Eu adoro surfar. Na verdade, não é bem isso. Adoro andar de um lado para o outro no oceano, sentada numa prancha de surf com os pés na água. Apanhar ondas é divertido, mas a emoção da viagem nunca supera totalmente o medo de ser arrastada para debaixo da superfície. Cada pessoa oscila entre o […]
Eu adoro surfar. Na verdade, não é bem isso. Adoro andar de um lado para o outro no oceano, sentada numa prancha de surf com os pés na água. Apanhar ondas é divertido, mas a emoção da viagem nunca supera totalmente o medo de ser arrastada para debaixo da superfície.
Cada pessoa oscila entre o desejo de emoção e o instinto de evitar a dor. Por mais aborrecido que possa ser, eu inclino-me mais para o segundo. Mas quando não é possível evitar o sofrimento, tenho outra estratégia: desligar ou (se possível) dormir. A minha capacidade para adormecer no meio de uma crise é uma espécie de superpoder, embora faça de mim um péssimo super-herói.
Desligar-se mentalmente do presente é uma estratégia comum quando temos de lidar com sentimentos avassaladores, em particular, o stress. É uma das razões pelas quais vemos televisão, lemos romances e nos distraímos com as redes sociais. No entanto, embora isso pareça uma forma eficaz de fazer uma pausa nesta vida moderna, tem as suas desvantagens. Desde logo, distancia-nos das sensações corporais que sinalizam o stress e o desconforto — e dos prazeres da vida. E quebra a ligação com o sentido corporal do eu, fundamental para sentirmos que somos nós quem controla o nosso próprio destino.
De acordo com um estudo sobre o uso das redes sociais realizado na Universidade de Washington, esta dissociação ocorre frequentemente de forma involuntária. Muitas vezes, os participantes tencionavam apenas verificar as notificações, mas acabavam por emergir muito tempo depois, com um vago sentimento de vergonha e sem se lembrarem exatamente do que tinham lido.
Se o leitor é alguém que procura o prazer ou alguém mais cauteloso que evita a dor, saiba que uma certa dose de prazer e dor são inevitáveis. Ambos são motivadores essenciais do comportamento, que foram sendo aperfeiçoados ao longo de milhões de anos para nos impulsionar a procurar aquilo que nos beneficia e a evitar tudo o que nos prejudica.
Teoricamente, é simples: os nossos sentimentos sobre se algo é agradável ou doloroso levam-nos a aproximarmo-nos daquilo que é bom para nós e a evitar tudo o que nos pode magoar. Depois, com as nossas necessidades satisfeitas, podemos regressar a um estado confortável.
Mas, com os seres humanos, as coisas nunca são tão simples. À medida que evoluímos para nos tornarmos as criaturas complexas que somos hoje, o prazer e a dor foram-se interligando — não apenas entre si, mas também com os nossos pensamentos, sentimentos e emoções, de uma forma que os pode tornar difíceis de interpretar e gerir.
Começamos agora a compreender as interações complexas entre o corpo e o cérebro que estão na base dos nossos sentimentos homeostáticos mais intensos. Isto é importante para o nosso bem-estar geral, mas também para nos ajudar a enfrentar a vida sem precisarmos de recorrer a estratégias de sobrevivência potencialmente prejudiciais, como a dissociação, comer por conforto ou outras formas de entorpecimento emocional que envolvem álcool e drogas. Por isso, é essencial compreender melhor a forma como o prazer e a dor estão interligados — e não apenas para todos aqueles que sofrem de perturbações relacionadas com o sistema prazer-dor, como a dor crónica e a dependência.
Sinais de sobrevivência
É possível compreender como o prazer e a dor se sobrepõem se recordarmos a razão pela qual a interocepção existe: para maximizar as nossas hipóteses de sobrevivência, prevendo o que está para acontecer, adaptando-nos conforme necessário e usando sinais sensoriais em tempo real para corrigir erros nas nossas previsões.
Até certo ponto, o prazer e a dor alimentam todos os nossos sentimentos e decisões. Os sentimentos existem num espectro que vai do positivo ao negativo (em termos científicos, eles têm uma valência positiva ou negativa), e podem também ser medidos numa segunda escala deslizante que avalia a urgência de uma situação. Estes dois aspetos combinam-se de modo que aquilo de que precisamos nos faz sentir bem quando o conseguimos, e mal quando não o temos. Quanto mais urgente ou importante for a situação, mais intenso será o sentimento.
Trata-se de um sistema básico que funciona bem, mas, à medida que evoluímos e nos tornámos mais complexos, os nossos cérebros desenvolveram-se de forma a conseguirmos prever o que nos pode ser benéfico ou prejudicial, permitindo-nos adaptarmo-nos por antecipação. Como resultado, a forma como experienciamos cada extremo do espectro hedónico como prazeroso ou aversivo, e a intensidade com que esse sentimento se manifesta em cada momento, está longe de ser simples.
A relação complexa entre os sinais do corpo e as previsões e interpretações do cérebro acerca desses sinais é mais evidente no caso da dor. Sentimos dor, por exemplo, quando danos nos tecidos do corpo acionam recetores sensoriais que detetam ameaças físicas, químicas e térmicas. Quando ativados, esses nocicetores enviam uma mensagem para o cérebro, mas isso, por si só, não basta para garantir uma perceção consciente da dor. Os sinais podem ser ignorados, bloqueados ou adiados, dependendo do que estiver a acontecer no momento; a experiência consciente da dor pode ser temporariamente ignorada, mas, na maior parte das vezes, ela impõe-se à nossa consciência.
A dor não resulta apenas de danos nos tecidos cujos sinais são transmitidos pelos nervos sensoriais para o cérebro. É perfeitamente possível sentir dor sem ter qualquer lesão física. Um exemplo clássico é o que vem relatado no British Medical Journal em 1995, que descreve o caso de um trabalhador da construção civil que acidentalmente pisou um prego. Apesar de ter botas de proteção, o prego atravessou o calçado. Quando o homem chegou ao hospital, o prego saiu pela biqueira da bota e ele sentia uma dor extrema. Depois de lhe terem administrado analgésicos fortes, os médicos removeram o prego e depois a bota. Nessa altura, refere o relatório, «parecia que tinha acontecido uma cura milagrosa». O pé estava completamente ileso: o prego tinha passado entre os dedos.
Isto não significa que a dor fosse imaginária — com ou sem prego, o sofrimento do homem era real —, mas ilustra bem como a dor é mais do que uma simples sensação física. O mesmo se pode dizer do prazer. Ambos são emoções complexas que emergem de processos corpo-cérebro, que, por sua vez, podem ser intensificados ou atenuados, ou mesmo interrompidos, deixando as nossas experiências sem os habituais mecanismos de controlo e regulação.
A ligação entre sensação pura e experiência de prazer ou dor torna-se ainda mais complexa pelo facto de os circuitos, em algum momento, terem sido reaproveitados para ajudarem na gestão das relações sociais e emocionais, e também dos perigos físicos e das oportunidades. A evolução adapta frequentemente os circuitos do corpo para novas funções — neste caso, usando as vias do prazer e da dor para manter o equilíbrio fisiológico e social (a homeostasia).
Como resultado, a dor física e a dor emocional são processadas nas mesmas regiões do cérebro, incluindo a tão importante ínsula. E embora as emoções positivas possam reduzir a dor que sentimos, as emoções negativas podem intensificá-la. Foi o que demonstraram pesquisas sobre o chamado «efeito nocebo» — o lado negativo do efeito placebo, em que as expectativas conduzem ao prejuízo e não à cura. Em algumas experiências, quando os participantes são orientados para esperar dor e ficam ansiosos com o que está para acontecer, a sua atividade cerebral relacionada com a dor aumenta e eles classificam a dor como mais intensa em comparação com um grupo de controlo que não recebeu o mesmo alerta.
O vínculo entre prazer, dor e relacionamento social faz sentido quando pensamos no quanto os primeiros humanos dependiam uns dos outros para sobreviver. Viver em grupo oferecia vantagens óbvias, como afastar predadores e partilhar recursos para procurar alimentos e cuidar dos mais novos. Manter estes grupos é mais fácil se o facto de estar junto proporcionar uma sensação de bem-estar e estar sozinho provocar sofrimento — e se os membros do grupo sentirem a dor dos outros e estiverem motivados para ajudar.

Este artigo foi publicado através de um excerto original do livro ‘O Sentido Interior’ da autora Caroline Williams, com o consentimento da mesma.


