O envelhecimento da população ativa em Portugal está a criar desafios estruturais que já se começam a refletir no mercado de trabalho e na competitividade das empresas, segundo alertou recentemente a Eurofirms. Com cerca de 24,3% da população residente com 65 ou mais anos em 2024, as consequências demográficas colocam uma pressão crescente sobre os modelos de gestão de recursos humanos e a continuidade operacional das organizações.
De acordo com dados comparados pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), a proporção de trabalhadores com idades entre 55 e 64 anos aproxima-se de 21% em Portugal, sinalizando uma iminente saída massiva de profissionais experientes nos próximos anos. Além da necessidade de renovar as gerações no ativo, Portugal precisa de trabalhadores, mas não consegue ficar com os seus.
Estes números colocam o país entre as nações europeias com um dos índices mais elevados de trabalhadores mais velhos: segundo relatórios da União Europeia, o país estava em 6.º lugar na UE quanto à percentagem de trabalhadores entre os 55 e os 64 anos em 2023, ultrapassado apenas por países como Alemanha e Itália.
Risco de perda de conhecimentos e escassez de talento
A saída de profissionais seniores expõe as empresas ao risco de perda de know-how acumulado ao longo de anos de experiência, especialmente em setores operacionais como logística, produção e indústria, onde a substituição desses perfis é particularmente difícil. «A experiência da Eurofirms junto das empresas mostra que este fenómeno está cada vez mais visível, mas o mercado de trabalho ainda não está preparado para esta transição», afirma Filipe Ramos, líder nacional de outsourcing da Eurofirms Portugal.
Este envelhecimento ocorre num contexto em que o recrutamento de perfis com competências procuradas continua a ser um desafio — um problema que se soma à diminuição da população em idade ativa e a indicadores que apontam para uma força de trabalho menos qualificada comparativamente com a média europeia. Um estudo recente da Randstad Research indicou que 31,5% dos trabalhadores em Portugal têm apenas o ensino básico ou secundário obrigatório — mais do dobro da média da União Europeia, um fator que agrava a pressão sobre a empregabilidade e a competitividade.
Outsourcing e planeamento como respostas estratégicas
No relatório divulgado, a Eurofirms defende que o planeamento ativo da força de trabalho — antecipando saídas, identificando funções críticas e preparando sucessões — é fundamental para mitigar o impacto demográfico. Neste contexto, o outsourcing é promovido como uma ferramenta estratégica que pode ajudar as empresas a aceder a uma rede mais ampla de profissionais e a preservar conhecimento crítico.
Além disso, medidas de requalificação (upskilling e reskilling) são apontadas como respostas sustentáveis à escassez de talento e à necessidade de adaptar competências às exigências atuais do mercado laboral.
Ligação a tendências mais amplas no mercado de trabalho
Esta análise do envelhecimento da população ativa surge numa fase em que outras tendências laborais também merecem destaque e podem ser ligadas à discussão. Por exemplo, a Eurofirms publicou relatórios sobre o crescimento de talento em setores específicos, como o das tecnologias de informação e comunicação (TIC), que teve um crescimento de mais de 60% no número de profissionais desde 2019 e pode continuar a expandir-se até 12% em 2025 — uma dinâmica que indica oportunidades de emprego, mesmo num mercado marcado pela escassez de mão de obra em geral.
Outro tema que se conecta com a pressão demográfica é a persistente desigualdade de género no trabalho em Portugal, evidenciando que, apesar das mulheres representarem 50% da força de trabalho, ainda enfrentam um gap salarial de cerca de 12%, especialmente em cargos de gestão e direção — uma questão que pode influenciar a composição da força laboral e as oportunidades de retenção de talentos.
Numa altura em que Portugal também figura entre os países da União Europeia com uma das menores proporções de jovens, o desafio de equilibrar uma força de trabalho envelhecida com a necessidade de renovar competências e atrair talento torna-se cada vez mais urgente.


