Estaremos a olhar para os problemas errados?

Lendo há dias um artigo de Andrew Hoffman, da Universidade do Michigan, encontrei estes números compilados pelo autor: antes da pandemia 40% dos americanos não dispunham de capacidade para responder a uma emergência de 400 dólares; 78% dependiam do ordenado do mês, 44% tinham rendimentos anuais inferiores a 18 mil dólares; 42% tinham poupado menos de 10 mil dólares para a reforma. A pandemia colocou estas pessoas na mão do governo.

Talvez estes números ajudem a explicar a preferência de milhões de eleitores por um candidato desqualificado mas orientado, na perspetiva dos seus eleitores, para os problemas reais das pessoas. Eis um exemplo: o primeiro americano votante de Trump que conheci era uma professora universitária proveniente de uma família dona de um pequeno negócio. Perante a enxurrada de comentários críticos, argumentava ela que Trump, ao contrário dos outros, se preocupava com pessoas como os seus familiares. Também é possível que os bons resultados de Trump em grupos minoritários, que por isso “deviam” ser anti-trumpistas, mostrem que o que as pessoas esperam é ser tratadas de forma igualmente justa por políticos que resolvam os seus problemas em vez de inventarem novos problemas em torno de fossos identitários. Não é preciso ter nenhuma simpatia por Trump (e eu não tenho, só para esclarecimento), para perceber o ponto.


Os grandes problemas – a pobreza, a desigualdade, o ambiente – precisam de realismo e de uma grande aliança entre o Estado, um capitalismo responsável (e aceitemos que o capitalismo é o pior dos sistemas excluindo todos os outros, como se lê no recente livro Deus e o Mercado, um diálogo entre Vítor Melícias e João César das Neves, moderado por Nicolau Santos) e uma sociedade civil rica em ideias diferentes mas unida pelo diálogo e não dividida pela gana polarizadora. Quando os adeptos de um lado se propõem censurar aqueles que, na sua perspetiva, pensam errado – como por cá já se vai ouvindo – estamos mal. Só falta que também comecemos a chamar deploráveis àqueles que votam nos partidos errados.

 

 


Por Miguel Pina e Cunha, diretor da revista Líder

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