Em defesa dos grandes livros

“A música clássica é como um romance, não como um tweet.”
Nicola Benedetti

Nas últimas semanas várias vozes têm manifestado preocupação com o facto de cada vez se ler mais na Internet e menos em papel. Podemos desvalorizar a preocupação como uma forma de conservadorismo de velhos do Restelo em tempo de transição digital. Talvez seja mais do que isso, porém.

Ler livros e em particular grandes-livros-grandes, isto é, bons livros volumosos, levanta os seus desafios mas traz enormes benefícios. Iniciar e chegar ao fim de um destes livros é como vencer uma montanha. Os grandes livros oferecem oportunidades para, mais do que de ler uma história, entrarmos num universo. A lista inclui clássicos como Os Maias ou Guerra e Paz, mas também contemporâneos de que o melhor exemplo é porventura a galardoada trilogia de Hillary Mantel, de que acaba de sair O Espelho e a Luz (Presença). A dimensão (só o terceiro tomo de Mantel roça as 900 páginas), obriga a uma maior envolvência com um universo particular. A leitura de longos romances prende-nos a esse universo, se tivermos paciência para isso. Expande o conhecimento e alarga a sensibilidade.

A alternativa à frequência deste universo lento é o mundo rápido da Internet. Neste mundo de toca-e-foge, os argumentos são rápidos e não vagarosos. São expostos em meia dúzia de palavras. Beneficiam da simplicidade. E a simplicidade ajuda os populistas. Os populistas são excelentes a apresentar verdades simples sobre o mundo, mas são normalmente incompetentes a lidar com um mundo que não se reduz às suas visões simplistas. É por isso que ler grandes livros também é uma forma de educar a mente contra os populismos que nos ameaçam.


Por Miguel Pina e Cunha, diretor da revista Líder

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