podemos utilizar meios de comunicação unidirecionais ou bidirecionais. A utilização correta e eficiente destas ferramentas estratégicas de comunicação interna e externa, vão aculturar a organização num sentido positivo de otimização das TI como potenciadoras do conhecimento e não frustradoras das expectativas, ou desresponsabilizadoras das pessoas ou pior, gastadoras do seu precioso tempo.

Por último, toda esta revolução de criação da comunidade do conhecimento dentro das organizações, vai (ou já gerou) uma mudança de poderes e das competências nas empresas relacionais:

– Antes da Pandemia, passámos da supremacia do produto para a supremacia do consumidor, este tem a última palavra pois “conseguimos ouvi-lo” antecipamos a suas necessidades.

– Antes da Pandemia, mas acelerado pela Pandemia, passámos da supremacia do detentor da informação para a supremacia do disseminador da informação com o gestor da rede; da orientação para o problema para a orientação para a solução; da hegemonia das hard skills (que se tornam uma commodity) para a hegemonia das  soft skills; da massificação para o one to one, devido à enorme capacidade de processamento de dados existente; da rigidez hierárquica para as comunidades colaborativas e em rede e da emergência do chefe para o líder de projeto que tem as melhores competências para desempenhar aquela função num determinado momento.

E tudo isto vai acontecer num mundo, em 2021, que será influenciado por 21 tendências:

1.- Digital Journey: Do 2D ao 3D, do 4.0 para o 5.0, do 4G ao 5G

2.- Comprar será mais simples com a realidade aumentada, e as compras digitais assumirão na década de 30, mais de 30% do mercado mundial, B2B e B2C

3.- As relações sempre serão humanas, mas com um toque digital aumentado

4.- Home, car & office sharing como uma nova experiência social e um novo estilo de vida

5.- O Remoto será a normalidade mas novas regras de planeamento e de cortesia serão criadas, de forma a não invadir o espaço digital dos outros

6.- A família e o meio onde estamos inseridos (vizinhos por exemplo) serão a nova comunidade social e reduzirão a interação laboral

7.- Until everybody safe, no one is safe. Portanto a erradicação da Pandemia terá de ser global!

8.- A saúde mental é a nova Pandemia do século XXI (ansiedade, pânico, depressão, frustração, exaustão, burnout, etc.)

9.- O dinheiro vai começar a desaparecer e será cada vez mais eletrónico

10.- Uma nova crise económica começará em 2029 (financeira e económica, que começará no setor energético e no sistema bancário), após a recuperação desta crise sistémica originada pela Pandemia, com a injeção de dinheiros públicos, que proporcionará um período de crescimento económico

11.- Os medicamentos serão personalizados e o diagnóstico médico será totalmente automático, não envolvendo médicos mas algoritmos (os médicos continuarão a ser fundamentais para confirmar o diagnóstico e resolver os casos mais graves). Novos atores como a Apple e a Google irão desenvolver esta tecnologia de forma exponencial

12.- Da globalização à regionalização com protecionismo por blocos económicos

13.- A economia será cada vez mais estatizada, pois o investimento público sobrepor-se-á ao privado

14.- O poder dos Governos será fortalecido para poder limitar mais os direitos individuais e coletivos, decorrentes dos extremismos políticos que crescem no mundo, será a troca da “segurança pela liberdade”

15.- Um diploma é uma “commodity”, portanto as pessoas têm que estudar por mais 10 anos depois de concluírem a sua licenciatura

16.- As empresas destacar-se-ão pelo propósito que apresentam aos seus stakeholders internos e externos, como a eco responsabilidade por exemplo

17.- As cidades serão mais inclusivas e sustentáveis, mas desertas de habitantes. Estes preferirão optar por outros locais com outros pontos de atração, dado que deixam de ter obrigatoriedade das deslocações diárias

18.- O mundo VUCA é cada vez mais imprevisível, portanto as duas competências mais valiosas de um trabalhador, serão a resiliência e a capacidade de adaptação (“copo meio cheio”)

19.- Equilíbrio entre rastro e privacidade digital será uma questão importante no futuro

20.- As escolas têm de redefinir o seu modelo pois estão a ensinar 85% de crianças que vão ter um trabalho que ainda não existe. Desenvolver competências em paralelo com conhecimento!

21.- O foco estará na prevenção muito mais que no tratamento. Pelo que os estilos de vida mudarão. Não será uma decisão governamental mas um movimento social. As cozinhas das nossas casas passarão da simples preparação de refeições a locais de preparação de bem estar e saúde, eco responsáveis e versáteis!

Mas em todos os momentos, o ser humano continua a ser relevante. Substituir as pessoas pelas máquinas ou TI, mesmo com a inteligência artificial, perde o valor da intuição, da emoção não é possível. Humano sempre, mas com um toque mais digital. As pessoas são insubstituíveis!


Por Nelson Ferreira Pires, General Manager da Jaba Recordati/ Recordati UK / Recordati Ireland

 

 

 

 

 

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