Esqueça o Novo Normal!

Tem sido muito interessante acompanhar as ondas de atividades, comentários e webinars online nos últimos dias. Começamos por focar na gestão de crises, passamos para o como sobreviver e as políticas de suporte a adotar e, agora, chegámos às discussões sobre como será a retoma.

Este tempo todo, estamos a debater e a especular sobre o novo normal. Muitas ideias, excelentes debates e grandes apresentações, mas continuamos com a pergunta: o que é o novo normal?

Gosto muito de uma frase de Wayne Dyer que nos ajuda a mudar de perspetivas: “if you change the way you look at things, the things you look at, change.” (Se mudar a maneira como olha para as coisas, as coisas para as quais está a olhar, mudam.)

Voltemos ao novo normal. Se procurarmos a definição de normal, vamos encontrar: “Normal é um adjetivo que qualifica algo como comum, regular e usual, significando que não foge a padrões ou à norma. Agir com normalidade é o mesmo que seguir os comportamentos que são esperados de acordo com determinada situação, por exemplo. Um indivíduo normal não costuma destacar-se dos demais ao seu redor, pois apresenta caraterísticas comuns ao seu grupo. Quando se diz que determinada pessoa é normal, quer dizer que apresenta um comportamento e aparência que é socialmente aceitável e comum”.

Artie Isaac, um colega de trabalho na Vistage, partilhou cinco insigths sobre o tempo que estamos a viver e quero expô-los porque acredito que temos que esquecer o novo normal.

1) W.A.I.T – Why am I talking?
A grande qualidade de um líder é ouvir e não falar, simplesmente por falar. Quem é que temos ouvido nesta crise? Líderes tomam decisões, isso é o que fazem. Um líder competente toma decisões corretas. E nesta fase de retoma, vamos precisar cada vez mais de tomar as decisões acertadas. Mas confundimos muito gerir com liderar. E não escutamos, pois algumas vezes temos a certeza que sabemos as respostas.
Gerimos as coisas, os números, os processos, as máquinas. Eles não pensam, apenas executam o que decidimos fazer com elas. Gerir é sobre fazer. O conceito puro e claro do Human doing.
Liderar é sobre pensar. As pessoas pensam e refletem. Procuram nos seus líderes fontes de inspiração. São imprevisíveis e adaptam-se ao ambiente e às suas circunstâncias. São instáveis, nos humores, performance, alegria e senso comum. São seres humanos. Liderança é sobre o SER – Human being.
Líderes de sucesso percebem que o importante para a sua marca e o seu legado não é que faz, mas sim quem é.
Deixo três perguntas inspiradas por Srikumar Rao, um speaker na Vistage. – Que líder quer ser? – Qual o tamanho da distância entre onde está e onde quer estar? – Como pretende transcender essa distância?

2) Somos o capitão da nossa nave
Em tempos de águas turbulentas, um navio continua a navegar. Assim como um avião continua a voar, mesmo quando atravessa turbulência. Com milhas e milhas de incansáveis viagens pelo mundo, confesso que senti em alguns momentos um pouco de medo, desespero e uma sensação completa de falta de poder.
Estava dentro de um tubo metálico a 10mil milhas do chão, navegando a 985Km/h sobre o oceano. Não tinha controlo de nada, a não ser da minha mente. É nestas horas que a pessoa com maior competência e voz serena traz confiança e tranquilidade. “This is your captain speaking. Apertem os cintos e mantenham-se nos seus lugares até a luz apagar. Iremos fazer pequenos desvios para promover um maior conforto”.
Não se esqueça: é o capitão da sua nave, do seu negócio e da sua vida. Como tem demonstrado confiança nos seus colaboradores? Nestas horas de incerteza, a única coisa certa, é que a chefia será a fonte de confiança. É em si que se vão espelhar para decidir se acreditam nos seus atos, ou não.
Gostava de partilhar um gráfico sobre a confiança nos CEO elaborado em maio deste ano pela Edelmann no relatório “Trust Barometer”. Cerca de 65% das pessoas no mundo esperam que os seus CEO e líderes tenham mais iniciativa para controlar os negócios. Jã pensou se está a liderar ou gerir?

3) Rodeie-se do que precisa para sair desta situação
Este parece o mais simples de fazer. Contudo, líderes e CEO têm dificuldades de rodear-se das pessoas e recursos que precisam. Inúmeros webinars e informações estão disponíveis online e sentimo-nos bombardeados com ideias brilhantes. Mas qual escolher? Precisamos estar com as pessoas certas.
E digo pessoas com uma agenda livre. O que é que isto significa? Pessoas que possam testar as suas ideias antes de as colocar em prática, que possam dar feedback duro sem se preocupar em ferir os seus sentimentos. Pessoas que tenham um único desejo: ajudá-lo a ter os melhores resultados.
Não é hora de navegar sozinho. Procure um grupo de aconselhamento que o ajude a sair desta situação o mais rápido possível. Não precisa de stressar, ficar ansioso e ter medo de tomar decisões erradas. Ainda que a solidão no poder seja uma realidade, agora ainda mais intensificada, não precisa de estar sozinho.

4) Defina Normal
Muitos estão a dizer: quero voltar para o Normal. O Normal é um série de expectativas que criamos: ir ao restaurante, viajar com a família, ir ao supermercado ou visitar um familiar ou amigo.
Estamos a renegociar as nossas expectativas para ter algo que gostaríamos de voltar a ter, ou adiantando algo que não teríamos.
Mude o seu pensamento. Normal não será o amanhã. Normal não é o que experimentámos ontem. Normal é o que vivemos hoje. Talvez goste ou não, mas só lhe resta encarar. Isto é o normal. Saber identificar as oportunidades que estão a aparecer, atencipar, adotar novas coisas e adaptar a realidade, faz-nos sentir o controlo da situação. Um grande amigo, Luis Soares explica isso numa frase brilhante: “A mente é como um páraquedas. Funciona melhor quando está aberta”.

5) A empatia
É nesta altura que os líderes descem do seu pedestal. É hora de entender a realidade dos seus colaboradores. Está a ter oportunidade de ver as suas casas, os seus parceiros, o cão, os filhos, os hábitos. Viu como eles vivem.
Antes, não queríamos saber muito sobre as suas vidas e famílias. Não faziam parte dos negócios. Agora, vivemos na era do “Family Cowork”. Em novembro de 2017, rimos de um vídeo viral, quando uma criança invadiu a conferência, em que o seu pai, professor, fazia um live na BBC britânica. Hoje, mostramos a nossa casa, os nossos filhos, a nossa vida. E isso é normal. Somos humanos.
Conheço um grande exemplo de um CEO, que organizou uma conferência para os filhos dos seus colaboradores. O objetivo era deixar as crianças fazerem as perguntas que os seus pais talvez não pudessem resolver. Um grande exemplo de coragem e empatia.
Os nossos colaboradores olham para nós e esperam respostas. Talvez te perguntem: quando vamos voltar ao normal? Temos que aprender a liderar colaboradores e considerar o seu centro de importância: as suas famílias.

O novo normal. O que mais gosto nessa frase não é o normal, mas sim o novo. Estamos a viver uma oportunidade única de estarmos todos, literalmente todos com o mesmo desafio. E somente com ações conjuntas, vamos sair mais fortes, maiores e melhores pessoas.

Qual o novo que enquanto líder quer criar nas suas empresas. Aqui vai a minha lista para completar:
Nova gestão de talentos.
Novos processos de recrutamento e formação.
Novos rituais na empresa.
Novas políticas.
Novas regras.
Novos hábitos.
Novos processos.
Nova organização.
Nova orientação.
Novas experiências.
Para colaboradores, parceiros, stakeholders e clientes:
Novo ecossistema.
Novos fornecedores.
Nova maneira de comunicar.
Novo valor ao cliente (tanto qualitativo quanto quantitativo).
Nova estratégia de negócio.
Novos canais de empatia.
Nova narrativa.
Nova vida pessoal.

É hora de reinventar-se, ser humilde e aprender. Aprender a esquecer o que sabemos e aprender o novo. A ser mais humano e menos material. A ser mais presente mesmo distante. É hora de testar, acertar e errar. E testar, acertar e errar de novo.


Por Gustavo Santos, chair of CEO Advisory Board Vistage Portugal – Lisbon

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