É preciso manter os colaboradores no coração das organizações e dos líderes

O estudo “Lar doce escritório”, realizado em outubro de 2020, veio mostrar que de uma forma generalizada os portugueses estão predispostos a aceitarem o teletrabalho. Mas será um fenómeno do momento ou um modelo de trabalho a seguir?

Susana Almeida Lopes, Managing Partner da SHL Portugal e responsável pela coordenação e investigação deste estudo, marcou presença na Leading People – International HR Conference, “De Sapiens a Digital e até onde?”, onde apresentou as principais conclusões e convidou à reflexão sobre as prioridades e o caminho a seguir.

Qual o estado da arte do trabalho remoto em Portugal e quais as suas implicações no futuro do mundo laboral, das habitações e do desenho das cidades serviu de base a uma investigação realizada junto de mais de 1300 participantes de cerca de 150 empresas, efetuada pela SHL em parceria com a S+A Capital e com a colaboração de docentes e alunos do ISEG.

A investigação demonstrou que, de uma forma generalizada, pessoas e organizações partilham uma visão de uma nova forma de trabalho mais sustentável, em que família, trabalho e ambiente se conjugam em harmonia, com inúmeras vantagens apontadas ao trabalho remoto. Este é, aliás, como referiu Susana Almeida Lopes, um “ponto de viragem, de gestão da mudança, em que depois desta experiência não vamos voltar atrás ”reforçando ainda que “as organizações vão manter algum tipo de trabalho remoto no futuro, com as implicações que daí poderão advir”.

A flexibilidade, a redução de custos e a autonomia estão entre as principais vantagens, para além do tempo ganho nas deslocações casa/trabalho, que ao final do ano equivale a um mês, se se gastar entre 20 a 30 minutos nesse percurso. Quanto ao equilíbrio entre vida familiar e pessoal, praticamente 70% dos inquiridos refere uma melhoria neste campo com uma percentagem idêntica (74%) de preferência por manter no futuro um modelo híbrido. Com a devida referência a um “enviesamento da amostra”, pois a maioria dos inquiridos tem um elevado nível de escolaridade e desempenha funções técnicas e de direção, cerca de 97% afirmou que o seu trabalho pode ser realizado à distância e 22% preferia estar permanentemente em modo remoto.

No entanto, as organizações e os seus líderes enfrentam também inúmeros desafios no desenvolvimento de um modelo de trabalho remoto para o futuro, com cerca de 92% das empresas a afirmar que essa forma de trabalho será para se manter. A experiência do último ano deve servir de base para a construção de novas práticas, com focos de atenção prioritários para a gestão dos recursos humanos.

As principais conclusões do estudo serviram de reflexão para a criação de quatro pontos de partida para explorar em detalhe a implementação do trabalho remoto nos próximos tempos: 1. Desenvolvimento de competências, 2. Maior proximidade, 3. Promover a coesão 4. Apoio emocional.

As competências digitais surgem como uma das principais prioridades, tema que Susana Almeida Lopes destaca: “temos em Portugal muitas dificuldades e lacunas ao nível das competências, principalmente entre os mais novos”.

Quanto à preparação dos líderes para o novo futuro, em que a maioria das organizações relatou uma maior proximidade entre os vários níveis hierárquicos e os colaboradores, fruto de se tornar mais fácil a partilha em modo virtual, a parte relacional é fundamental pois, conforme Susana Almeida Lopes refere, “somos seres sociais e estimulamos a produção de ocitocina e outros neurotransmissores quando estamos em situações sociais”. A investigadora e docente do ISEG chama a atenção para que “o trabalho remoto traz-nos muitas vantagens, mas é preciso ultrapassar a ideia de longe da vista, longe do coração. É preciso manter os colaboradores no coração das organizações e dos líderes”.

Nesse sentido, as práticas de conciliação entre família e trabalho são também de maior importância, mas é de salientar que não deve ser algo maioritariamente adotado por mulheres, sob a pena de haver um revés nos progressos que têm vindo a ser feitos na igualdade de género dentro nas organizações.

O estudo veio também reforçar alguns dados já revelados em anteriores pesquisas como parte das desvantagens do teletrabalho. Cerca de 93% referiu trabalhar mais por estar à distância, notou-se um impacto na saúde psicológica, com um maior nível de situações de ansiedade e stress, e a necessidade de mais competências digitais. Do lado das organizações é mencionada a dificuldade no acompanhamento dos colaboradores no seu desempenho, pela distância física, algo que Susana Almeida Lopes explica “por estar fora do radar de liderança, acaba por dificultar a avaliação das pessoas”.

Assim, um modelo de trabalho remoto para os novos tempos deve atender às diversas necessidades como a manutenção das relações profissionais, o desenvolvimento de hábitos de trabalho, as dificuldades no foco e autonomia, e o autodesenvolvimento e bem-estar. No tema do bem-estar, a investigadora chama a atenção para “mais apoio aos mais jovens”, onde, de forma surpreendente, “existe uma maior dificuldade no ajustamento e adaptação ao trabalho remoto, quer no foco e nas competências digitais, como em hábitos de trabalho”.

 

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