Em defesa de políticos aborrecidos

A vida política anda cheia de pessoas indignadas e/ou perplexas. Isso por um lado é bom, porque se trata de sentimentos que florescem com as boas intenções. Mas a indignação e a perplexidade tendem a alimentar visões tribais da política, do tipo “indignados vs indiferentes”. Imagino que, no seu tempo, os nacionais-socialistas originais fossem personagens do género.

Naturalmente os indignados tendem a atribuir a si mesmos uma superior moralidade: quem se indigna é porque se preocupa. E alguém tem de se preocupar porque se ninguém se preocupar, estamos todos desgraçados. Daí à noção de self-righteousness, a auto-retidão por vezes farisaica, vai um pequenino salto. O perplexo é do mesmo tipo. É alguém que questiona: como é possível os outros não verem aquilo que eu vejo? Nem lhe passa pela cabeça que possa estar a ver mal ou a não ver tudo, porque as ideias dos outros não são apenas ideias diferentes: são ideias erradas. Na sua cabeça mais iluminada que a dos outros, o perplexo é o democrata exemplar. Porque se preocupa.

Como o mundo anda cheio de perplexos e indignados, da direita trauliteira à extrema esquerda que chama a si mesma progressista, prefiro os aborrecidos. Como escrevia Simon Kuper no Financial Times, a política alemã vive destes personagens, pouco dados a gritarias e a indignações – veja-se a própria chanceler. Os alemães aprenderam a lição da maneira mais dura, como todos sabemos. Por cá, ainda vivemos na política futebolizada, da canelada e da gritaria. Um pouco mais de aborrecimento talvez não nos fizesse mal nenhum.


Por Miguel Pina e Cunha, diretor da revista Líder

 

 

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