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Home Entrevistas “Estamos a ‘milésimos de segundos’ de não conseguir manter o planeta” – Sofia Santos, economista especialista em financiamento verde

Entrevistas

“Estamos a ‘milésimos de segundos’ de não conseguir manter o planeta” – Sofia Santos, economista especialista em financiamento verde

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18 Abril, 2022 | 9 minutos de leitura

A especialista em financiamento verde, climático e sustentável, quer deixar uma marca positiva na sociedade e no sistema económico. Para Sofia Santos a felicidade é agir para fazer os outros mais felizes e essa urgência na ação leva-a a afirmar perentoriamente que estamos no limite de salvar o planeta. Em entrevista à Líder, a fundadora […]

A especialista em financiamento verde, climático e sustentável, quer deixar uma marca positiva na sociedade e no sistema económico. Para Sofia Santos a felicidade é agir para fazer os outros mais felizes e essa urgência na ação leva-a a afirmar perentoriamente que estamos no limite de salvar o planeta. Em entrevista à Líder, a fundadora da Systemic, empresa que desenvolve projetos na área da sustentabilidade, acredita que para uma economia prosperar é necessária uma maior consciência ética e de justiça em cada um de nós. Sofia Santos é também cocoordenadora do primeiro curso em Portugal para executivos em Sustainable Finance do ISEG, onde é professora associada.

Durante o seu percurso, que episódios a marcaram e a encaminharam profissionalmente para as áreas ligadas ao desenvolvimento económico, ambiental e social?

Dois episódios. O primeiro; em 1998, quando eu trabalhava no Research Department do Merrill Lynch em Londres, na equipa de Estratégia Global, a dada altura, o meu chefe que tinha 28 anos (e eu 22), exclamou: “Ótimo! A taxa de desemprego aumentou!” O que, na teoria económica e em tempos de inflação, faz sentido, pois aumento de desemprego implica pressão à baixa da inflação e isso cria pressão ao aumento dos preços. Apesar de a teoria económica justificar esta abordagem, achei que não fazia sentido nenhum e perguntei-lhe: “Se fosse a tua mulher a ser despedida, dirias o mesmo?”, e ele virou-me as costas. O segundo; em 2001, tive a sorte de ir trabalhar para a CELPA [Associação da Indústria Papeleira], estando o Luís Costa Leal como secretário-geral. Aí tomei contacto com o tema da gestão florestal sustentável e fui muito influenciada pelo carácter e forma de estar do Luís Leal, que me inspirou imenso em muitas decisões que tomei daí em frente.

Quais as principais resistências que tem encontrado no caminho para se alcançar uma economia verde, circular, justa e inclusiva?

Tenho encontrado os receios naturais dos seres humanos: medo, receio à mudança, querer ser aceite pelo outro, sentido de oportunidade. Implementar verdadeiramente os temas da sustentabilidade vem mexer com a ordem existente na forma de “fazer as coisas” e, por isso, tudo o que é novo pode trazer oposição e traz algum medo. Esse medo traz um receio em se defender um tema que ainda não é bem aceite por todos, porque, no fundo, todos ambicionamos ser percecionados como “dizendo as coisas certas nos sítios certos”. E estamos habituados a potencialmente sofrer algumas consequências negativas se não o fazemos bem, o que nos pode prejudicar. Mas também me tenho cruzado com pessoas muito resilientes, motivadoras e que gostam de fazer acontecer e não têm receio de enfrentar e justificar a novidade. Seria muito melhor se mais fossem assim.

Como se combatem esses entraves, para que possamos ter uma economia verdadeiramente mais próspera?

Com capacitação sobre a importância que cada um de nós tem como ser humano na mudança das organizações e das sociedades, ou seja, com o aumento da nossa consciência como seres humanos e humanistas, e com um aumento de conhecimento sobre os temas ambientais e sociais no mundo. Com formação sobre a importância que os temas da sustentabilidade têm para a economia, finanças, sociedade e pessoas. Com o aumento da consciência ética e de justiça em cada um de nós.

Que histórias a marcaram no esforço que tem vindo desenvolver na esfera empresarial?

Tenho-me cruzado com pessoas que são excecionais e com as quais acabo por criar relações de amizade. Existem vários casos que me marcam positivamente pelo envolvimento e evolução da organização no seu empenho com o tema e na ambição e ações realizadas. A Companhia das Lezírias e o Crédito Agrícola são algumas das organizações que demorei anos a tentar conseguir ajudar. Mas trouxe uma satisfação especial pela evolução de práticas alcançadas e pelas relações estabelecidas com muitos dos colaboradores.

E quais as menos positivas?

Há também muitas pessoas que não querem mudar pois estão na sua zona de conforto e esperam que sejam os outros a agir. Por vezes, penso que estando nós no século 21, seria de esperar que fôssemos mais desenvolvidos e mais preocupados com “o outro” e com o impacto que queremos deixar neste mundo. Mas esse processo é um processo individual e todos nós temos os nossos timings.

Que tipo de investimento é necessário no setor ambiental e para onde deve ser direcionado?

Essencialmente para as áreas da produtividade da energia, economia circular e serviços dos ecossistemas. Ou seja, para as áreas das energias renováveis, da eletrificação, da eficiência energética no equipamento e nos processos, na diminuição da produção de resíduos e desenvolvimento de produtos e serviços reutilizáveis e “servitizáveis”. No ecodesign e na valorização da natureza como entidade que é capaz de gerar um conjunto de serviços que o mercado não valoriza, mas que devia valorizar, pois é o que nos permite ter alimentos, água, ar limpo entre muitos outros. Quem tem terrenos onde não pode construir, porque na realidade produzem serviços de ecossistemas, não deveria ser remunerado pelos serviços que está a prestar a outros setores? Eu diria que sim.

A União Europeia tem o objetivo de zero emissões líquidas até 2050. Acha exequível?

Mais uma vez, as pessoas. Seria exequível se todos nós quiséssemos fazer esse esforço. Tecnologia há. Dinheiro também. O que falta é uma capacidade de as pessoas – consumidores, empresários, setor público e políticos – serem pró-ativas e capazes de encontrar consensos. É por isso que a regulação europeia começa a ser tão expressiva, para nos forçar a todos a acelerar nestes processos de decisão empresarial e de consumo que estejam mais ligados com a diminuição do consumo de recursos e diminuição de emissões de CO2.

Qual o papel dos investimentos públicos e privados durante este caminho?

É essencial. Há muito dinheiro pelo mundo fora. A aposta numa economia verde, ou seja, num modelo económico que seja capaz de criar emprego e diminuir a sua pegada ecológica e ser neutro em carbono até 2050, vai implicar investimentos adicionais em várias áreas e em todos os setores. Como aprendemos na economia, o investimento faz subir o PIB e cria emprego. Por isso, se conseguirmos que os setores privado e público invistam em projetos verdes, a economia vai prosperar e empregos serão criados. Bem sei que alguns empregos serão também eliminados neste processo de transição, mas sempre foi assim em épocas de mudanças estruturais da economia – e hoje temos mais conhecimento do que nunca. O fundamental é antecipar os setores em que esses empregos vão deixar de existir e capacitar as pessoas para que possam adaptar o seu conhecimento técnico para outras áreas do futuro.

Chegou a referir a criação de um rating ambiental para as empresas. De que forma é que esta situação está a ser posta em prática?

Estou a trabalhar com o Crédito Agrícola precisamente nisso, e, desde julho de 2021, qualquer empresa que solicite um empréstimo a este banco terá de preencher questionários para se compreender o seu alinhamento com a sustentabilidade. Isto, por um lado, ajuda as empresas a anteciparem muitas das exigências que os próprios financiamentos europeus irão ter já no próximo quadro comunitário, e ajuda a preparar a sua gestão e práticas para conseguirem dar as respostas que são necessárias para se ter bons projetos. Por outro, os bancos irão necessitar de compreender a percentagem de empréstimos que estão alinhados com a sustentabilidade, pois os seus requisitos de capital estarão associados a essa informação. Ou seja, bancos com mais empréstimos alinhados com a sustentabilidade serão vistos pelos supervisores como bancos com menos risco, logo mais seguros.

Como se explica que todos têm uma tarefa a desempenhar neste objetivo global de sustentabilidade?

É difícil explicar que estamos a “milésimos de segundos” de não conseguir manter o planeta com condições que permitam a melhoria da qualidade de vida dos humanos. Sinceramente, acho que só conseguimos quando as pessoas sentem que, de facto, têm o dever como cidadãos de proteger os mais desfavorecidos e o futuro. Há um vídeo de um discurso de dois minutos do Paul Polman nas Nações Unidas que explicita o que estou a dizer. Ou seja, queremos ser responsáveis pela má qualidade de vida das pessoas noutros planetas? Se não temos de agir já. Vale a pena ver este vídeo.

“Felicidade é aquilo que ganhamos pelo agir.” De que forma é que esta frase de Adam Smith, filósofo e economista britânico, ganha eco em si?

É o meu drive do dia a dia. Eu só me sinto feliz se agir. Se conseguir criar algo melhor a alguém, se conseguir fazer com que alguém se sinta melhor, se sentir que estou a fazer o que consigo para cuidar das pessoas e do planeta. Parece muito poético e cliché, mas é a pura verdade. E, ao longo dos anos, aprendi a gostar de pessoas, e gosto de contribuir para a felicidade delas, reconhecendo que nem sempre o consigo fazer. Também sou humana e com muitos defeitos, mas com coração aberto para ser cada vez um melhor ser humano.

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