Empresas: O motor da transição para uma economia sustentável

As alterações climáticas devido à ação humana só poderão reduzir-se se todos contribuirmos para um novo modelo de Economia. Já existe sensibilidade, e até vontade, mas haverá suficiente disponibilidade, coletiva, para contribuir para as alterações necessárias?

Dita o consenso científico que a Humanidade tem hoje cerca de 10 anos para evitar o colapso do sistema natural que nos suporta e o caos climático. É um facto. Sendo a responsabilidade coletiva.

A CIP – Confederação Empresarial de Portugal acredita que as empresas têm de estar na linha da frente da inadiável transição para uma Economia mais Sustentável. Não só operando as necessárias alterações aos seus modelos produtivos, mas ajudando também a sacudir consciências, através do exemplo e pela demonstração dos benefícios das mudanças operadas nas organizações que lideram.

É neste contexto que nasce o projeto Economia + Circular, lançado recentemente pela CIP. Uma iniciativa que pretende apoiar as empresas na integração de indicadores de circularidade nos seus sistemas de gestão e, consequentemente, promover uma maior sensibilização e implementação de boas práticas, assim como estimular o desenvolvimento de novas medidas e ações.

O E+C, um projeto desenvolvido em parceria com a EY Parthenon, é um estudo feito em Portugal sobre Economia Circular. Com duração de um ano, permitirá a caracterização do nível de circularidade atual nas empresas nacionais em termos qualitativos e quantitativos. Em termos qualitativos, o projeto prevê o levantamento das medidas já implementadas e das ações adotadas com vista à circularidade, assim como a identificação dos entraves sentidos pelas empresas de forma a identificar os caminhos a seguir, nomeadamente em termos regulatórios, e a elaboração das respetivas recomendações. Já em termos quantitativos, a CIP pretende demonstrar, por via de uma amostra nacional representativa, as vantagens na utilização de uma ferramenta para medir de forma robusta o progresso de uma organização ou empresa em direção a uma forma mais circular de fazer negócios, tendo sempre em vista os progressos em termos de resultados nacionais no cumprimento das metas do Pacto Ecológico da UE.

Circularidade é competitividade

As empresas estão comprometidas com os objetivos da Economia Circular. Aliás, sempre estiveram, ainda que, por vezes, não tenham a perfeita noção da forma como já contribuem ou de como poderão contribuir mais. E fazem-no, desde logo, por uma questão de competitividade.

A empresa só é competitiva se for eficiente. E a eficiência, material e energética, ocupa inexoravelmente uma posição central nos objetivos de qualquer empresa que queira reforçar a sua posição no mercado.

Ora, a adoção de métricas pelas organizações com vista à identificação do seu nível atual de circularidade e dos processos que podem ser melhorados, conduzirá ao desenvolvimento de melhores práticas e, consequentemente, a maiores níveis de circularidade. Afinal, e nas palavras do Ministro da Economia de Estado, da Economia e da Transição Digital, Pedro Siza Vieira, “sem medirmos exatamente o que estamos a fazer, não conseguiremos atingir os resultados a que nos propomos”.

Numa abordagem bottom-up, ao promovermos essa integração ao nível das empresas de uma forma escalável para os diferentes setores ou clusters de atividade, estaremos a promover a economia circular a um nível mais alargado. O facto da rede associativa da CIP incluir diversos setores de atividade é promissor em termos de uma abordagem integrada que permita a identificação de novas simbioses ou que conduza à operacionalização de outras que, embora já identificadas, enfrentem algum obstáculo.

Os obstáculos da regulação e do mercado

Embora exista já regulamentação favorável à implementação de ações para aumentar a circularidade e um bom nível de inovação nestas matérias na UE, existem ainda obstáculos regulamentares e de mercado. O grau de burocracia associada a um material por ser considerado um desperdício de uma atividade e, portanto, um resíduo, dificulta a operacionalização de algumas boas práticas.

O resíduo deve ser olhado como um recurso e não como um perigo se não tiver características de perigosidade. Ainda assim, mesmo ultrapassadas estas adversidades, existem também outros obstáculos ligados ao mercado. Há investimentos ao nível de medidas circulares, processos ou ecodesign de produto, que estão associados a um aumento de custos e esse aumento tem de ser refletido no preço do produto. E o mercado ainda não está preparado. Este desafio pode e está a ser trabalhado a nível regulatório como é o caso do novo plano da Economia Circular da União Europeia e a nova estratégia do consumidor, com grande enfoque nos direitos à informação e o direito à reparabilidade. Contudo, vai ser muito difícil regulamentar de forma eficaz para reduzir o consumismo desenfreado e a acumulação de bens, sendo características comportamentais que tardam a surtir efeitos. A noção de sucesso está hoje aliada à posse do maior número de bens, dos últimos modelos disponíveis no mercado e do maior número de experiências individuais e coletivas. Alterar esta noção enraizada na sociedade pode tardar.

Outra questão que é necessário acautelar na promoção desta mudança de paradigma é a importância do equilíbrio, garantindo que a transição não deixa ninguém de fora. Se é verdade que novos postos de trabalho podem ser criados no âmbito da transição para uma Economia mais circular, também é certo que muitos postos de trabalho podem desaparecer. Por isso, as empresas precisam de se adaptar, requalificando recursos, o que exige investimento específico também nesta área.

Com vista à discussão aberta e multistakeholder sobre estas questões, o E+C promove ainda a criação de um Comité de Observação, com representantes das empresas, das autoridades e das entidades do sistema científico e técnico com maior experiência nesta temática, sem esquecer representantes dos consumidores e de organizações ambientais. O objetivo é chegar a um conjunto de recomendações com vista ao aumento do nível de circularidade nacional, tendo em vista os objetivos de descarbonização e preservação da biodiversidade.

Pode ler mais sobre o tema na edição de primavera da revista Líder.


Por Sílvia Machado, Assessora Sénior de Ambiente & Clima da CIP – Confederação Empresarial de Portugal

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