Até ao 25 de abril de 1974, a liberdade íntima das mulheres portuguesas estava amordaçada por leis e normas sociais que ditavam, sem apelo, o casamento, oprimindo a sexualidade e até o que podiam fazer com o próprio corpo. O divórcio era um luxo quase proibido e a fidelidade feminina uma exigência implacável. Para saírem do país, as mulheres tinham de ter autorização do pai ou do marido, e algumas profissões continuavam inacessíveis. Hoje, contra todas as correntes, 28 mil mulheres portuguesas descobriram a Gleeden, uma aplicação que é porta e janela para encontros sem grilhões, não monogâmicos, espelho de uma mudança profunda na forma como as mulheres ousam explorar e reivindicar a sua sexualidade.
Desde que o país pisou o caminho da democracia, o retrato das mulheres portuguesas mudou. Um estudo de 2019 mostra que a maioria das mulheres em relações amorosas sente-se realizada, embora algumas carreguem ainda o peso do arrependimento ou do engano. Ainda assim, 53% das mulheres sentem-se «sempre culpadas» por sentir desejo, e 50% sentem receio ou vergonha de falar sobre a sua intimidade sexual. A par disso, 30% acreditam que ainda existem muitos preconceitos sociais e tabus em torno do sexo, impedindo que o tema seja abordado livremente.
Sílvia Rubies, voz e responsável de comunicação da Gleeden, vê nestes números a confirmação de uma verdade maior: as mulheres portuguesas estão a tomar as rédeas da sua vida sexual, desafiando tabus antigos, embora com a necessidade de resistirem a preconceitos que ainda tentam silenciá-las. Neste 25 de Abril, a Líder traz uma conversa sobre uma pequena revolução que se faz sentir — sem muito espalhafato, mas real.

Como descreve a evolução da liberdade sexual das mulheres portuguesas desde o 25 de Abril de 1974 até hoje?
Antes do 25 de Abril as mulheres portuguesas viviam numa realidade muito restrita, em que o casamento, a sexualidade e a autonomia sobre o próprio corpo estavam fortemente condicionados por leis e normas sociais conservadoras. Eram observadas, denunciadas. O divórcio era restrito, a fidelidade feminina exigida como norma rígida, e a moral dominante limitava severamente a liberdade de cada uma.
Hoje, após mais de 50 anos de democracia, há um percurso muito significativo nessa liberdade, com as mulheres a assumirem cada vez mais o controlo da sua vida íntima, embora ainda existam muitos tabus e medos a vencer.
De que forma é que o medo do julgamento social continua a condicionar a forma como as mulheres vivem a sua liberdade sexual?
Isso deve-se sobretudo ao facto de as mulheres continuarem a sentir que serão mais julgadas socialmente do que os homens, se optarem por relações fora do compromisso tradicional.
Além disso, esse julgamento não vem apenas de um lugar, não vem apenas da sociedade em abstrato, vem muitas vezes de círculos muito próximos. Pode vir da família, pode vir do grupo de amigas, pode vir do contexto profissional, e isso cria uma espécie de pressão invisível que não impede necessariamente a ação, mas condiciona muito a forma como essa ação é vivida ou assumida.
Este medo do julgamento cria, por isso, uma reserva natural. É uma espécie de contenção, quase como se existisse uma linha que muitas mulheres não querem ultrapassar publicamente, mesmo quando interiormente já a atravessaram, porque sabem que essa passagem tem consequências sociais.
Por isso, na Gleeden, aquilo que tentamos fazer é criar um espaço que seja o mais seguro e discreto possível, tentando reduzir o medo, de o tornar menos pesado, de permitir que haja um contexto onde a confidencialidade e a ausência de exposição pública dão algum conforto a quem quer explorar a sua liberdade sexual sem sentir que está constantemente sob avaliação externa.
Que tipo de mulheres normalmente procuram estas plataformas em Portugal?
São maioritariamente mulheres urbanas, com maior independência económica e cultural, que viajaram, estudaram e tiveram contacto com outras realidades que lhes permitiram quebrar tabus. Estas mulheres sabem que têm o direito de explorar a sua sexualidade e de viver experiências que lhes tragam prazer e realização, independentemente das convenções tradicionais. São pessoas que não querem um compromisso. Querem amantes, aventuras. Muitas também sentem que, após anos dedicados à família, querem reencontrar a sua feminilidade e sentir-se desejadas.
Qual é o papel da educação na promoção da liberdade e igualdade?
A educação é absolutamente central, mas tem de ser entendida num sentido amplo. Tem de ir além da educação académica, é literacia emocional, sexual e relacional. É preciso educar jovens, mas também adultos para falar abertamente sobre sexualidade, direitos, igualdade e respeito mútuo. O sexo faz parte da vida, mas não se quer falar disso.
É preciso educar, sabe-se que quanto maior o nível de educação maior a capacidade de questionar normas herdadas. É a melhor maneira de quebrar tabus e dar às pessoas as ferramentas para fazer escolhas conscientes e livres. Sem educação, as pessoas ficam presas a modelos rígidos e únicos que limitam a sua liberdade e o seu desenvolvimento pessoal.
E a relação entre autonomia financeira e a liberdade sexual das mulheres?
É um pilar fundamental da liberdade sexual. Em Portugal, a maioria das mulheres, pelo menos no meio urbano, já tem esta autonomia, o que lhes permite tomar decisões sobre a sua vida e sexualidade sem medo de ficarem desprotegidas.
Mas há um ponto crítico: a independência económica resolve a dependência material, mas não resolve a dependência simbólica. Ou seja, uma mulher pode ser totalmente autónoma financeiramente e continuar a sentir medo do julgamento social quando se trata da sua sexualidade.
Ainda assim, em muitos países, especialmente na América Latina, essa dependência económica existe e limita fortemente as escolhas das mulheres.
Como vê a evolução das formas de relacionamento, nomeadamente a crescente procura por relações não monogâmicas?
A sociedade está a evoluir para aceitar modelos mais diversos de relacionamento. Muitas pessoas já não acreditam que a monogamia seja a única forma legítima de amar ou ter relações sexuais. As relações não monogâmicas, com acordos claros e honestidade entre parceiros, estão a crescer e refletem uma maior liberdade e autenticidade nas relações humanas.
O que existe atualmente são formas diferentes de organização da intimidade. Há casais que constroem projetos de vida em conjunto e que, ao mesmo tempo, estabelecem acordos explícitos sobre liberdade sexual.
muitos conceitos não encaixam na definição clássica de infidelidade, porque não há uma traição ao acordo, mas uma redefinição do próprio acordo.
Contudo, o discurso público ainda está muito preso a categorias antigas para descrever realidades que já evoluíram.
Quais são as principais razões que levam as mulheres a procurarem relações fora do casamento ou do relacionamento estável?
Muitas vezes as mulheres sentem que, depois de anos a dedicar-se à família, tornam-se mais mães ou cuidadoras do que parceiras. Perdem a conexão com a sua sexualidade e deixam de se sentir vistas ou desejadas pelo companheiro. Procuram então reencontrar-se, sentir-se atraentes e desejadas, o que é fundamental para o seu bem-estar emocional e autoestima. Para muitas, essa redescoberta da feminilidade e do prazer pode ser até um processo de rejuvenescimento pessoal.
Como vê o impacto dos movimentos políticos conservadores e de extrema-direita na liberdade das mulheres?
Acabam por representar um risco real para os direitos conquistados. Promovem uma visão muito rígida e tradicional da família e da sexualidade, impedindo o debate aberto e a expressão livre das mulheres.
Mas é irónico: muitas vezes essa moral rígida é acompanhada por uma hipocrisia, com comportamentos duplos por parte dos seus defensores.
O importante é que a sociedade continue a resistir a estes retrocessos, defendendo a liberdade de expressão e os direitos das mulheres.
Pode-nos falar do conceito de revolução feminina e do seu papel na sociedade atual?
A revolução feminina é fundamental porque, historicamente, são as mulheres que têm de lutar pelos seus direitos. Os homens, em geral, já usufruem deles.
O feminismo, quando bem compreendido, não é uma luta contra os homens, mas sim pela igualdade real entre géneros. Esta revolução é uma força motriz para que a sociedade avance para um futuro mais justo e igualitário, onde todas as pessoas sejam respeitadas.
Quando uma mulher decide viver a sua sexualidade livremente, o que isso representa em termos de poder e liderança pessoal?
Representa uma emancipação que ainda não está concluída e talvez nunca esteja num sentido definitivo. É verdade que as mulheres têm mais acesso hoje à educação, ao trabalho ou à autonomia económica. Isso já aconteceu e está, em grande medida, consolidado.
O que está agora em disputa é outra coisa: o direito a existir fora do julgamento. O direito a viver a intimidade sem que ela tenha de ser validada, autorizada ou socialmente sancionada.
É aqui que a transformação fica mais desconfortável. Porque estamos a falar de poder simbólico, de normas invisíveis, de estruturas sociais que continuam a definir o que é aceitável para uma mulher fazer com o seu corpo e com o seu desejo.
E é por isso que esta mudança não é linear nem pacífica. É uma deslocação lenta do centro de poder dentro da vida íntima.
O que estas mulheres estão a fazer — muitas vezes sem discurso político explícito — é deslocar esse centro. E isso, na prática, significa uma coisa simples e profundamente disruptiva: deixar de viver a sua sexualidade como algo que precisa de permissão social para existir. No fundo, só querem ser felizes.


