O Norte continua a destacar-se como uma das regiões mais dinâmicas da economia portuguesa, mas as empresas enfrentam crescentes dificuldades para encontrar profissionais qualificados. A diferença entre a intenção de contratar e a disponibilidade dos trabalhadores para mudar de emprego é a maior do país.
Segundo o Guia Hays 2026, 91% das organizações da região planeiam contratar este ano, mas apenas 68% dos profissionais admitem estar disponíveis para mudar de emprego, criando um desequilíbrio de 23 pontos percentuais entre a procura e a disponibilidade de talento.
Trata-se do maior fosso registado entre empregadores e profissionais em Portugal, acima do observado no Centro (14 pontos percentuais) e no Sul (22 pontos percentuais). Os dados refletem as dificuldades crescentes das empresas em encontrar os perfis necessários para sustentar os seus planos de crescimento.
Competências técnicas, digitais e engenharia estão entre as mais procuradas
O estudo mostra que as empresas estão particularmente focadas na contratação de perfis especializados. Quase metade das organizações (47%) identifica as competências técnicas e digitais especializadas como a principal prioridade de recrutamento para os próximos 12 meses, enquanto 61% apontam estas competências como uma das áreas mais procuradas.
Entre os perfis com maior procura destacam-se:
- Comercial (36%);
- Tecnologias de Informação (28%);
- Engenharia (22%).
A procura acompanha a crescente necessidade de profissionais capazes de responder aos desafios da transformação digital, inovação e competitividade internacional.
Norte lidera contratação, mas falta talento disponível
Para Carlos Maia, Business Director da Hays Portugal para a região Norte, o dinamismo económico da região está a aumentar a pressão sobre o mercado de trabalho. «O Norte continua a ser uma das regiões mais dinâmicas do país, impulsionada pela força da indústria, da engenharia, da tecnologia e dos serviços especializados. No entanto, estamos perante um mercado de trabalho cada vez mais competitivo, onde a disponibilidade dos profissionais para mudar de emprego não acompanha o ritmo de contratação das empresas.»
A região continua a beneficiar da forte presença de setores industriais, tecnológicos e de serviços especializados, mas a escassez de profissionais qualificados está a tornar-se um dos principais obstáculos ao crescimento.
Empresas criticam preparação dos jovens para o mercado de trabalho
A dificuldade em contratar não se explica apenas pela falta de profissionais disponíveis. As empresas identificam também fragilidades na formação dos jovens. Segundo o estudo, 69% das organizações consideram que as instituições de ensino não estão a preparar adequadamente os estudantes para as exigências do mercado de trabalho.
Entre as principais lacunas apontadas pelos empregadores:
- 80% referem uma formação excessivamente teórica e pouco ligada à realidade empresarial;
- 80% apontam um desalinhamento entre os conteúdos lecionados e as necessidades do mercado;
- 56% destacam insuficiências ao nível das competências comportamentais e interpessoais.
Formação e requalificação surgem como prioridade
Perante a escassez de talento, as empresas defendem mudanças estruturais para aumentar a competitividade do mercado laboral.
Entre as principais prioridades identificadas pelos empregadores do Norte encontram-se:
- Simplificação dos processos de contratação e despedimento (66%);
- Reforço da formação e requalificação profissional (53%);
- Adaptação à transformação digital (53%);
- Incentivos à retenção de talento jovem (52%).
Segundo a Hays, a resposta ao problema exige uma maior aproximação entre o sistema educativo e o tecido empresarial.
Empresas apostam cada vez mais no desenvolvimento interno
Com a dificuldade em recrutar profissionais qualificados, muitas organizações estão a reforçar o investimento nos seus próprios colaboradores. Quase metade das empresas do Norte (48%) afirma que a principal estratégia para colmatar lacunas de competências passa pelo upskilling das equipas atuais.
Além disso, 79% das organizações disponibilizam programas internos de formação e desenvolvimento profissional.
A aposta na aprendizagem contínua surge como uma forma de responder à rápida evolução tecnológica e à crescente especialização exigida pelo mercado.
Salários e progressão continuam a dificultar retenção
A retenção de talento permanece um dos maiores desafios para as empresas da região.
Mais de metade das organizações (57%) admite dificuldades em acompanhar as expectativas salariais dos profissionais.
Entre os principais obstáculos à retenção destacam-se ainda:
- Elevada concorrência entre empresas (48%);
- Falta de oportunidades claras de progressão de carreira (41%).
Estes fatores tornam o mercado de trabalho cada vez mais competitivo, especialmente para perfis especializados.
Imigração qualificada ganha relevância
Num contexto de escassez de profissionais, a atração de talento internacional surge como uma das soluções mais apontadas pelas empresas.
De acordo com o estudo, 81% das organizações do Norte acreditam que a imigração qualificada pode ajudar a reduzir as dificuldades de recrutamento, sobretudo nas áreas onde a falta de competências é mais evidente.
Para Carlos Maia, a capacidade de atrair, desenvolver e reter talento será um dos principais fatores de competitividade das empresas nos próximos anos. «As empresas do Norte enfrentam atualmente um desafio duplo: por um lado, precisam de contratar para sustentar o crescimento dos seus negócios; por outro, procuram competências cada vez mais especializadas num mercado onde a oferta continua limitada.»
O responsável conclui que as organizações que conseguirem combinar oportunidades de crescimento, desenvolvimento de competências, flexibilidade e uma proposta de valor diferenciadora estarão mais bem preparadas para enfrentar os desafios futuros.


