É seguro ir a lojas, ver amigos e viajar de avião?

Muitos gostam de pensar que estas decisões serão conduzidas pela ciência médica ou por políticos. Mas as estatísticas capturam apenas parte da história. As próprias pessoas também terão que fazer os seus próprios julgamentos com base em dados de saúde, idade e riscos externos.

É seguro ir a lojas, ver amigos e viajar de avião? Gillian Tett do board de editores do jornal Financial Times dos EUA procura responder a esta pergunta, analisando a questão de como gerir o risco em tempos de coronavírus.

Como definimos e medimos os riscos? Quem deve fazê-lo? À medida que a COVID-19 desaparece, os políticos terão de decidir quando é que é “seguro” reiniciar a vida fora de portas, nos transportes e ruas, nos espaços de trabalho e de lazer.

É seguro ir às lojas? Ver um amigo? Embarcar num avião? Decisões difíceis, já que em todo o mundo a doença levou à morte mais de 316 mil pessoas e é tão infeciosa que os países mais afetados lutam para reduzir a taxa de transmissão abaixo de 1 (em que, em média, o número de novas infeções causadas por cada doente seja inferior a um, de modo a que a doença desapareça).

“Passei grande parte da minha carreira a escrever sobre finanças e, durante a crise financeira de 2008, vi em primeira mão quão enganadora pode ser a nossa convicção nos modelos”, conta o editor do jornal financeiro.

Os modelos não nos podem dizer quando e como nos podemos sentir seguros. Como os cientistas sociais Mary Douglas e Aaron Wildavsky escreveram no seu livro “Risk and Culture”, “a percepção de risco é um processo social”. Os modelos não conseguem responder à pergunta mais crucial de todas: as decisões de risco devem ser tomadas por indivíduos, líderes, ou pela comunidade?

As epidemias têm atormentado a humanidade. Mas as atitudes ocidentais em relação à gestão de riscos sofreram uma revolução furtiva nos últimos séculos. A maioria das pessoas reconhece que as pandemias são uma ameaça de grupo.

Controlo do risco pelos indivíduos

Nos EUA, por exemplo, as máscaras faciais são hoje obrigatórias. Há muito que são utilizadas pelas populações de muitos países asiáticos, como Japão e China, para impedir que as pessoas infetadas espalhem doenças ou criem riscos para os outros. Mas em Nova Iorque as máscaras quase nunca eram usadas dessa maneira. Agora, no entanto, tornaram-se obrigatórias em espaços fechados. E o que é impressionante, diz Gillian Tett, é que há uma pressão social crescente para usar máscaras, mesmo em lugares onde não são obrigatórias.

Também se nota a pressão dos outros, da comunidade, no seguimento de regras de distanciamento social. Por exemplo, cidadãos ativistas independentes usaram drones para controlar espaços e chegaram a publicar fotos de multidões nas praias da Florida ao que acrescentaram comentários reprovadores. Nas redes sociais circulam histórias de cidadãos de Nova Iorque e da Flórida a denunciarem os seus vizinhos à polícia por “crimes”, como terem chamado um cabeleireiro a casa.

Os EUA não são o único país onde este tipo de controlo do risco pela pressão social se está a espalhar. Na República Checa, o uso de máscaras não era algo comum. Mas agora parece que quase todos os checos usam máscaras por causa de um movimento popular que incitou a fabricação em massa de máscaras que são deixadas nas árvores para qualquer um usar. O movimento fez com que aqueles que não usam máscaras se sintam egoístas e antissociais.

A Suécia, por outro lado, já tinha uma tradição forte de gestão de riscos pelos próprios cidadãos: mesmo sem controlo hierárquico ou obrigação de confinamento, as pessoas têm, voluntariamente, praticado o distanciamento social. O mesmo acontece em Singapura.

Na Grã-Bretanha, quando a crise começou em março, o governo adotou um modelo de controlo de riscos assente no fatalismo, com o primeiro-ministro Boris Johnson a declarar que “muito mais famílias vão perder entes queridos”. Mas depois adotou abruptamente controlo hierárquicos de risco e introduziu regras que são, na maioria, mais difíceis do que as de Nova Iorque.

“Alguns amigos que tenho em Londres adotaram medidas que não são vistas em Nova Iorque, como colocar “em quarentena” pacotes de entrega antes de os trazer para casa. No entanto, os cidadãos britânicos não adotaram o uso de máscaras para impedir que pessoas infetadas espalhem doenças.

Papel da tecnologia no controlo do risco

Na China, as empresas de tecnologia já desenvolveram uma aplicação que pode ser usada para rastrear se alguém já teve COVID-19, ou não, com os resultados a serem exibidos em semáforo. Pode acontecer que o governo permita que a pessoa possa viajar apenas se a aplicação mostrar a cor verde. O governo britânico também está a produzir uma aplicação mobile para rastrear contactos com pessoas com COVID-19.

Onde é que tudo isto nos pode levar? O meu palpite, diz Gillian Tett, “é que em países como EUA e Reino Unido se caminhe para um futuro com mais ênfase no controlo de riscos pelos indivíduos dentro do seu grupo social: manter a nossa “tribo” segura será o novo mantra. “Se risco é uma escolha e não um destino, vamos acreditar que possamos fazer essas escolhas com sabedoria”, diz o editor para terminar.

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