Da deficiência à longevidade, passando pela reconversão profissional e pelo combate ao preconceito etário, líderes empresariais defenderam uma transformação profunda da cultura organizacional durante um debate promovido na 'Leading People', que aconteceu a 21 de maio.
O consenso foi claro: diversidade e inclusão não são iniciativas paralelas são condições para o futuro das empresas.
No debate participaram Joana Queiroz Ribeiro, Pessoas e Organização da Fidelidade, Filipa Gamanho Esteves, HR Country Senior Director & Executive Committee Member da Capgemini, e Mónica Chaves, founder e CEO da Brandkey e consultora da Idade Maior. A conversa foi moderada por Rita Rugeroni Saldanha, Diretora de conteúdos da Revista Líder

«Não há magia que nos valha»
A partir do tema da inclusão de pessoas com deficiência nas empresas, Joana Queiroz Ribeiro deixou uma mensagem direta: a inclusão não acontece por acaso nem apenas por boa vontade. «Eu acredito que é possível fazer magia, mas também sei que se esperarmos que a magia faça acontecer, não vai acontecer», afirmou.
Para a responsável da Fidelidade, o ponto de partida tem de ser estratégico e cultural. «As organizações têm de saber muito bem o que querem fazer, têm de ser muito determinadas na forma como querem fazer», defendeu, sublinhando a importância de preparar não apenas os processos de recrutamento, mas sobretudo as equipas que vão integrar pessoas com necessidades específicas.
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A responsável alertou ainda para os riscos da generalização quando se fala de diversidade e inclusão. «Nós não podemos ter a tentação de querer colocar uma incapacidade física na mesma página de discussão de uma deficiência cognitiva», afirmou, defendendo abordagens adaptadas a cada realidade.
Mais do que políticas formais, Joana Queiroz Ribeiro destacou a importância da cultura humana dentro das organizações, defendendo a necessidade de construir equipas mais cuidadoras, generosas e próximas das pessoas.

O talento não tem um percurso ‘certo’
Também Filipa Gamanho Esteves defendeu a necessidade de desconstruir ideias pré-concebidas sobre talento, sobretudo no setor tecnológico. «A narrativa de que para ter sucesso em IT teria de ser de engenharia informática, muito jovem e de determinada faculdade não é real», afirmou.
Na Capgemini, explicou, mais de 30% dos colaboradores não vêm de áreas tecnológicas. Há profissionais oriundos de hotelaria, sociologia, educação de infância ou outras áreas sem ligação inicial ao setor.
«O que fazemos é investir em competência, em potencial e em capacidade de aprender», explicou. A diversidade, acrescentou, não é apenas um valor cultural, mas parte do próprio modelo de negócio. «Quanto mais diversa for uma equipa, mais eficiente vai ser, mais qualidade vai ter e mais interessante é trabalhar.»
A diretora destacou ainda a importância da diversidade geográfica e cultural, dando como exemplo os centros tecnológicos da empresa no Fundão e em Évora. «Alguém de uma aldeia perto do Fundão olha para como se programa de forma totalmente distinta de alguém em Lisboa», afirmou.

Quando a diversidade deixa de ser teoria
Filipa Gamanho Esteves partilhou a história de Rui, colaborador da Capgemini diagnosticado recentemente com esclerose lateral amiotrófica (ELA). O caso tornou-se um exemplo interno de mobilização coletiva e empatia organizacional.
Numa town hall habitualmente centrada em indicadores financeiros e resultados, a empresa decidiu dar palco ao colaborador e à sua mulher, também colaboradora da organização, para falarem sobre o impacto da doença, os desafios e os sonhos que continuam a ter.
«A town hall foi sobre o Rui», contou. «Foi a maior lição de diversidade e de empatia que nós podíamos ter tido.» A mobilização dos colegas levou já à angariação de mais de 15 mil euros para a adaptação de um carro para a família. «As nossas circunstâncias podem mudar a qualquer momento», sublinhou.

O idadismo continua presente nas empresas
A questão da longevidade e da convivência entre gerações trouxe outro dos grandes temas da conversa: o preconceito etário no mercado de trabalho. Mónica Chaves lembrou que Portugal está a envelhecer rapidamente e que as organizações continuam pouco preparadas para essa realidade.
«Hoje já somos 25% da população e representamos 59% dos consumos domésticos», referiu. Ainda assim, os números continuam a revelar resistência à contratação de profissionais mais velhos. «Apenas 5% das grandes empresas portuguesas recrutaram pessoas com mais de 50 anos no último ano», afirmou.
Para a especialista, persistem preconceitos associados à capacidade de adaptação, aprendizagem ou utilização de tecnologia por parte das gerações mais velhas — ideias que os estudos contradizem. «As novas gerações mais velhas nada têm a ver com as gerações homólogas de há 20 ou 30 anos atrás», defendeu.
Cinco gerações no mesmo local de trabalho
Segundo Mónica Chaves, as empresas vivem hoje uma realidade inédita: nunca coexistiram tantas gerações em simultâneo no mercado de trabalho. «As gerações Z, millennials, geração X e baby boomers têm perspetivas completamente diferentes, mas isso não significa que não sejam complementares», afirmou.
Os dados apresentados mostram benefícios concretos da diversidade etária nas equipas:
- Aumento de 17% da produtividade;
- Redução de 41% do absentismo;
- Diminuição de 59% da rotatividade;
- Crescimento de 21% da rentabilidade.
Mónica Chaves defendeu ainda que excluir profissionais mais velhos representa uma perda de experiência, conhecimento e inteligência coletiva para as organizações.

«Temos de pensar experiência em vez de processos»
A fechar o debate, Joana Queiroz Ribeiro deixou uma reflexão sobre aquilo que considera ser a grande transformação necessária dentro das organizações.
«Se queremos que seja para todos, todos, todos, temos de conhecer quem somos todos, todos, todos», afirmou. Para isso, defendeu, é preciso combinar dados com proximidade humana. «Os dados não trazem tudo. É preciso estar com as pessoas, ouvir, conhecer e perceber que cada pessoa tem o seu contexto.»
A responsável acredita que o próximo passo das empresas passa por abandonar uma lógica excessivamente centrada em processos. «Aquilo que temos de fazer dentro das organizações é pensar experiência em vez de processos», concluiu.
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Além disso, à chegada, todos receberam a mais recente edição da revista Líder. Dentro do tema de capa – Condição Humana – encontram-se reflexões, entrevistas e artigos que aprofundam o debate deste dia.

