Escutemos os holandeses

Os holandeses, ou melhor, um pequeno grupo de neerlandeses, tem andado nas bocas do mundo. As razões são bem conhecidas. Trata-se de uma situação estranha para quem conhece os agora chamados Países Baixos. Estudei na Holanda, em Tilburg, e estou grato ao país. Estarei sempre. Conheci uma nação aberta, cosmopolita, culta, organizada. Criei pela Holanda uma admiração que mantenho. Os Países Baixos vão todavia deixando sinais ambivalentes.

Primeiro foram os comentários sobre vinho e mulheres. Estranho é que no mundo do politicamente correto seja possível fazer piadas tão grosseiras. Mas foram feitas. Depois tivemos outras afirmações desbocadas sobre as contas espanholas. Mais uma vez, depois dos verdadeiros finlandeses, temos um nortenho, parte do conjunto de nações já conhecido como o grupo dos “frugais”, a mandar uns recados cá para baixo. A tradição calvinista do trabalho árduo, da poupança e do evitamento do consumo supérfluo ajudam a explicar este desprazer perante o modo de vida do Sul.

Indo para lá da superfície, dois padrões começam a emergir. Por um lado, a continuar assim o charme do soft power holandês vai sofrer e a imagem cosmopolita vai dar lugar à de um país algo presunçoso. Não faço ideia sobre se isso preocupará alguém em Amesterdão mas devia preocupar. Por outro lado, não ajuda a construir uma Europa mais solidária – a qual, em rigor, jamais deverá vir a ser concretizada.

Se é verdade que a sul temos de nos preocupar com as contas, importa não esquecer que, a norte, os holandeses têm construído um paraíso fiscal que prejudica as contas do sul. Nestas euro-guerras todos têm alguns telhados de vidro pelo que, se queremos construir uma Europa trans-nacional, podemos começar por aqui: por criar regras justas que todos compreendamos e aceitemos enquanto europeus. Até lá, tomemos os holandeses como o atual equivalente dos parresiastas da antiga Grécia: aqueles que dizem umas verdades desagradáveis de forma desagradável, mas que de vez em quando não nos faz mal nenhum ouvir.


Por Miguel Pina e Cunha, diretor da revista Líder

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