Quando a FIFA decidiu entregar a organização do Mundial de 2026 aos Estados Unidos, Canadá e México, fê-lo a pensar em estádios, adeptos, infraestruturas e capacidade logística. Contudo, há um campeonato que não aparece nas transmissões televisivas, não tem árbitros nem VAR e começa muito antes do apito inicial, esse, é o campeonato da cibersegurança.
Ao longo de mais de um mês, milhões de adeptos irão comprar bilhetes online, utilizar aplicações móveis, ligar-se a redes Wi-Fi públicas, efetuar pagamentos digitais e consumir uma quantidade gigantesca de conteúdos através de plataformas digitais. O palco é global, a cobertura mediática é permanente e qualquer incidente pode transformar-se numa notícia internacional em poucos minutos. Se transformássemos este desafio num jogo de futebol, os três países anfitriões entrariam em campo com estilos muito diferentes.
Os Estados Unidos assumem, naturalmente, o papel de favorito. Não apenas porque concentram algumas das maiores empresas mundiais de cibersegurança, mas porque possuem uma das arquiteturas de defesa digital mais sofisticadas do mundo. A experiência acumulada em grandes eventos, a capacidade de coordenação entre entidades governamentais e privadas e o investimento contínuo em capacidades de ciberdefesa e intelligence fazem dos anfitriões norte-americanos uma verdadeira potência.
Mas ser favorito também tem o seu preço e quem veste a camisola de líder mundial torna-se automaticamente o principal alvo: quanto maior a exposição, maior a superfície de ataque.
É precisamente por isso que o país continua a enfrentar campanhas diárias de ransomware, espionagem patrocinada por Estados, operações de influência e ataques dirigidos às suas infraestruturas críticas. No futebol dir-se-ia que joga constantemente sob alta pressão.
Do outro lado da fronteira, o Canadá entra em campo sem o estatuto mediático do seu vizinho, mas com uma organização que qualquer selecionador invejaria. Se os Estados Unidos impressionam pelo talento individual, os canadianos destacam-se pelo jogo coletivo. A sua estratégia nacional de cibersegurança assenta na coordenação, na prevenção e na resiliência, privilegiando uma resposta estruturada em vez de ações espetaculares. Neste jogo, o Canadá é a equipa disciplinada, que evita conceder espaços e cuja força reside precisamente na consistência. O investimento em infraestruturas críticas, na proteção dos serviços públicos e na colaboração internacional permitiu construir um ecossistema mais forte, onde a palavra-chave é confiança. Ainda que, não tenha a profundidade tecnológica do mercado norte-americano, dificilmente alguém o acusará de improvisar.
Depois temos o México que durante muitos anos, foi visto como o elemento mais vulnerável deste trio, consequência de um investimento historicamente inferior em cibersegurança e de uma transformação digital que avançou mais depressa do que a capacidade para proteger os seus sistemas. Nos últimos anos, porém, o cenário começou a mudar e, com o Mundial, o México sabe que estará sob o olhar do mundo e que qualquer fragilidade poderá ter consequências que vão muito além do futebol. Essa consciência tem impulsionado investimentos significativos na proteção das infraestruturas críticas e na criação de equipas mais preparadas para responder a incidentes.
Ainda assim, continua a enfrentar desafios importantes. A escassez de especialistas, a desigualdade de maturidade entre organizações e a elevada atividade do cibercrime financeiro mantêm o país numa posição de maior vulnerabilidade relativamente aos seus parceiros norte-americanos. No entanto, como tantas vezes acontece no futebol, as equipas que entram sem favoritismo, são frequentemente aquelas que mais surpreendem pela positiva.


