Ao fim de dois anos de pandemia, e de novos hábitos de trabalho, afinal como tem sido trabalhar remotamente? Trabalhar a partir de casa, ou num outro lugar, fora do escritório, veio levantar fatores de stress, fez as pessoas pensar em mudar de emprego e trouxe tendências para a automedicação. A verdade, é que as […]
Ao fim de dois anos de pandemia, e de novos hábitos de trabalho, afinal como tem sido trabalhar remotamente? Trabalhar a partir de casa, ou num outro lugar, fora do escritório, veio levantar fatores de stress, fez as pessoas pensar em mudar de emprego e trouxe tendências para a automedicação.
A verdade, é que as pessoas trabalham mais, mas também têm mais tempo livre. Há um novo paradoxo do trabalho e cuidar do bem-estar e da satisfação com a vida das pessoas, em teletrabalho, tem de ser o foco.
O “Survey Attack: Relatório de Bem-Estar Teletrabalho 2022”, fez a análise entre o impacto da pandemia e o teletrabalho, em oito países da Europa, incluindo Portugal, numa parceria entre a NFON e a Statista Q.
Paradoxo do Teletrabalho
Com a mudança na predisposição das empresas para permitirem aos colaboradores trabalharem a partir de casa, o estudo apresenta um cenário parcialmente contraditório da relação entre trabalho e lazer.
À primeira vista, por exemplo, os resultados na questão sobre o que é que mudou desde que começou o teletrabalho, durante a pandemia de Covid, parecem divergentes. Cerca de 28% dos inquiridos nos países europeus afirmam que a quantidade de trabalho a ser feito (carga de trabalho) aumentou e para 25,2% as horas de trabalho aumentaram. Ao mesmo tempo, 36% afirmam que têm um maior equilíbrio entre a vida pessoal e a vida profissional e mais tempo para dedicar à família e aos amigos. Cerca de 29,4% dizem que passam mais tempo a fazer exercício físico e também comem de forma mais saudável.
As pessoas trabalham mais e têm mais tempo livre. A eliminação de deslocações longas e um horário mais flexível ao longo do dia, com uma boa organização, podem gerar mais tempo livre.

Teste de Stress em Teletrabalho
O stress tem muitas causas e o relatório procura mapeá-las através da seleção de fatores de stress. Entre os participantes, 37% afirmam que sentiram níveis variáveis de stress: a necessidade de preparar as próprias refeições (8,7%), uma fraca conexão de internet (17,2%) e estar contactável a qualquer hora (19,7%) foram nomeados como fatores de stress.
Para além disso, a falta de interação social com os colegas é um fator de stress para 35,3% e a falta de limites claros entre o tempo de trabalho e o tempo de lazer para 30,3%.
Em comparação, menos pessoas indicaram que o barulho de fundo (15,9%) e remuneração inferior (9,3%) eram fatores de stress.
Discussões sobre burnout na era digital ou tecnostress estão a tornar-se cada vez mais relevantes. Nesta linha, a amostra global evidencia que 20,5% sofrem de tecnostress, que inclui, por exemplo, problemas técnicos como falhas no router, falta de bateria, equipamento inadequados, entre outros. O tecnostress em casa surge para cerca de um quinto dos participantes.

Bem-estar através da automedicação
Trabalhar a partir de casa está a alterar a predisposição não só para otimizar o próprio bem-estar e melhorar a saúde física e mental com suplementos sem receita médica, mas também para aumentar a capacidade de concentração e promover o relaxamento.
Está a emergir uma tendência para automedicação entre os europeus em teletrabalho. Cerca de 34,4% dos participantes afirmam que tomaram suplementos sem receita médica (como melatonina, produtos legais de canábis, extratos de plantas, vitaminas e chás calmantes) para melhorar o seu bem-estar desde o início da pandemia, 18,2% para aumentar a concentração e 13,4% para recuperação.

Espaço
De forma a avaliar o bem-estar dos inquiridos, estes foram também questionados sobre o espaço onde trabalham em casa. De acordo com o inquérito, 12,1% mudaram o seu espaço de trabalho para o quarto, 31,8% têm um escritório dedicado a este fim e 35,7% trabalham a partir da sala de estar.
Em todos os oito países, a área média do espaço em que os profissionais trabalham é de 20,32m2. Com 15,35 m², os britânicos são quem dispõe de menos espaço para trabalhar em casa, enquanto os italianos conseguem usufruir de 23.81 m². Cerca de 1,2% dos participantes afirma trabalhar permanentemente na casa de banho ou na varanda.

Sinal de Alarme: Demissão
Os resultados devem também ser um sinal de alarme para os empregadores da Europa: 21,7% dos inquiridos afirmam que já planearam a sua demissão devido às experiências vividas durante a pandemia e o teletrabalho, e 9,9% já deixaram os seus trabalhos.
Algumas das razões para as demissões que já aconteceram são, por exemplo: falta de oportunidades de desenvolvimento de carreira (34,2%), salário inferior (por exemplo, número de horas de trabalho reduzidas, perda de oportunidades de comissão, 30,1%) e estar contactável a todas as horas (16,6%).

Os colaboradores também estão a planear mudanças adicionais de forma a alcançar uma harmonia otimizada entre o seu bem-estar e o trabalho. Por exemplo, 33% quer alcançar uma distinção mais clara entre a vida pessoal e a vida profissional, e 20,9% querem apostar no desenvolvimento pessoal.
Adicionalmente, está a emergir uma certa predisposição para trabalhar estando doente e/ou durante períodos de férias. Cerca de 38,3% sentem que o teletrabalho é uma vantagem porque podem trabalhar mesmo estando doentes, e apenas 26,2% afirmam que não vão estar disponíveis para o seu empregador nas suas próximas férias.

O ‘Relatório de Bem-Estar Teletrabalho 2022’ mostra que temos de enfrentar uma nova realidade: cuidar do bem-estar e da satisfação com a vida das pessoas em teletrabalho tem de ser o foco. O escritório em casa está a transformar-se na nova realidade, e esta situação necessita de uma atenção e de um cuidado constantes, para que o novo modelo de trabalho na Europa não acabe a ser a razão principal de uma ida à terapia. As áreas de trabalho são também áreas de vida e, na era da digitalização, estão a mudar constante e rapidamente, com cada indústria e cada empregador a terem diferentes requisitos aos quais os colaboradores devem obedecer. No futuro, as empresas da Europa devem ter presente a noção de que digitalidade e psicologia são duas faces da mesma moeda.
Christian Montag, Professor de Psicologia Molecular, autor e especialista na influência das tecnologias digitais na psicologia humana


