Estamos a ir juntos?

Provavelmente não. As sociedades ocidentais têm nos anos recentes percorrido um caminho interessante, no sentido em que os chineses falavam de tempos interessantes. Este tem sido um caminho de afastamentos polarizadores. Senão vejamos. Depois de o espetro político ter sido dominado pelo centro, isto é, por partidos com valores suficientemente próximos para permitir o diálogo, os últimos tempos têm assistido à emergência de propostas mais extremas.

Nesta nova era de extremos prevalecem as mensagens “fortes”. Mensagens fortes são rejeitadas pelo outro. A experiência empírica sugere que a quantidade de vezes que os jornais se referem a partidos das extremas (direita e esquerda) não tem comparação com o que aconteceu no passado. Líderes políticos idiossincráticos, com as referidas mensagens “fortes”, substituem os burocratas cinzentos. O politicamente correto dá lugar ao politicamente incorreto e à reação ao mesmo. Em Portugal, o direito do outro à opinião, mesmo que disparatada, é substituído pela necessidade de conduzir esse outro ao tribunal para pôr a opinião na linha. Sabe-se como as coisas acabam quando assim começam.

Ou seja, não parece que estejamos a ir juntos mas a bifurcar. Uns para um lado, outros para o outro, sem misturas. Estas divisões políticas são acompanhadas por novas e emergentes bifurcações, nomeadamente entre os preparados para a disrupção digital e os outros. Para baralhar as contas, é difícil a alguém perceber de que lado está, dos vencedores ou dos vencidos digitais.

Um ponto parece certo. Neste mundo bifurcado é importante encontrar espaços para o diálogo. Não um diálogo morno mas uma polifonia de vozes harmoniosas e dissonantes. A Líder tem procurado fazer esse caminho, nomeadamente apoiando um evento, na Nova SBE, dedicado à exploração da lógica paradoxal como caminho alternativo à bifurcação. Um paradoxo é uma combinação de opostos. Esses opostos contradizem-se mas definem-se mútua e construtivamente. Eu preciso do outro para saber quem sou; não contra ele mas enriquecido pela diversidade que o outro traz. É assim na natureza, na música, nas organizações. Assim deverá ser na sociedade como comunidade de pessoas diferentes, que pensam diferente, valorizam a diferença, aceitam princípios comuns e sabem que da diferença nasce o progresso. Estamos a ir juntos? Queremos ir juntos?

Por: Miguel Pina e Cunha, diretor da revista Líder

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