Em tempos pandémicos precisamos de mais mulheres a liderar?

O espaço mediático tem sido amplamente ocupado com o modo desbragado como Trump e Bolsonaro têm atuado perante a COVID-19. Menos parangonas têm recebido os resultados sanitários alcançados por países liderados por mulheres. Eis três casos paradigmáticos: Nova Zelândia (liderada por Jacinda Arden), Dinamarca (Mette Frederiksen) e Alemanha (Angela Merkel). Comparações deste teor são arriscadas porque a quantidade de países liderados por mulheres é modesta. Mas uma investigação recente, da autoria de Supriya Garikipati (Universidade de Liverpool) e Uma Kambhampati (Universidade de Reading), faz luz sobre a matéria. O trabalho envolveu 194 países, 19 dos quais liderados por mulheres. A evidência recolhida mostra que os resultados, no plano sanitário, são sistematicamente melhores em países cujo poder executivo é ocupado por mulheres.

Uma possível explicação é que os países liderados por mulheres são caraterizados por fatores (demográficos, culturais, económicos e nos sistemas de saúde) que, esses sim, explicam o maior sucesso sanitário. Nessa lógica, se fossem liderados por homens, esses países obteriam o mesmo êxito. O estudo controla estatisticamente esses fatores e mostra que eles são insuficientes para explicar o sucesso relativo desses países. Por exemplo, a Irlanda (com liderança masculina) e a Nova Zelândia denotam várias semelhanças nos planos económico, cultural e populacional. Mas a Nova Zelândia apresenta uma quantidade de mortes por COVID-19 incomparavelmente menor. As comparações entre a Alemanha e o Reino Unido (com liderança masculina), e entre o Bangladesh (liderança feminina) e o Paquistão (liderança masculina) conduzem à mesma conclusão: durante a crise pandémica, o cidadão de um país liderado por uma mulher fica mais bem servido!

Mantem-se a questão: o que explica este fenómeno? A resposta, sugere o estudo, assenta nas políticas adotadas: as mulheres reagiram de modo mais célere e decisivo, poupando vidas. Porque adotaram tais políticas? Uma possível resposta radica na maior aversão feminina ao risco. O argumento é, contudo, insuficiente: denotando mais aversão ao risco no plano sanitário, as mulheres arriscaram mais no plano económico. Diferentemente, os homens arriscaram mais na dimensão sanitária e menos na económica. Ou seja, tanto homens como mulheres são capazes de arriscar, embora em domínios distintos.

Um explicação complementar é a menor tendência das mulheres para desenvolverem excesso de confiança em situações de grande incerteza. Também são mais cautelosas quando antecipam resultados adversos. São ainda dotadas de maior empatia, e essa diferença não tem apenas raízes sociais – também radica em bases biológicas/neuronais. A empatia pode tornar as mulheres mais sensíveis aos efeitos da pandemia para a saúde e a vida dos cidadãos. As mulheres também tendem a adotar estilos de liderança mais participativos. Essa inclinação participativa e inclusiva pode torná-las melhores comunicadoras e modelos mais eficazes perante os cidadãos – os quais se empenham mais na adoção de medidas protetoras.

O exposto requer quatro notas críticas. Primeira: a pandemia ainda está entre nós e o desfecho é incerto. Segunda: devemos ser cautelosos com generalizações. A eventual maior tendência das mulheres para a empatia não significa que os homens são desprovidos dessa qualidade, ou que todas as mulheres são mais empáticas do que os homens. Quando foi indagada sobre as privações experimentadas por muitos trabalhadores da cultura, a ministra Graça Fonseca respondeu: “Só falo de arte contemporânea. Portanto… muito obrigada e vamos beber o drink de fim de tarde”. Melhor fora se convidasse os aflitos a tomar um mata-bicho, logo pela manhã, na taberna. Compare-se a postura da ministra com a reação emocionada e empática do secretário de estado da saúde, António Lacerda Sales, quando anunciou pela primeira vez, após o início da pandemia, que não houvera qualquer óbito Covid-19 nas últimas 24 horas. Terceira nota: os líderes lideram sempre pelo exemplo, bom ou mau. A sua conduta durante uma crise releva para o modo como os cidadãos atuam – mesmo que essa influência seja inconsciente. Última nota: durante uma crise pandémica, não basta ser empático e compassivo, é igualmente importante ser firme, assertivo, corajoso e resiliente. Sabendo o que sei hoje, sinto-me tentado a sugerir que Jacinda Ardern representa o epítome dessa coabitação: compaixão e “dureza”.


Por Arménio Rego, LEAD.Lab, Católica Porto Business School

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