Estranha forma de liderar

Vamos divulgar uma forma de liderança nova, totalmente portuguesa e que pode ser um exemplo de… como não liderar. Refiro-me à falada substituição do Chefe do Estado Maior da Armada. Vejamos o que sabe o comum dos mortais (se é que alguém percebe o que se passou).

O almirante Mendes Calado é o Chefe de Estado Maior da Armada. E tem, à sua frente, um tempo ainda considerável de mandato (até março de 2023). Porém, por algum motivo que pode ser compreensível, embora totalmente inadequado, o ministro da Defesa terá entendido que o almirante devia ser exonerado a fim de ser substituído por Gouveia e Melo, vice-almirante e herói da task-force das vacinas.

Henrique Gouveia e Melo, se esperar pelo fim do mandato de Mendes Calado, já não terá condições (de idade) para ascender à posição de Chefe do Estado Maior da Armada, o que se resolveria com a exoneração do atual.

Tudo isto é confuso, mau de mais para ser verdade e completamente absurdo. Digamos que Gouveia e Melo merece uma promoção, um reconhecimento, o que for; mas certamente não à custa de um camarada de armas que parece não ter qualquer motivo para ser corrido das funções que ocupa.

Acresce – e esse é outro mistério – que parece que o Presidente da República não sabia do arranjo. (Saberia o primeiro-ministro? Seria tudo obra do ministro da Defesa?) É estranho, para não dizer mais. De qualquer modo, Marcelo reuniu na semana passada João Gomes Cravinho (Defesa) e António Costa e, no fim, disse que os equívocos estavam esclarecidos. Pelo meio recordou que era Comandante Supremo das Forças Armadas e que estas substituições têm de passar por ele.

E agora?

Agora conseguiu-se algo de extraordinário: o almirante CEMA ficou fragilizado; Gouveia e Melo, mesmo que acabe por ir para Chefe do Estado Maior, fica com a legitimidade afetada; o  ministro da Defesa fica numa posição periclitante em relação às chefias militares; o primeiro-ministro, não se percebe se manda alguma coisa no Governo, e o Presidente da República (que diz ter esclarecido o equívoco) foi acusado de estar a par de tudo desde o início, ficando também numa situação desconfortável.

E aqui se vê como uma decisão consegue deixar uma série de dirigentes em maus lençóis. Razão tinha Luiz de Camões quando escreveu que “um fraco rei faz fraca a forte gente”. Resta saber quem iniciou tão desastroso processo.


Por Henrique Monteiro, Jornalista e antigo Diretor do Expresso

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