Esta startup quer pô-lo a viajar novamente

Cidadão do mundo, apaixonado pela natureza, aventura e surf. Guilherme Melo Ribeiro está agora focado na YourBestLife, startup que co-fundou com a missão de humanizar o mundo através das viagens. No primeiro ano, adquiriu 1 milhão de subscrições de mais de 190 países, tendo sido considerada pela Google uma das mais promissoras startups.


Guilherme Melo Ribeiro é um jovem empreendedor e storyteller que teve o privilégio de conhecer o mundo desde cedo com os seus pais viajantes, onde descobriu a paixão pela fotografia e vídeo.

Empreendedor desde criança – das clássicas limonadas à venda de chapéus para amigos – até fundar uma agência criativa enquanto terminava o mestrado em Empreendedorismo na Universidade Católica, transformando a sua paixão na “The Flying Man”, empresa que rapidamente conquistou algumas das maiores marcas como L’Oréal, Four Seasons, Mercedes. A sua abordagem autêntica e criativa fê-lo ganhar vários prémios, festivais de cinema internacionais e destaques como National Geographic Exodus Talent 2018.

O que é a YourBestLife?
YourBestLife é uma startup que oferece ferramentas e conhecimento para guiar as pessoas a estarem constantemente no comando da sua felicidade, utilizando as viagens como gancho. Através de uma plataforma online, dedica-se à humanização da sua comunidade, nesta era da tecnologia e automação.

Como é que a YourBestLife passa de um projeto pessoal para um movimento global?
A empresa nasce de uma evolução natural e transformação do meu projeto HumanEyes – um projeto de histórias visuais de viagens humanas à volta do mundo. Depois de perceber o impacto que viajar de mente aberta e curiosa teve no meu desenvolvimento pessoal, juntei-me ao Afonso (co-fundador), que tem background em Digital Marketing, para multiplicarmos estes ensinamentos e oportunidades ao maior número de pessoas possível, de uma maneira sustentável.
Foi aí que surgiu a primeira ideia: o “Life-Changing Program”, uma viagem de seis meses para sete pessoas à volta de dez países – os mesmos que o HumanEyes tinha concluído.
A ideia foi crescendo e começámos a perceber que o problema que estávamos a resolver não se resumia apenas às viagens, mas sim à falta de consciência e de controlo que as pessoas têm na sua vida – várias são as alturas em que somos apanhados e deixamos a vida simplesmente acontecer.
O simples facto de as pessoas imaginarem como seria meterem a sua vida em pausa durante seis meses faz com que parem e reflitam, e isso tem um impacto enorme. Por isso, começámos a desenvolver uma plataforma para dar resposta e continuação a esta necessidade de reflexão pessoal e consciencialização global, começando com um relatório profissional de personalidade, palestras online com convidados bem-sucedidos e uma plataforma para conectar toda a comunidade. À medida que recebíamos mais feedback fomos desenvolvendo novas ferramentas e funcionalidades.
Temos agora identificada a oportunidade de mercado e o nosso produto validado por uma comunidade de quase duzentos países. O próximo passo é transformar a plataforma numa mobile app e expandir sustentavelmente.

De que maneira é que esta pandemia afetou a empresa e que medidas estão a tomar para contornar essa realidade?
Da mesma maneira que afetou todas as outras empresas e pessoas. O que vai realmente ditar o impacto desta pandemia para o futuro é a maneira e a agilidade com que respondemos no curto prazo, e a capacidade de transformação para agarrar as oportunidades que surgem sempre nestas crises.
Tenho um orgulho enorme na capacidade de adaptação da nossa equipa, e de como, em tão pouco tempo, nos conseguimos reinventar, mudar o foco e lutar para procurar e agarrar as oportunidades que estão e vão surgir.^Obviamente que tivemos de fazer algumas reestruturações e gerir melhor do que nunca os nossos recursos, que como em qualquer startup, são escassos e há sempre um grande custo de oportunidade na utilização e priorização dos mesmos. Mas estamos focados no longo-prazo, e otimistas.

Qual é o impacto positivo da YourBestLife no contexto de uma pandemia?
Já desde o início do projecto HumanEyes que temos vindo a comunicar que o ritmo de vida acelerado que vivemos nos desfoca do essencial. E a viagem, como saída da zona de conforto e da rotina, é como um despertador para avaliarmos o que estamos a fazer com as nossas vidas e como nos inserimos em comunidade. Quem nunca teve uma viagem de avião à janela e parou para avaliar toda a sua vida? Tem um impacto enorme, que queremos multiplicar, despertar e dar continuidade para a ação, através da nossa app e da nossa comunidade. Nunca a nossa missão fez tanto sentido e foi tão precisa como agora.
O Documentário que lançámos há uma semana [ver no final da entrevista], que começou a ser trabalhado há seis meses, e não podia encaixar melhor com o que se está a viver agora. Nunca antes tinha o mundo sido obrigado a parar desta forma. As pessoas vão sair mais sensíveis e mais conectadas com auto-conhecimento e reflexão. E pode ser que utilizemos esta pausa para voltarmos para uma vida mais sustentável e consciente.

Como é que se mantém a equipa motivada em momentos de calamidade?
Tudo isto é maior do que nós, e é importante pôr as coisas em perspetiva. Não podemos controlar tudo o que a vida nos traz, mas controlamos a maneira como reagimos. É uma altura ideal para perceber quem está all-in com a missão da empresa e quer lutar por algo maior do que eles individualmente.
Tivemos de interromper o nosso Life-Changing Program a meio – que nos demorou dois anos a preparar e que finalmente estava a acontecer (e com grande impacto). A reação dos sete membros da comunidade ao saber que uma das oportunidades das suas vidas ia ser interrompida foi inspiradora. Apesar de estarem completamente desconectados com o mundo exterior (estavam a acampar na África do Sul), perceberam imediatamente que se tratava de um problema maior do que eles e deram-nos força e inspiração de volta. A nossa missão é tão verdadeira e importante que todas as pessoas envolvidas se motivam umas às outras.

Sendo uma startup, num momento de crise, vê o seu futuro comprometido?
É um facto que a maioria das startups falham. Que se começa sempre com recursos muito limitados. Mas uma boa gestão é isso mesmo – gerir recursos limitados. E por isso, apesar de todos os desafios inerentes a empreender uma ideia do zero (e não me interpretem mal, são muitos), acho que numa altura destas as startups têm vantagens: a flexibilidade e capacidade de se reinventarem. Ainda não têm vícios de uma empresa grande e são capazes de agir mais rápido. Como um cruzeiro e um barco pequeno. As empresas grandes, os cruzeiros, não têm a capacidade de virar o barco rapidamente e mudar de rota se por acaso vier uma tempestade. Já as startups têm essa agilidade. É preciso é garantir que conseguem a gasolina suficiente para chegar a terra. Esta metáfora não é minha, mas já não me lembro onde a li.

Esta é uma oportunidade para reinventar e reafirmar objetivos?
Ambos. Os valores e missão de uma empresa servem precisamente para definir os novos caminhos e para ajudar a empresa a se reinventar sem perder a identidade. A nossa missão de reforçar o lado humano das pessoas nunca mudou desde o início do HumanEyes, e ajuda-nos a definir novas estratégias adaptadas a cada contexto.

Como é que um jovem líder pode ter um impacto positivo nesta fase?
É uma boa pergunta. Diria que as gerações mais velhas têm o papel importante da experiência, já que passaram por várias mudanças, radicais, da maneira como vivemos em sociedade. E as gerações mais jovens têm maior capacidade de adaptação. Portanto, um jovem líder, aliás, como todos os líderes, têm de ter a humildade e capacidade de ouvir e retirar o melhor de cada um, neste caso, de cada geração.

Que líder é que o inspira?
Não tenho identificadas as pessoas específicas que me inspiram, porque retiro inspiração de praticamente tudo e todos os que me rodeiam. No entanto, pela proximidade e convivência, tenho de destacar o meu pai, que é um gestor com uma visão a longo-prazo impressionante, e tem uma experiência que vale ouro, especialmente enquanto chairman da YourBestLife – não poderia ser um bom empreendedor se não a aproveitasse.
Inspiram-me líderes que são muito bons naquilo que fazem, especialmente quando a cultura que os rodeia não os acompanha ou compreende, mas que mantêm sempre humildade que os permite continuar a apreender e evoluir. Um exemplo excelente é o rapper Sam the Kid.

Consegue imaginar o que poderá ser o seu negócio daqui a dois anos?
Consigo e tenho de imaginar. Só assim é que podemos traçar um caminho para lá chegar. Queremos impactar milhões de pessoas e redefinir o conceito de uma “best life” – uma vida balançada cheia de relações autênticas, realizados com o trabalho e darmos de volta ao mundo. Queremos construir um negócio sustentável com essa missão. Semelhante ao que a startup Calm é hoje, mas com a nossa maneira de comunicar e a nossa missão.

Que conselho daria ao portugueses que lideram startups?
Em primeiro lugar – perspetiva – estarmos gratos por termos saúde (que espero que seja o caso) e percebermos que é um problema maior do que nós, que está a afetar o mundo inteiro. Depois, reavaliar minuciosamente toda a parte financeira da empresa e questionar todas os gastos e recursos com o objetivo de estender runway sem depender do mercado, até a economia começar a normalizar. E por último, analisar de que maneiras é que a empresa se pode reinventar/adaptar, e que oportunidades é que vão surgir pela mudança de comportamento que esta crise está e vai gerar nas suas respetivas indústrias. Ouvi um discurso muito interessante de um CEO para a sua equipa que reforçava que em termos económicos esta crise não é inédita. O mercado é que obriga as empresas a se reinventarem para o acompanhar, e quem não o faz, corre o risco de se tornar irrelevante, como foi o caso do gigante Blockbuster que não se reinventou e vimos outro gigante nascer, a Netflix.

E aos portugueses em geral?
Acredito plenamente que somos um País especial. Somos autênticos, agimos com sentimentos verdadeiros e paixão, algo cada vez mais escasso nas sociedades ditas desenvolvidas. Portanto não tentem ser iguais aos outros só porque “tem de ser, e é assim que se faz”, mantenham a nossa identidade.
Temos uma capacidade de nos “desenrascar” muito maior que noutros países, como por exemplo do norte da Europa. Então, que usemos essa capacidade nesta altura de crise, em que os processos e regras não são tão relevantes por não permitirem flexibilidade.
E depois, que voltemos mais rigorosos e disciplinados. Depois, quando isto passar.

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